30 de setembro de 2014

Saudades da minha terra. Saudades minhas.

Dizem os antigos que o melhor que se leva desta vida é uma única e simples memória.
No fim do dia de uma vida inteira, quando o sol afrouxa já a luz do caminho, e as pedras do chão se enchem de sombras oblíquas e trémulas, como as lágrimas, felizes serão os que fizeram perdurar essa memória única e a possam reviver, com a mesma intensidade da morte, no último momento da sua vida.
Mas como, se as memórias são tantas?
Mas como, se o momento do fim é curto, pode até ser fortuíto, astuto, e roubar-nos a vida num minuto?
Simples.
É guardar durante o caminho um só passarinho na mão, e no fim, abrir as asas do pensamento e (revi)ver só um passarinho a voar, em vez de um bando barulhento, imenso e confuso.
De memórias.
Tenho lembranças do meu caminho, de grandes amores em muitas cores, e outros tantos desamores, a criança que me nasceu, o homem que me prendeu, o que fiz e conheci, as pessoas que encontrei, algumas por quem chorei, e as outras, muitas, para quem vivi.
Mas há uma que perdura. É a mais antiga, e a mais profunda, e foi essa que escolhi guardar, ou antes, aquela que escolheu guardar-se em mim, para que eu possa voar, e serenar, sempre que não vejo uma saída, ou um fim.
Hoje tive saudades minhas. Tive saudades de mim.
E agarrada à minha memória, fui pelo tempo fora, e encontrei-me naquele caminho, comigo.
As amoras do silvado, a água fresca num cocharro, o calor intenso do verão, uma burra pela mão.
Era um Alentejo tão grande, era uma família distante, era o cheiro das estevas, a terra dura feita em pó, o cabelo tão comprido da minha bisavó e uma corrida até ao monte.
Eram quinze hectares de calor.
Eram quinze arrobas de amor.
Que saudades desse dia, tão aberto, tão liberto, de criança.
Às vezes penso comigo, e digo:
Quem guarda as nossas histórias?
Quem nos protege (d)as memórias?


"Chora por mim, que eu,
Choro por ti.
E já deixei o Alentejo."

29 de setembro de 2014

Sim, sim, já fui gastar dinheiro numa máquina de lavar a roupa.

Mas então estás felicíssima não é verdade? Já deste cabo do cesto da roupa suja, sua granda maluca, hem, isso é que foi, hã, um fartote de estender-apanhar-passar o domingo inteiro, uma maravilha, hum, conta lá?

Em primeiro lugar, não conheço ninguém (da minha classe social), que fique contente por gastar uma pipa de massa num electrodoméstico novo, seja ele qual for, a menos que sejam daquela seita perigossíssima que persegue pessoas, às vezes durante anos de seguida, para fazerem demonstrações das máquinas bimby.
Em segundo lugar, não conheço ninguém que goste de fazer o Caminho-das-Máquinas, ou o Caminho-para-a-Meca-das-Máquinas, com uma gaiata muito chata atrás, que me puxa continuamente a manga do casaco para falar sobre DVD´s de Esquilos, dias inteiros, como se pertencesse também ela a uma seita perigosíssima,  mas ia eu dizendo, não conheço ninguém que goste de andar para trás e para diante, numa loja apinhada de gente, tudo aos atropelos, aos encontrões, à cata de descontos igual ao IVA, borlas, barateiras e essas coisas que os pobres gostam, a olhar para um lado e para o outro, numa fila contínua de máquinas todas iguais, onde supostamente se deve escolher, com calma e consciência, o bom-bonito-e-barato, e não num espaço muito curto de tempo, porque a malta (da minha classe social) levanta-se tarde ao domingo e depois respira-se duas vezes e já são horas de almoço.
Em terceiro lugar, nasci indecisa, e quem nasce torto, bom, a minha mãe sabe esta lenga-lenga como ninguém.
Escolhi uma máquina que não gosto, com um preço que não gosto, de uma cor que não gosto, de uma marca que não gosto e com um prazo de entrega que não gosto.
Por isso não me venham aqui visitar nos próximos dias que eu vou estar muito mal disposta.

Mas agora a sério: as lojas de eletrodomésticos conseguem vender máquinas de lavar a roupa que só entregam 2 semanas depois da compra? 
Realy?
Desculpem lá, mas assim é fácil entender porque é que a economia não anda para frente. E nem para trás.
Igualzinha à fila para pagar. 
Assim de repente acho que me sentei para almoçar já passava da hora do lanche.

27 de setembro de 2014

Coisas que toda a gente tem menos eu 5#

Uma máquina de lavar a roupa.
Não tenho.
Não tive no sábado, não tive no domingo, não tive a semana toda, e hoje também não tenho.
Amanhã é outra vez domingo, e máquina nem vê-la.
Suponho que um casal normal já tivesse tratado do assunto, mas vamos lá ver, nós não somos um casal normal, e isso, parecendo que não, pesa.
Hoje, enquanto lutava para fechar a tampa do cesto da roupa suja, da mesma maneira que luto com a mala das férias, resolvi sentar-me calmamente e rebobinar o assunto, só naquela de  perceber onde é que eu falhei o que leva um casal moderno a ignorar um assunto tão importante, como é um grande electrodoméstico.
No sábado explodiu a máquina. Fez fumo e quedou-se antes da centrifugação.
Ora toda a gente sabe que no dia dos acidentes ninguém tem cabeça para resolver nada.
No domingo, armada em xica-esperta, tentei lavar uma toalhas de banho, pois aquilo que se passou no sábado podia muito bem ser uma explosão passageira, daquelas que eu às vezes tenho e que me passam logo de seguida. Afinal a máquina é uma miúda, e as miúdas são todas iguais.
Ela encheu, eu sorri, ela começou a rodar, eu senti os bolsos mais pesados, ela rodou duas vezes, eu achei que ia bem lançada, e depois cheia de água, estancou.
Na segunda ainda não tinha conseguido abrir o raio da portinhola. Discutimos como um casal normal porque supostamente eu fui uma anormal.
Não concordei e discutimos um pouco mais. Depois fomos dormir.
Na terça fomos ao petisco e viemos um bocadinho fora de horas.
Na quarta decidi que as toalhas deveriam sair à força e quando consegui espatifar aquilo tudo, saíram-me as toalhas com um cheiro muito estranho. Fiquei mal disposta, e com a cozinha inundada.
Na quinta, a rainha da fonísse, que sou eu, resolveu chamar um técnico especializado.
Morreu minha senhora. Compre outra. São 50,00€. Fique com o meu cartão e passe bem.
Na sexta trouxemos caracóis. E estavam bons. Foram os últimos do ano, a loja vai fechar, que se lixe a máquina.
Sábado é hoje. Estou a trabalhar desde as oito da matina. Mandei o marido à RP por causa da promoção do IVA. Chegou feliz da vida. Comprou uma máquina para tirar borbotos.
Não percebo para que quer uma máquina de tirar borbotos se não temos roupa.

Ouvi agora mesmo um estouro.
Fui ver.
Foi o cesto da roupa suja que explodiu.
Vou recapitular...






26 de setembro de 2014

Recibos Verdes - Subsídio por Cessação de Actividade

O subsídio por cessação de actividade destina-se a trabalhadores independentes que tenham perdido a sua maior fonte de rendimento.

Condições para ter acesso ao subsídio por cessação de actividade:

– Ser trabalhador independente (freelancer e/ou a recibos verdes, etc.) e economicamente dependente de uma entidade contratante (80% dos rendimentos vêm da mesma entidade);
– Ter cessado o vínculo contratual com a principal entidade contratante involuntariamente;
– Ter acumulado 720 dias (sensivelmente dois anos) de actividade independente;
cv-template
– Ter efectuado o pagamento das contribuições durante o período acima descrito;
– Ter sido considerado economicamente dependente de entidades contratantes pelo menos em dois anos civis (um deles obrigatoriamente o anterior a pedir o subsídio);
– Ter sido considerado economicamente dependente à data da cessação do contrato de prestação de serviços;
– Estar inscrito no Serviço de Emprego da área de residência. 

Duração do subsídio por cessação de actividade:

Depende da idade do beneficiário e do número de meses com registo de remunerações para a Segurança Social desde a última situação de desemprego.
– Idade inferior a 30 anos: 330 dias de subsídio (+30 por cada 5 anos com registo de remuneração nos últimos 20 anos)

Mais e melhor informação, aqui: Segurança Social

E se for a felicidade?


Deixa entrar!
Bom fim de semana a todos.
Uva Passa

Ai Costa! A vida costa.

Liga o computador, poisa a carteira, pendura o caso, ajeita os óculos na cara, vai lavar as mãos, mete a password, ajeita o teclado, mexe nos papéis, afasta o telefone, descobre a caneta, arruma o jornal, vai buscar água, diz bom dia ao colega, abre o outlook, abre os de hoje, arruma os de ontem, e chega mais um, e chega mais outro, entala o pé na cadeira, telefona para a receção, pede uma chamada, hoje não é possivel, falharam a visita, chove no telhado, o orçamento está caro, a cadeira estra partida, a flor já murchou, o dinheiro não chegou, o carro na revisão, a viagem é muito cedo, a TAP não atende, o cartão não dá crédito, a pen está estagada, o CD ficou riscado, o telefone sem pilha, a garrafa está vazia, acabaram-se os agrafos, o furador entupiu, o autoclismo não deita, a lâmpada está a piscar, ajeita o tapete, abre a porta ao senhor, as garrafas pesam muito, o papel no elevador, abre as fitas com tesoura, não encontra os acetatos, arruma a fita cola, chega um atrasado, vai buscar um pingado, acabou-se a tisana, o bolo está estragado, faz um track changes ao ditado, passa lá o atestado, a procuração não assinada, a data estava errada, levanta o estore, ajeita o cortinado, está um vento desgraçado, o dossier desapareceu, o livro abandonado, e tirem-me deste fado.
E tirem-me deste fado.
E tirem-me deste fado.
Que o meio-dia chegado, está o dia passado.
E tirem-me deste fado.
E tirem-me deste fado.

Designers

Nunca tinha recebido tão ilustre convite.
O meu nome num quadradinho perfeito, chegou-me desafiador à secretária, num desses dias cinzentos da semana passada.
Festa!
O dia nacional de um país tropical, cheio de música e caipirinhas, cheio de jet-set e jat lag, gente bonita, gente importante, embarcadiços, fardados, marinheiros, o Embaixador, a Senhora do Embaixador, os capangas do casal, enfim, muito samba no ar. 
Tudo isto estava ali estampado na minha mão e olhava para mim como que perguntando: queres vir?
Sim, quero muito.
Vamos coração?
Vou ali abaixo à Mango, ou à Zara, umas das duas deve ter um vestidinho leve e barato, que me sirva, tu vestes as calças novas, eu tiro os pelos das pernas, tu calças os sapatos do casamento, eu ponho umas rosetas na cara, e havemos de chegar cedo, para cumprimentar toda a gente, como manda o Protocolo, tu apertas a mão ao Embaixador, eu dou um beijo à Senhora, e entramos confiantes, como se o convite não fosse só um pequeno mas lamentável engano.
Deixei-te ver o convite e confiei-to para que visses a morada, porque essas coisas são sempre estranhas, já se sabe, que esta gente da diplomacia divide-se em inúmeras casas para fugir aos terroristas, e tu, muito contente, havias de organizar a ida, ver tudo no google maps, escolher o melhor caminho, para não darmos a barraca do costume.
E eu vi-te todo interessado, não na festa mas no papel, impresso num Mac ultra moderno, com uma Lucida Calligraphi  impecavelmente desenhada a ouro, e ai que é um Fabriano, e ai que lindo cunho dourado, e isto deve ficar caríssimo, e a perfeição dos espaços, e o pormenor do enquadramento, e rodopiavas e sopesavas o pequeno papel do convite, como havias de siderar os teus lindos olhos na jóia mais linda da rainha.
No dia da festa, atrasados mas contentes, entrámos na carripana velha que pensávamos esconder nos arbustos da Avenida, porque havíamos de sair por detrás de um grande carrão azul, desses com os vidros fumados, para que todos nos olhassem, e vissem um casal-glamour, nos píncaros da beleza, nos antípodas da perfeição.
- Mas não está aqui ninguém!
- Não pode ser. Isto é a Festa Nacional, devia de estar cheio de gente.
- Pois era...
- Mas tu não viste o convite? Caramba, tiveste horas de volta disso!
- Eu vi o convite, era na Embaixada não era?

Não, não era, coração.
Era na Residência do Embaixador.

E assim se chega à festa, uma hora depois, numa carripana velha, já o Embaixador dormia... 

Ditado: Não te cases com um designer mecânico porque cheira a gasolina, casa-te antes com um médico, que te ensina a medicina.

25 de setembro de 2014

Doida por cadeiras!

A inspiração para escrever é algo que não se explica.
A pessoa pode estar em frente ao espelho do quarto a pintar as pestanas, pode estar de volta dos atacadores dos sapatos, toda curvada em cima da barriga, pode estar a lavar uma pecinha de roupa, ali de volta do colarinho, pode estar à janela a ver a chuva lavar a roupa toda, outra vez, ou pode estar como eu estou, há cerca de dezoito horas a furar papeis, e a pensar que se aqui fico sentada mais um minuto, das duas uma, ou fico (um pouco mais) maluca, ou o rabo vai completamente quadrado para casa, o que é no mínimo desconcertante, sobretudo para quem... bom.
Avancemos.
O meu pensamento, outrora meticuloso e perfeccionista, completamente a marimbar para as dores do corpo, da alma e de tudo o que trago comigo cá dentro, fazia tarefas monótonas e suplicantes como quem faz a maratona noturna de Lisboa, com o caga-lume na testa.
Com alegria, vigorosidade, velocidade, enfim, correndo pela cidade qual super-secretária-bip-bip perfeita e humilde.
Mas hoje, contrariando esses tempos áureos, em que nada me fazia distrair do trabalho (que liberta?) a minha atenção focou-se noutra coisa, digamos que, completamente simplória, nada comparada às iluminadas epifanias ou às intrincadas redes que se estabelecem, sublimes e perfeitas, no meu elevado conjunto de neurónios. 
- Doem-me as cadeiras!
Pudera, estás sentada há dezoito horas, estúpida!
Cadeiras, cadeiras, cadeiras.
Uma súbita inspiração regou-me a alma murcha e levou-me a este maravilhoso post com que vos presenteio.
Mais um.
Sou doida por cadeiras, e já disse ao meu chefe que vou deixar o cargo de Secretária, porque na verdade, as mesas não me dizem nada.
Assim sendo, venho aqui hoje, depois de furar oitocentos milhões quinhentas mil e cinquenta e duas folhas, mostrar-vos o que realmente me interessa.
A mim e à minha única (mas esforçada) sinapse de hoje.

Bem vindos (mais uma vez) ao meu delírio.
Sentai-vos.
A casa é vossa.
 




 










Metro de Lisboa

Os grevistas já chegaram das férias.

Não sou religiosa

Mas isto tem a mão de Deus.

Oscar Ribeiro Teomar de Almeida Niemeyer Soares Filho (1907-2012).
Who else? 





 

 


Lindissima. 
Este Arquiteto deixa-me louca.

OBRA:
Catedral Metropolitana de Nossa Senhora Aparecida, mais conhecida como Catedral de Brasília, é a catedral metropolitana de Brasília, capital do Brasil. 
É a Sé arquiepiscopal da Arquidiocese de Brasília.

24 de setembro de 2014

Home is where someone runs to greet you. Auuuuuuuuuuuuuuuuuu Ouououououuouuuuuuuuu

Uma coisa fofinha, vá, um bocadinho distante aqui (black) blog da Uva Passa(da), para não ser sempre tudo só desespero e Portugal na merda e nós na merda e tudo uma merda, que um amigo aqui da cesta me enviou (e muitos many thanks amiguinho que gostei muito), sabendo que lá por casa anda a rebaldaria à solta por causa da escolha do cão.
Ó pá!
Assim nem no Natal, rapaz, do ano que vem.












Podem desbundar isto melhor AQUI!

53 e não, ninguém faz anos.

Estava eu aqui sentadinha na mesa da cozinha, à espera, (vá-se lá saber até que horas), para ver se a minha máquina de lavar, essa que me explodiu ontem, em plena centrifugação, sempre me deixa aproximar-me dela, sem que me mande com uma toalha nas fuças.
Para passar o meu tempo, e já lá vão quase nove anos disto, e agora que penso, são engraçadas as coincidências da vida, pois que são os mesmos anos que tem o estupor da máquina, resolvo fazer um cházinho de barbas de milho para ver se a bexiga, esse orgão quezilento, que me faz explodir às mijinhas, várias vezes por dia, me deixa enfim ficar sentada, sem que seja na sanita, a tratar da minha vida.
Estava eu neste bailinho, quando se fixa na retina uma imagem televisiva. 
Algazarra numa escola.
Oláááá, temos manifestação?
E tínhamos.
A escola em causa, muito minha conhecida, encontra-se por estes dias em défice administrativo, nomeadamente ao nível dos mestres, esses mesmo, os que fazem dela a mais prestigiada escola de artes da capital e do nosso portugalinho.
Caramba!
Ele há coisas do camandro, havia de dizer o meu avô, se calhasse a ver o filme.
Cinquenta e três, que foi a conta que Deus fez, é o número de mestres em falta, à data do arranque do ano letivo.
E eu pensei: isto é coisa do Diabo!
Mas não é.
Tanto não é, que os responsáveis por este gracinha, estavam com cara de anjinhos, a falar na televisão sobre o sucesso deste arranque.

Ide lá ver isto, rapazes, e deixei-vos de merdas.
Que de merdas está o inferno cheio e isto! já cheira muito mal.


E depois, por coisas cá da minha vida, sei que há inúmeros (mais de cinquenta e três) professores/mestres, que este ano ficaram com horário zero.
Não é tão engraçada a dinâmica das escolas?

Vou roubar um post à Xaxia

A Xaxia lançou hoje um post muitíssimo interessante.
Falava sobre um tema querido das nossas crianças.
Os dentes de leite da pequenada, são (e sempre foram) uma espécie de amuletos para os pais.
Suponho que alguns devem mesmo ter um cofre no banco para guardar os tesouros. 
Eu não sou melhor e esforço-me para perpetuar esta tradição milenar, que é reservar, como se se reserva a água da galinha para a canja,  todos os dentes de leite da minha filha.
Não me perguntem porquê.
Acho uma coisa parva.
Podia fazer a brincadeira da fada e depois zás! com os dentes no lixo. Mas não.
Deve ser para depois dizer à miúda quando for grande: vês filhinha, estes são os teus dentinhos de leite! Vês tão pequeninos.
Sim?
E as crostas dos joelhos, também guardaste?

23 de setembro de 2014

Cansaço

Está cansada.
Anda sempre cansada.
Levanta-se da cama agarrada ao último sonho da manhã, e nem se lembra que o chão já está frio.
Ninguém no quarto. Acorda vazia.
Zanga-se por não ter tempo para o café, sentada à janela. Mete a culpa nos sonhos que não a deixam dormir senão de manhã.
Está farta de sonhar acordada e de andar sempre a dormir.
Perdeu as forças ainda a noite não era gente, e delas não teve mais notícia. 
Mas a verdade, é que a verdade não se foi. A verdade bate-lhe todos os dias à porta.
É como uma vizinha muito chata perguntando intimidades. Que fazes por estes dias?
Não responde nada e a vizinha vai-se embora. 
Encostada à ombreira da porta, sorve um café pingado e sente um frio estranho nas costas.
Está escancarada.
Mais um dia. Nada na manga.
Solta o cabelo e escorrega para a banheira.
O cabelo no cimo da cabeça, não devia estar tão longe dos braços.
Vê a água cair a pique ao invés de fazer as curvas. Está mais magra. Treme-lhe o queixo.
Anda há dias fazendo tarefas. Mecanicamente. 
Esqueceu-se de marcar o almoço, esqueceu-se que não almoçou, e depois não quis comer. 
E esta fome, que não a deixa.

Mais um dia. Nada na manga. E lá vai ela, sempre cansada.
E esta vida não leva a nada.
E se a vida lhe leva tudo, que leve ao menos a verdade.
E o cansaço.


22 de setembro de 2014

Vai daí, que com todas estas peripécias, eu concluo:

E eu não morro.
Nem que me matem.

Lisboa, és tão boa!

Soube agora, por coisas cá da minha vida, que Lisboa é por estes dias a ilustre Capital do Barco.
Ai sim?
Sim.
Assim como Paços de Ferreira é a capital do móvel, Lisboa transformou-se ao início da manhã, altura em que caiu o primeiro dilúvio da estação das monções, na capital onde só é possível andar numa barqueta, a menos que alguém mais atento tenha trazido as braçadeiras para o escritório, o que foi o meu feliz (a)caso. Olhem para mim aqui a boiar na Avenida.
Bom.
Dizia eu que isto está mesmo bom de ser ver, e Lisboa, essa cidade nos píncaros da modernidade e do design e da arquitetura e do futuro e das instalações, e bem assim, do melhor, reconquistou esse grande paradigma das cidades, que foi o seu estatuto de Cidade Piscatória.
Ela lá em cima, altaneira, e umas quantas alforrecas a nadar, cá em baixo.
Ah, dirão vocês, ciosos, mas a capital do barco é Veneza, e as gôndolas, e coiso e tal.
Mas não, e sabeís porquê? Porque em Veneza não se veem tantos barcos como aqui, uns trinta mil até aos Restauradores, todos em filinha pirilau, com os gondoleiros no tejadilho, alguns a esbracejar, outros a cantar, mas todos eles muito felizes, a boiar na Avenida.
E hoje, logo hoje, precisei de sair aqui do buraco.
E vai ali dar um pulinho à farmácia, esta pessoa doente, cheia de dores na alma, com a cabeça num virote, e o que é que vê?
Não vê nada, porque está tudo alagado. A farmácia está alagada, o passeio está alagado, o Marquês está alagado, as boutiques estão alagadas, o António Costa está alagado, o Zé (Sá Fernandes) está completamente fodido alagado, a malta das manifestações, vá lá que hoje não apareceram, e foi uma sorte, mas metem água na mesma, os Ministros todos alagados, nas reuniões alagadas, com os seus colegas só com água na cabeça, alagados, o metro cheio de gente, parado e fechado num dos túneis da linha, também e felizmente, alagado, e enfim é a puta da loucura o fim do mundo num submarino amarelo.
E agora que penso nas medidas do Zé (Sá Fernandes), até que foi de valor obrigar o catalisador em todos os automóveis, senão o Ministro do Ambiente vinha disparado na sua lancha ultra rápida, também já toda alagada, com o seu fato da Calvin Klein todo alagado, para vir multar os condutores, coitados,  por andarem a poluir o rio da Avenida e matarem os peixinhos.

Só há uma coisinha que eu não percebo.
Então e limpar os sumidouros malta?
Oi, malta?
Malta?????
Olha, sumiram-se?
Glup, glup, glup….

 Se pensarem ir hoje ao Teatro, acho melhor levarem uma bóia.

21 de setembro de 2014

Abrindo gavetas

Há dias assim.
Há dias em que a nossa cabeça, esse grande armário cheio de tralha, resolve rebentar com as trancas.
Tudo se desarruma subitamente, como se uma grande ventania, dessas que entram pela janela e fazem dançar o cortinado, viesse furiosa no dorso de um cavalo, abrir, de chave em punho, o que havíamos trancado com tanto zelo.
E é este vento que me desarruma, é este vento que me ensina que para fechar uma gaveta, a janela não pode, nunca, ficar aberta.
Houve dias assim.
Houve um dia em que decidi fechar gavetas, de joelhos, dobrando lembranças, separando as tristezas.
Sete voltas à chave, sete promessas feitas, sete voltas à cabeça, mas o vento é traiçoeiro.
Volta e meia uma conversa, meia volta uma colega, voltas tantas um problema.
Se eu sempre quis mudar o mundo, porque deu o mundo em mudar-me a mim, e dar-me uma volta na vida?
A roupa velha já não volta a servir?
Hoje, este vento, esta saudade, deixou-me nua.
Como uma gaveta vazia.

Somos para o que nascemos.
E eu nunca devia ter abandonado a minha profissão.
E agora?
Como se fecha esta merda?

20 de setembro de 2014

A turminha do Lello. Numa escola perto de si.



Para escrever este post, deixo-me de leviandades, ponho de lado a máscara social, abro o peito às balas, ao preconceito e ao medo, de me ferir, de me arrepender, e de errar na minha análise inquinada por tradições e crendices das quais não tenho ainda maturidade suficiente para me afastar.
Não tenho maturidade, é bem certo, não assentei os arraiais do pensamento, não consolidei as ideias espartanas da idade adulta, não li o suficiente, não sei o suficiente, e posso mesmo ser falha no julgamento que faço hoje, derramando nesta folha virtualmente branca, a grande nódoa da discriminação.

Ainda assim, arrisco-me à critica dos que me lêem anonimamente, e porque não posso deixar de ser um ser pensante, questionador, venho, quiçá com ideias retorcidas sobre temas lineares, julgar os que não me são nada, e tendo, como todos, o livre arbítrio para me achar no direito de fazer o julgamento que acho mais acertado para este assunto que se me apresenta. Vil.

E sobre o tema da comunidade cigana, a minha opinião esculpida por todas as circunstãncias atrás referidas, é muito particular, porque foi formada em parte pela experiência social, em parte pela cadeiras da faculdade, (tão profícuas a ensinar para a diferença), e em boa parte, pelo nível de maturidade em que me encontro neste momento.
Eu, no que respeita aos ciganos, não consigo ver a árvore.

Aliás, o que vejo é uma ilha, cercada de água por todos os lados, composta por um denso mato alto, alguns animais ferozes, progenitoras sedentas, e um jugo poderosíssimo dos anciãos iletrados, sofridos, com uma composição genética talhada unicamente para a sobrevivência dependente e perfeita, tal como a bactéria multirresistente faz do seu complacente hospedeiro.
O povo cigano, ou os filhos do vento como gostam de romancear, são um povo isolado, pouco evoluído na socialização, reprodutor de comportamentos anti-sociais, tradicionalmente aceites e aprovados pela sua comunidade, que se desenvolvem como uma seita, que conscientemente e orgulhosamente reproduz a cada geração, o mal que a todos perturba. 

Os ciganos não pagam impostos. 
Os ciganos roubam e mordem a mão que lhes dá o sustento.
Os ciganos enganam como respiram.
Os ciganos são sujos, cheiram mal, não lavam os cabelos e não fazem a barba.
Os ciganos dizem palavrões, gritam muito alto e agem em matilha.
Os ciganos não gostam de 'nós'.
Os ciganos não gostam da escola.
Os ciganos têm piolhos.
Os ciganos atormentam o bairro com tiros e cantorias.
Os ciganos fazem fogueiras na rua da cidade mais linda.
Os ciganos conduzem Mercedes mas não tiram a carta.
Os ciganos são todos muito ricos, mas andam à pobre para sacar o nosso dinheiro.
Os ciganos não servem para nada.
Vamos matar os ciganos e viver felizes para sempre.

Eu, no que respeita aos ciganos, não consigo ver a árvore.
Mas consigo ver o fruto.
Antes de começar a debitar as minhas ilações sobre os ciganos, deixem-me dizer-vos que há pouco tempo tomei conhecimento da criação de uma turma só com filhos de professores, numa escola da Metrópole, 
É.
Caminhamos pois para uma sociedade segregadora, onde só os melhores, os mais ricos e os filhos dos mais cultos (professores?) podem ter acesso à educação de qualidade.
Os meninos, super-inteligentes e com pouca resistência ao seus pares, (filhos dos homens do campo, ou das cidades, ou do trabalho - nós todos portanto), não podem misturar-se e não podem ser incomodados com as perguntas estúpidas nas salas de aula, com a pequenez do cérebro dos filhos dos outros profissionais, para que não interfiram na sua evolução super-sónica, em comparação com a lentidão evolutiva dos outros. 

E agora?
Em que ficamos?

Pois bem. Eu para já fico atónita. 
Não sou mais que ninguém e também eu, e quem é que eu quero enganar, sou uma segregadora em potência dos ciganos. Tenho o meu quê de comportamento discriminatório, sou um produto inacabado (e imperfeito) das minhas circunstâncias e da minha educação. Nunca tive piolhos. Não gosto de piolhos e ainda menos de piolhosos.
Se gosto dos ciganos? 
Não sou fã de ilhas isoladas.

Olhem lá com atenção para aquelas carinhas ali da fotografia. 
Parece incrível a semelhança com alguns dos nossos pais e avós, em crianças.
Descalços, sem instrução, labregos, pobres, pequenos nadas, pequenos homens, ranhosos.
Podia ser eu. Podiam ser vocês.
Mas não. São ciganos, são o fruto podre da floresta.
E é aqui que eu quero chegar.

Então vamos agora, agora?, regredir e criar guetos dentro da escola, como se faz no Jardim Zoológico de Lisboa, jaulas de animais ciganos, como bichos selvagens que mordem e rapinam as pobres borrachas e canetas dos meninos civilizados?
Mandamos para a forca um professor, para tentar a domesticação destes meninos ranhosos e com piolhos, evitando a todo o custo que se misturem e aprendam as regras da sociedade onde se inserem?
É isto que querem fazer? 
Criar uma revolta latente nestes meninos, que por sorte ou por adrego, nasceram numa família diferente, que nos incomoda muito, a nós e às nossas convenções de merda?
São agora os professores desta escola (que de outros professores não posso alvitrar tal acusação - por ser injusta e mentirosa) os novos justiceiros da sociedade? Os que separam o trigo do joio para criar uma sociedade impoluta e livre de piolhos?
Que estupidez foi esta, senhores?
Crês mesmo que assim os meninos ciganos, coitadinhos, não têm culpa, se sentirão mais aconchegados na sua jaula com os outros ciganos da mesma espécie?
É assim que querem ensinar os vossos filhos e os filhos dos outros? Para a diferença ou com a diferença?
É a seleção natural que almejam ou é a soberba de vos parecer melhor assim? Mais prático. Mais asseado. 
Eu não quero a minha filha numa escola onde há uma turminha do lelo. 
Já bem basta a dificuldade de lhe explicar que a diferença faz parte de todos os frutos, que não há nenhum igual, e que todos fazem uma bonita cesta, e agora querem ensinar-lhe que os frutos devem ser todos separados porque as bananas são mais nutritivas que o pêro?
E se for um deficiente? Vamos po-lo numa salinha sozinho a bater com a cabeça na parede? E se de repente ela própria tem essa experiência de forma pessoal?
Vai matar-se de medo e esconder o filho em casa? Como faziam os grandes senhores da terra ao pretos seus filhos?

A mim custa-me muito que os alguns ciganos não queiram dar-se uma oportunidade de evoluir e que privem os seus filhos da escola, da sociedade e da instrução. Custa-me que possam ser violentos, barulhentos, perigosos, mafiosos, um sem número de predicados pouco abonatórios. Mas são únicos?
Custa-me vê-los contra tudo e contra todos, desejando apenas que os deixem em paz, com os bolsos livres de impostos, gritando impropérios às senhoras da Seg. Social, mas custa-me muito mais, ver os outros, os super-sónicos letrados, a criar um fosso ainda mais profundo entre a fruta podre e o oásis no deserto.

Custa-me, e por isso voto contra.
Quem foi o cabecilha disto?
Há muita fruta podre neste mundo, e ademais, é comida com grande prazer.
Parece-me que este professores, revestidos de uma infantilidade gritante e descabida, ainda não aprenderam que para mudar o mundo temos de começar pelas minorias. Agir localmente e pensar globalmente.
Alguém que lhes diga isto. 
Por favor.

19 de setembro de 2014

Obviamente

Um Presidente,
Um Governo,
Uma Maioria,
Uma Merda.

Obviamente, demitam-se.
Sem desculpas.

AVISO DE ÚLTIMA HORA

Bom dia caros amigos,
Venho comunicar que, quem ainda não cumpriu com o dever blogo-cívico de me dar os parabéns pela passagem dos meus 38 verões, durante o dia de ontem, que tem ainda até às 22h de hoje, altura em que se fecharão definitivamente as portas da minha página, para o fazer.
Caso não se verifique o supracitado ou houver da parte da aniversariante alguma suspeita de fraude, nomeadamente a utilização do telefone ou sms, totalmente proibidos para este tipo de acontecimentos, serão banidos publicamente do feed e severamente castigados.
Muito obrigada.
 
A administração de eventos de anos.
Parra.

18 de setembro de 2014

38

Eu?
Eu nasci gorda. 
Como em tudo na vida, até para nascer fui indecisa. Quarenta e quatro semanas e ainda lá estava, de viola em punho, e ainda hoje, sempre que o motivo é de festa, sou sempre a última a sair. 
Em braços.
Era para ser rapaz, e fui.
Não jogava à bola de tronco nu, como a minha amiguinha J. mas se havia reunião masculina no horizonte da rua, no bilas, nos carrinhos de rolamentos, nos patins, em cima das árvores, dos muros, na rampa de skate, jogando a sirumba, lançando o pião, eu estava lá, porque casinhas, bonequinhas, folhos e saltos altos, faziam-me sono, e eu detestava dormir.
Nasci na cidade mas fui ao colo da minha mãe para o subúrbio. A casinha era minúscula, e os brinquedos que tinha ficavam guardados no armário do contador da água. Não eram muitos, mas também quem precisava deles quando tinha a liberdade?
O meu baloiço voava nas alturas, e lá em baixo, animais espertos e de bigode aprendiam comigo as brincadeiras da minha infancia. As nossas paredes foram verdes, azuis e cinzentas, e ao sábado, depois da praça, fazíamos a limpeza à alcatifa.
Um dia, correndo com a sabrina pela sala, tentando apanhar o gato em vez do pó, decidi passar a alcatifa a ferro.
Ainda hoje tenho a marca daquela palmada. A alcatifa também.
A minha professora chamava-me gata assanhada, mas eu nunca entendi muito bem porquê. Fazia exatamente como me ensinaram os inúmeros gatos que tinha, à vez, a viver lá em casa, e sempre que vinha reguada, eu escondia-me dela, debaixo das mesas da sala.
Não tive irmãos, mas colecionei amigos que preencheram o lugar dos irmãos que não tive.
A minha primeira amiga de verdade foi 'a senhora do lixo'. Coleccionei garfos, cabeças de bonecas, bolas de catchú vazias, e tudo o que ela encontrava na sua extensa e interessante atividade profissional, de varredora. Tenho muitas saudades dela, e se a visse agora, dava-lhe um grande abraço.
Hoje, alguns desses amigos já cá não estão, outros foram-se embora, e outros não quiseram mais brincar. Ficam profundas e duradoiras memórias, mesmo daqueles que queremos esquecer.
Levei porrada de um miúdo orelhudo de 10 anos, durante 2 anos de seguida, e no outro dia fiz-lhe frente. Continua orelhudo e tive pena de lhe bater.
Nunca soube a tabuada, e no meu melhor texto da 4ª classe tive quarenta e seis erros.
Um caso perdido para a escrita. 
Um mundo onde afinal me fui encontrar. 
Disseram um dia à minha mãe, depois de mais uma expulsão compulsiva devido à minha hiperatividade, que eu tinha um ligeiro atraso devido à cesariana.
A essa pessoa, tive o prazer de lhe espetar com o meu atraso, na bagageira do seu Fiat 600 cor de merda, no meu primeiro dia de carta.
Nesse mesmo dia, experimentava o meu pai, depois de muitos anos de trabalho árduo, a alegria de ter o seu primeiro automóvel a crédito, mais brilhante que uma estrela.
Nunca mais me deixou conduzir, e eu até o compreendo, e juro, juro! que nunca mais lhe roubei a chave. 
Daquele carro.
Aos catorze anos mudei-me para a casa nova, e experimentei pela primeira vez o que era encontrar dinheiro na carteira da minha mãe. Não tinha alcatifa e o contador da água ficava na escada. Tive pela primeira vez um quarto, uma cama e uma janela, onde pude entrar em plenos pulmões na adolescência.
Um ano antes passei pela tristeza de perder a minha bisavó. Tenho muitas saudades dela, e se a visse agora, dava-lhe um grande abraço. E trazia-a para casa.
Uns anos depois, há precisamente vinte anos, fui mordida por uma Dobermann. Caramba, que tremo. Rasgou-me as calças novas e roubou-me o encantamento. Ainda hoje morro de medo de cães, mas parece que já estou melhor.
Até me chegarem as pernas ao rabo, que está deveras longe, andei quase sempre virada ao contrário. Entre flics, rodas, esparregatas e mortais encarpados, sobraram-me dois pulsos abertos que não me deixam furar as folhas.E uma dor permanente no joelho que escondo até hoje.
Por causa desta minha capacidade de me esticar, um dia levei a primeira (e única) chapada do meu pai. A culpa foi da minha avó que fez uns feijões horrorosos. Ainda hoje não gosto de feijões, e nunca dei um pum.
Nesse ano fumei o meu primeiro cigarro à mesa, e fumei mais quinze anos depois disso. Hoje percebo que nunca devia ter começado.
Aos vinte e três anos tinha dois empregos e frequentava (às vezes) a Faculdade. 
Dois anos depois, a um mês de defender a minha tese sobre delinquência juvenil, perdi o meu namorado e melhor amigo. Antes de morrer, fez um quatro, e entrou no carro. 
Não gosto de escrever números.  
Tenho muitas saudades dele, e se o visse agora, dava-lhe um grande abraço. 
E beijava-o na boca.
Aos vinte anos comprei  o meu primeiro carro. Sete anos depois vendi-o por quinhentos euros a um cigano. Ainda pago o selo. Religiosamente.
Aos vinte e cinco anos criei a minha primeira empresa e um ano depois já tinha duas. Oito anos depois descobri que meias, só para as pernas, e fiquei descalça.
Namorei bastante, e escolhi o melhor.  
Se não fosse ele, o rapaz dos desenhos, ainda hoje estava encalhada.
Fui a mais de quarenta casamentos, mas a maior bebedeira apanhei-a no meu.
Fui mãe aos trinta anos, depois de fazer aquelas coisas, e hoje, uma menina que tem agora sete, preenche os meus dias, e às vezes as minhas noites.
Parece que foi ontem que vim viver para a minha casa, e é incrível que um dia depois, só pense em vende-la. 
Pelo caminho da vida aprendi que errar é humano, que orgulho não é poder, que mais vale deixar cair, ou dar um chuto no cu, ao que não nos dá prazer.
Aprendi tarde a dizer que não, mas já não vou em cantigas.
Guardo um sem números de vezes a minha viola no saco, mas quando viro as costas, vou assobiando uma moda alentejana.
Por sorte aprendi com a minha avó, que se foi no fim dos dias, 98 anos depois, que a vida deve ser pensada, que o silêncio vence tudo, e que o melhor é ser fona em vez de pedir emprestado. 
Muito por causa disso, tenho poucos bens materiais, mas parece que tenho de comprar mais estantes, para encher de histórias, que não são minhas.
Não sei se fui sempre tão feliz como fui quando era uma atrasada mental, nascida de cesariana, mas faço todos os dias um esforço.
Aos 37 anos rebentou-me a variz da escrita e já consigo alinhar duas frases sem dar erros. A gata assanhada aprendeu a usar as unhas, e não foi para tocar viola.
Por estes dias vi o regresso daquele que sempre me quis bem, na sua ausência, e sei agora o que nunca imaginei antes. Que muitas das coisas que tenho dentro da minha cabeça genética, são dele.
Dentro da minha cabeça, porque fora, é ele que tem afinal os cabelos mais loiros.
A minha mãe, dotada de uma alegria que me contagiou, tem agora 60 anos. O tempo passa, mas a minha mãe nunca largou a viola. 
A vida dos amigos, e dos primos, tão presentes no meu percurso, acompanho-os de perto, mesmo os que teimam em estar longe.
Penso em todos, todos os dias.
Passo pelas janelas e tenho muita pena de não entrar. Já não ouvimos a mesma canção, mas isso é indiferente para quem dançou junto, a vida toda.
Os países ficam e os homens passam.
Em trinta e oito anos, aqueles que passaram por mim a correr, sem olhar para trás, assisti a mudanças conflituosas e encontrei becos sem saída.
Mas como uma gata pujante, dessas que sabem bem onde ir buscar um peixe, salto muros, derrubo cercas, e espero encontrar do outro lado alguma coisa que me faça sorrir, nem que seja um molho de documentos para tirar fotocópias.
Se morresse hoje, morreria triste. Não por tudo o que vivi, mas por não saber, se afinal a casa dos pinheiros, aquela que realmente é a minha preferida, sempre se salvou, se sempre ficou de pé, rememorando aqueles tempos de verão, à volta de uma mesa cheia de gente.
Morreria triste, sobretudo por não saber se no céu há caracóis. 

Hoje sou a menina dos anos.
Como em tudo na vida, até para nascer fui indecisa.
Nasci gorda.
Nasço todos os dias, e a cada dia me convenço, que tudo na vida passa.
Até uma Uva.