20 de setembro de 2014

A turminha do Lello. Numa escola perto de si.



Para escrever este post, deixo-me de leviandades, ponho de lado a máscara social, abro o peito às balas, ao preconceito e ao medo, de me ferir, de me arrepender, e de errar na minha análise inquinada por tradições e crendices das quais não tenho ainda maturidade suficiente para me afastar.
Não tenho maturidade, é bem certo, não assentei os arraiais do pensamento, não consolidei as ideias espartanas da idade adulta, não li o suficiente, não sei o suficiente, e posso mesmo ser falha no julgamento que faço hoje, derramando nesta folha virtualmente branca, a grande nódoa da discriminação.

Ainda assim, arrisco-me à critica dos que me lêem anonimamente, e porque não posso deixar de ser um ser pensante, questionador, venho, quiçá com ideias retorcidas sobre temas lineares, julgar os que não me são nada, e tendo, como todos, o livre arbítrio para me achar no direito de fazer o julgamento que acho mais acertado para este assunto que se me apresenta. Vil.

E sobre o tema da comunidade cigana, a minha opinião esculpida por todas as circunstãncias atrás referidas, é muito particular, porque foi formada em parte pela experiência social, em parte pela cadeiras da faculdade, (tão profícuas a ensinar para a diferença), e em boa parte, pelo nível de maturidade em que me encontro neste momento.
Eu, no que respeita aos ciganos, não consigo ver a árvore.

Aliás, o que vejo é uma ilha, cercada de água por todos os lados, composta por um denso mato alto, alguns animais ferozes, progenitoras sedentas, e um jugo poderosíssimo dos anciãos iletrados, sofridos, com uma composição genética talhada unicamente para a sobrevivência dependente e perfeita, tal como a bactéria multirresistente faz do seu complacente hospedeiro.
O povo cigano, ou os filhos do vento como gostam de romancear, são um povo isolado, pouco evoluído na socialização, reprodutor de comportamentos anti-sociais, tradicionalmente aceites e aprovados pela sua comunidade, que se desenvolvem como uma seita, que conscientemente e orgulhosamente reproduz a cada geração, o mal que a todos perturba. 

Os ciganos não pagam impostos. 
Os ciganos roubam e mordem a mão que lhes dá o sustento.
Os ciganos enganam como respiram.
Os ciganos são sujos, cheiram mal, não lavam os cabelos e não fazem a barba.
Os ciganos dizem palavrões, gritam muito alto e agem em matilha.
Os ciganos não gostam de 'nós'.
Os ciganos não gostam da escola.
Os ciganos têm piolhos.
Os ciganos atormentam o bairro com tiros e cantorias.
Os ciganos fazem fogueiras na rua da cidade mais linda.
Os ciganos conduzem Mercedes mas não tiram a carta.
Os ciganos são todos muito ricos, mas andam à pobre para sacar o nosso dinheiro.
Os ciganos não servem para nada.
Vamos matar os ciganos e viver felizes para sempre.

Eu, no que respeita aos ciganos, não consigo ver a árvore.
Mas consigo ver o fruto.
Antes de começar a debitar as minhas ilações sobre os ciganos, deixem-me dizer-vos que há pouco tempo tomei conhecimento da criação de uma turma só com filhos de professores, numa escola da Metrópole, 
É.
Caminhamos pois para uma sociedade segregadora, onde só os melhores, os mais ricos e os filhos dos mais cultos (professores?) podem ter acesso à educação de qualidade.
Os meninos, super-inteligentes e com pouca resistência ao seus pares, (filhos dos homens do campo, ou das cidades, ou do trabalho - nós todos portanto), não podem misturar-se e não podem ser incomodados com as perguntas estúpidas nas salas de aula, com a pequenez do cérebro dos filhos dos outros profissionais, para que não interfiram na sua evolução super-sónica, em comparação com a lentidão evolutiva dos outros. 

E agora?
Em que ficamos?

Pois bem. Eu para já fico atónita. 
Não sou mais que ninguém e também eu, e quem é que eu quero enganar, sou uma segregadora em potência dos ciganos. Tenho o meu quê de comportamento discriminatório, sou um produto inacabado (e imperfeito) das minhas circunstâncias e da minha educação. Nunca tive piolhos. Não gosto de piolhos e ainda menos de piolhosos.
Se gosto dos ciganos? 
Não sou fã de ilhas isoladas.

Olhem lá com atenção para aquelas carinhas ali da fotografia. 
Parece incrível a semelhança com alguns dos nossos pais e avós, em crianças.
Descalços, sem instrução, labregos, pobres, pequenos nadas, pequenos homens, ranhosos.
Podia ser eu. Podiam ser vocês.
Mas não. São ciganos, são o fruto podre da floresta.
E é aqui que eu quero chegar.

Então vamos agora, agora?, regredir e criar guetos dentro da escola, como se faz no Jardim Zoológico de Lisboa, jaulas de animais ciganos, como bichos selvagens que mordem e rapinam as pobres borrachas e canetas dos meninos civilizados?
Mandamos para a forca um professor, para tentar a domesticação destes meninos ranhosos e com piolhos, evitando a todo o custo que se misturem e aprendam as regras da sociedade onde se inserem?
É isto que querem fazer? 
Criar uma revolta latente nestes meninos, que por sorte ou por adrego, nasceram numa família diferente, que nos incomoda muito, a nós e às nossas convenções de merda?
São agora os professores desta escola (que de outros professores não posso alvitrar tal acusação - por ser injusta e mentirosa) os novos justiceiros da sociedade? Os que separam o trigo do joio para criar uma sociedade impoluta e livre de piolhos?
Que estupidez foi esta, senhores?
Crês mesmo que assim os meninos ciganos, coitadinhos, não têm culpa, se sentirão mais aconchegados na sua jaula com os outros ciganos da mesma espécie?
É assim que querem ensinar os vossos filhos e os filhos dos outros? Para a diferença ou com a diferença?
É a seleção natural que almejam ou é a soberba de vos parecer melhor assim? Mais prático. Mais asseado. 
Eu não quero a minha filha numa escola onde há uma turminha do lelo. 
Já bem basta a dificuldade de lhe explicar que a diferença faz parte de todos os frutos, que não há nenhum igual, e que todos fazem uma bonita cesta, e agora querem ensinar-lhe que os frutos devem ser todos separados porque as bananas são mais nutritivas que o pêro?
E se for um deficiente? Vamos po-lo numa salinha sozinho a bater com a cabeça na parede? E se de repente ela própria tem essa experiência de forma pessoal?
Vai matar-se de medo e esconder o filho em casa? Como faziam os grandes senhores da terra ao pretos seus filhos?

A mim custa-me muito que os alguns ciganos não queiram dar-se uma oportunidade de evoluir e que privem os seus filhos da escola, da sociedade e da instrução. Custa-me que possam ser violentos, barulhentos, perigosos, mafiosos, um sem número de predicados pouco abonatórios. Mas são únicos?
Custa-me vê-los contra tudo e contra todos, desejando apenas que os deixem em paz, com os bolsos livres de impostos, gritando impropérios às senhoras da Seg. Social, mas custa-me muito mais, ver os outros, os super-sónicos letrados, a criar um fosso ainda mais profundo entre a fruta podre e o oásis no deserto.

Custa-me, e por isso voto contra.
Quem foi o cabecilha disto?
Há muita fruta podre neste mundo, e ademais, é comida com grande prazer.
Parece-me que este professores, revestidos de uma infantilidade gritante e descabida, ainda não aprenderam que para mudar o mundo temos de começar pelas minorias. Agir localmente e pensar globalmente.
Alguém que lhes diga isto. 
Por favor.

28 comentários:

  1. Respostas
    1. Somos todos uma espécie de ciganos. Se fores a ver qualquer minoria pode ver-se neste espelho. Suponho que não queiras comentar o texto, mas se tiveres alguma coisa a dizer, diz. Nunca tive uma resposta séria desse lado. De resto estou atonita com a situação. Uma coisa grotesca o que fazem a estes miúdos. Isto devia acabar e já.

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  2. Talvez não tenham sido os professores a tomar a decisão. Também me pareceu uma decisão estranha, segregar em vez de incluir.

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    1. São os professores que fazem as turmas. Penso que isto responderá à tua pergunta. Decisão estranha? Isto é Hitler no seu melhor.

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  3. É uma terrível tentação, esta.
    Muito se discutiu, também, a criação de "turmas de nível" este ano... A legislação até prevê! Já pensaste no que isto pode dar? Iguais com iguais. Cada vez mais diferentes!

    Beijinhos Marianos, Uvinha! :)

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    1. Maria, há tanto a fazer neste país de ignorantes. Turmas de nivel.... admiravel mundo novo. Um beijo.

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  4. Olá Uva, boa-noite.
    A minha opinião, baseada na vida que já vivi, pelo que conheci e quase por meio mundo com quem convivi, é a de que sou contra qualquer tipo de discriminação racial sem distinções de cor ou credos.
    Em todos que conheci encontrei gente boa, razoável e má.
    Sendo que esta última encontrei-a com incomensurável prevalência nos europeus, especialmente entre os meus concidadãos.
    Resto de uma boa noite e um excelente Domingo
    Corvo

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    1. Gente má, gente estranha. Que país é o meu?

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  5. Boa noite,
    vamos deixar-nos de demagogias! Nem em turmas homogéneas nem em turmas heterogéneas. Os ciganitos, herdando os valores dos seus pais e avós, não estão vocacionados nem motivados para as aprendizagens formais. Quando é que as pessoas vão interiorizar que os ciganos só mandam os ciganitos para a escola porque têm as refeições, o material escolar «à borlix» e a sua frequência garante o rendimento de inserção?
    Quando é que nos vamos deixar do «politicamente correto» e «chamar os bois pelos seus nomes»?
    Porque é que publicamente afirmamos «Ai, coitados, são vítimas de discriminação?» quando mentalmente estamos a afirmar «Filhos da p***, não pagam impostos, ando eu a trabalhar para estes chulos?». Pessoalmente, não gosto de ciganos e não é «porque não», é porque já tive experiências pouquíssimo agradáveis com pessoas dessa etnia. É não venham com a velha história do não tomemos a floresta pela árvore, pois esta comunidade herda de geração em geração os seus valores. O racismo não é unilateral, esta comunidade é bastante racista em relação à nossa, não há que ter ilusões.

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    1. Concordo na generalidade, caro anónimo, com o que escreve.
      Eu disse no meu texto o que achava dos ciganos. Fui clara.
      Refiro-me apenas ao exemplo da escola.
      Talvez o problema seja efetivamente o de querermos obrigar os ciganos a terem uma vida como a nossa, a andarem na escola, a instruir-se e serem parte integrante da nossa sociedade.
      Pagamos aos ciganos para isso. E eles sabem.
      Concordo que nesse prisma seja uma demagogia, e quem sou eu para dizer que não.
      Mas, é como refiro, não acho bem e não quero acreditar que se repita, e que criem guetos na escola, como se fossem animais.
      Por outro lado, há de concordar, que se deixamos os ciganos todos à deriva, todos por aí sem controlo, sem acompanhamento e sem dinheiro, que se transformarão numa comunidade ainda mais violenta. Revoltada.
      Bem sei que andamos a querer curá-los e o que eles querem é estar doentes.
      Mas na escola? Não acho bem.
      Eu por mim, continuava a curá-los. Mas isto sou eu.
      Um abraço.

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    2. Boa tarde,
      agradeço a sua resposta dada com educação, o que nem sempre se verifica em todos os blogs e respeito a sua opinião. Obrigada e cumprimentos.
      Fernanda

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    3. Fernanda, isto é um blog às direitas, miúda!

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    4. Querida Uvinha,
      com o caos que o «Sodono Nuno Crato, o Ingrato» instalou nas escolas, não me sinto uma miúda de 42 anos + IVA, mas sim a Super Nanny ou a Super Avozinha.
      Fernanda

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    5. Se não fossem as super avózinhas o que seria dos nossos filhos....

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  6. «Parece-me que este professores, revestidos de uma infantilidade gritante e descabida, ainda não aprenderam que para mudar o mundo temos de começar pelas minorias.» Criticar com esta leveza, para além de ser deselegante,não chega, pois não resolve nada. E que tal se a senhora começasse por si a tentar mudar o mundo? Ou espera por acaso que sejam apenas os professores a fazê-lo?! Pode por exemplo dirigir-se a uma junta de freguesia onde exista uma vasta comunidade cigana e propor-se como voluntária junto da mesma. E se a senhora se considera «uma super sónica letrada» pode sempre contrariar esse defeito e propor-se a viver segundo as regras e condutas dos ciganos?!

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    1. Caro anónimo.
      Mantenho, com a mesma elegância do seu comentário, que agradeço, a resposta ao mesmo.
      Aos 25 anos terminei a minha formação em Serviço Social. Não precisarei pois de mudar o mundo voluntariamente, e foi precisamente numa Junta de Freguesia, com uma grande comunidade cigana, que iniciei o que julgava ser a mudança do mundo. Infantilidades.
      Talvez não me tenha explicado bem, mas foi precisamente por considerar que não devem ser apenas os professores a fazê-lo, que tomei da minha liberdade de expressão para contrariar o que aqueles professores de Tomar (só a esses me referi) a fazê-lo por si próprios.
      O motivo pelo qual escrevi "infantilidade" foi somente porque, julgo, foi infantil julgarem que sozinhos, aplicando a fórmula mágica de criar um gueto cigano na escola, poderiam mudar a forma como os ciganos vivem a sua cidadania e a relação com a sociedade que os acolhe, apesar da sua evidente raiva.
      Tem com certeza uma ideia melhor para o problema.
      Eu não preciso de estar doente para tratar o paciente. Isto para responder sucintamente à sua última pergunta.
      Um abraço.

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    2. Boa noite,
      as minhas desculpas pois pensei que falava sem conhecimento prático de causa. Dou-lhe os meus parabéns pela sua intervenção cívica como voluntária. Eu penso que também já contribui um pouco para a «socialização» dos ciganitos, pois já fui professora do 1º CEB de alguns. Sempre como alunos de turmas heterogéneas e nunca de turmas homogéneas como esta, a qual considero uma «aberração». É agravar ainda mais o fosso e a diferença. Cada um à sua maneira, tentaremos diminuir estas assimetrias. Obrigada e cumprimentos.
      Fernanda

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    3. Não quero desculpas. Só quero um comentário bem defendido, e educado. De resto, estamos todos a partilhar ideias. Nada de mais. Um abraço.

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  7. Epá, isto é inacreditável. Se discriminação é inadmissível, segregação é inadmissível, aberrante e chocante. Não pode ser, caneco.

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    1. Agora fizeste-me lembrar uma história que o meu avô sempre me contava sobre a minha prima.
      Um dia ela a brincar comigo pregou-me uma valente dentada.
      A mãe dela foi logo em sua defesa dizendo: mas ela não morde!
      E o meu avô retorquiu: Não morde, mas mordeu!

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  8. Demagogias ou não à parte, o que eu sei é que a noticia indica numa turma de ensino primário um miúdo de 11 anos na 3ª classe e um de 14 que não especifica qual o ano em que anda, sendo que o de 11 anos terá chumbado (mais do que 1 vez) por faltas, não sei como estão as coisas neste momento mas tempo houve em que uma situação destas com miúdos não ciganos daria azo a intervenção da comissão de proteção de menores.

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    1. Miudos 'não-ciganos'. Pois daria, ó se daria.
      Mas depois quem é que adota um cigano?

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    2. Pois, mas miúdos que não sejam ciganos também não é fácil pois não?
      A questão aqui é as duas bitolas, não digo que concorde com o que foi feito nessa escola, mas chateia-me de sobremaneira a bandeira da xenofobia e racismo quando em 95% (se não mais) dos casos são os próprios indivíduos desta etnia que se colocam à parte da sociedade. Os defensores dirão que é da sua natureza, que são nômadas e por isso não terão que se enquadrar nos nosso padrões, mas se assim é então porque é que lhes são dadas habitações que na sua maioria destroem? Porque é que lhes são atribuídos subsídios e se obrigam as crianças a ir à escola, permitindo no entanto que miúdos de 14 anos ainda andem na primária? das duas uma, ou os queremos integrar e os obrigamos a respeitar a sociedade onde estão inseridos, dando-lhe direitos, mas acima de tudo deveres como todo o comum cidadão, ou os deixamos andar como querem sem ser á conta dos subsídios pagos por quem eles não respeitam.

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    3. Toda a razão.
      Como já respondi lá em cima "Talvez o problema seja efetivamente o de querermos obrigar os ciganos a terem uma vida como a nossa, a andar na escola, a instruir-se e serem parte integrante da nossa sociedade. Por outro lado, há de concordar, que se deixamos os ciganos todos à deriva, todos por aí sem controlo, sem acompanhamento e sem dinheiro, que se transformarão numa comunidade ainda mais violenta. Revoltada."
      Não é uma questão nada fácil.
      Mas eu quer-me cá parecer que a atitude foi do piorio.
      Mas é a minha opinião. Sei e aceito, que há opiniões diferentes e todas elas merecem o meu respeito, mas atitudes destas é que não.
      Obrigada e um abraço.

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    4. Ninguém adopta um cigano porque eles nunca estão livres para adopção. Os pais "precisam" deles para não perderem os apoios e nunca abdicam deles. Mais depressa mudam de casa do que deixam que as autoridades lá vão para o levar.
      Se começo a falar das minhas experiências com ciganos tenho de arranjar um blog só para isso.

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    5. Ui!
      Eu percebo muito bem isso, ó se percebo.

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  9. Este comentário foi removido pelo autor.

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    1. Precisamente. Era exatamente isso que eu queria dizer.
      Olá Sol Negro! ;)

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