30 de abril de 2014

Ai caramba, que me ía esquecendo do dia da dança!!!

 

Nota da gerência: A Sôdona Uva Passa-a-vida-a-postar-disparates-no-seu-crazy-wild-blogue...

Áh, e bom dia da dança, que já dizia o outro (um dançarino muito bom, muito bom), que vives enquanto dançares.
Toca mexer esse rabo gordo!!!!

29 de abril de 2014

O Porto é uma nação!

A Uva saiu da casca e foi ao Porto.
Há dezanos que não ia ao Porto.
Já não me lembrava o bom que é, estar numa terra que nos lava a alma! É que dizer asneiras a torto e a direito, depois de um ano inteiro de bom comportamento verbal, sabe mesmo bem, caralho!
Mas ir ao Porto não é só parar nos Aliados, descer do autocarro, ensovacar uma francesinha e voltar ainda com azeitona nos dentes. Tão pouco se conhece o Porto em 2 dias. Não que seja grande, ou talvez por isso mesmo é que conhecer os cantinhos todos da cidade leva o seu tempo. E são imensos os cantinhos do Porto.
Pois bem, decidi passar os 40 anos do 25 de Abril na Avenida dos Aliados, só para ser diferente.
Enquanto por Lisboa toda a gente se abespinhava e desgrenhava na Avenida da Liberdade para dar uma beijoca ao bochechas Mário Soares, rumei ao norte pacifico, tristonho, sedento de matar qualquer benfiquista que se abeirasse dos Aliados, e por isso, com uma faca na algibeira, meti um sobretudo na mala, uns euros na carteira, e lá fui eu, com o Senhor meu marido (como manda a lei do casamento - e porque até me faz boa companhia) rumo à maior nação a norte.
Instalei-me num três estrelas magnífico. O quarto, do tamanho da minha casa de banho social, era tão aconchegadinho que de noite não era preciso dizer "chega-te mais para aqui", mas em compensação tinha uma janela do tamanho da minha casa, toda ela respirando Aliados, movida, luz, frio, chuva e bifas de pernas transparentes, mas ainda assim, jeitosas.
O Porto é uma cidade bastante interessante. Os antigos habitantes, os nossos antepassados portistas, fizeram uma coisinha ótima que foi construir tudo que era monumentos e coisas giras para os turistas verem, na mesma praça (ou quase), o que facilita uma pernita já cansada de palmilhar tanta vida. 
Vais ali espreitar a Igreja das Almas, andas dois passo e já estás na Sé, e se olhares em frente toma cuidado com o nariz porque já estás em cima da Torre dos Clérigos. Esta torre magrinha e alta, como eu era, que podes subir e descer, naturalmente, é gira nas horas e permite ver todo o Porto de uma só vez e se esticares bem o pescoço, ainda consegues ver a foz. Se tiveres dinheiro para gastar podes descer logo ali a rua das montras cheias de sapatos e roupas de grife e encontrar perto a livraria Lello uma livraria que era (e ainda é, a mim pelo menos pareceu-me) de um cigano, que de tão espetacular e imponente, com os seus degraus à Benfica, até te esqueces de tirar fotos, mas não te esqueces de deixar lá metade do orçamento da estadia, mais o dinheiro da gasolina, em livros (e por isso vos escrevo ainda do Porto, porque não consegui pagar o hotel e agora não me deixam sequer ir trabalhar... cof cof cof).
Depois, se te sobrou paciência para compras, andas mais uns metros e voi-lá! entras na Via Catarina chiça que nem no Porto me livro da minha sogra, compras uns sapatos daqueles que mais niguém tem, credo que são lindos! e  se te der a fome ou ares de rica, vais ao Majestic-coisa-mai-linda, sentas-te numa mesinha muito romântica e bebes um cimbalino (por dois euros e meio, x2, que dá cinco euros - grandes ladrões), e depois desesperada vais afogar-te no Rio, onde um imenso turbilhão de gente gira, e alguns portugueses, que naquelas barquetas venezianas, que antes transportavam as pipas do vinho, se divertem à chuva e ao vento (mas que se lixe, estamos de mini-férias) e estão tão felizes, mas tão felizes, que até te apetece vestir o fato de treino das risquinhas, calçar os Nike fosforecentes da moda, e ir ter com eles ao barco, para lhes levares um churro e rir muito... de qualquer coisa...  
O que é lindo no Porto é que não precisas de pagar cem euros a uns gajos que organizam maratonas nas pontes, ou cansares as estopinhas para chegares à outra margem do rio de bicicleta (e dois calos no rabo), porque no Porto demoras três minutos a passar a Ponte de São Luiz a pé, porque respiras três vezes e já estás do outro lado, e porque depois encontras logo ali em fente umas caves sinistras, mas com uma coisa muita boa lá dentro chamada Vinho do (O)porto que te fazem esquecer que estes pobres coitados perdem há 3 jogos consecutivos contra 10 tu andas a antibióticos por causa das malvadas bactérias da bexiga e que só podes beber 2 copinhos de seguida.
Mas o Porto é muito mais do que uma avenida e um punhado de monumentos.
O Porto também é o Bulhão.
Mas estava fechado. Pena. Tinha imensas coisas para dizer do Bulhão... enfim.
Retomando: Mas o Porto é muito mais do que uma avenida e um punhado de monumentos.
O Porto também é Serralves. E Serralves é... não sei bem o que é, mas espero deixar aqui um lamiré, só naquela de desabafar e não bater com a cabeça nas paredes pelos 8 oito euros que lá deixei.
Serralves, para mim, é o jardim. Ponto.
Serralves, para mim, é Siza. Ponto.
Mais nada.
Eu bem sei que há um gigantesco movimento pró-'arte' moderna, pró- 'arte' contemporânea, mas ó meus amigozzzz, se acham que encher o  saco plástico do vinho (sim, esse mesmo, o que vem dentro do pacotão de cartão e que entre outras coisas, cheio, também serve para enxotar as moscas), é obra de arte, então vão-se todos encher de moscas e devolvam-me os oito euros que eu paguei à menina da receção, com carinha de saguim, e tenham dó desta rapariga de cultura contemporânea nula, e que não sente qualquer alegria num candelabro gigante feito de tampões menstruais, a menos que estejam cheios de sangue, e isso sim, era uma visão magnífica.
Mas afinal, que tem o Porto de tão maravilhoso, além dos belos jardins de um ricaço qualquer?
Morfes!
Numa noite já entradota e já meio de esguelha, entrámos num restaurante de estudantes, daqueles de mesas corridas, cheios de miúdos aos gritos. Cá fora o menu servia preços catitas para gente da classe média-inferior-low cost, e era perto do Hotel, coisa boa no caso da vinhaça ser forte.
Entrámos desconfiados, e o karma is a bitch!
Fomos servidos por um gajo sinistro, que volta e meia morfava coisas que escondia numa gaveta, e que, de 5 em 5 minutos acertava m-e-t-i-c-u-l-o-s-a-m-e-n-t-e as 120 toalhas das mesas e arrumava as 256.252.625 cadeiras. Pese embora o fato de nunca deixar ninguém sentar-se nas mesas dele (ora porque eram 4 pessoas, só duas, três gordas ou um solitário) deixou-nos sentar, depois de nos trocar três vezes de lugar. Passámos a chamá-lo o "maluquinho das mesas" e tudo ficou a fazer mais sentido, já que aos maluquinhos tudo se perdoa.
Ora este sinistro senhor de carão bigotudo, criou em mim uma desconfiança de merda, e pensei logo em mau serviço, pão duro, azeitonas secas, imperiais finos mortos, copos sujos, baratas na manteiga, lagartas na sopa, olhos de cão sarnento embrulhados nos guardanapos... 
Qual quê! É que nem de longe (e nem de perto), comi alguma vez na vida um pica-pau tão delicioso. Aquela molhenga, a carne tenra, o fino vivinho da silva...Fiquei fã e valeu muito a pena. Restaurante Aviz, para quem quiser deliciar-se.
E no 25 de Abril portista... não vi um único cravo. Suponho que um dos nossos novos helicópteros Kamov, levaram a cravaria toda para Lisboa, para disfarçar a maior concentração de carecas já vistas até hoje a desfilar na Avenida da Liberdade.
Pudera! Quem é quer saber do 25 de Abril com um frio de rachar? Mesmo assim ainda se cantou a Grândola debaixo do chapéu de chuva e alguns turistas ainda dançaram uma ou outra do Vitorino.
Por isso, desengane-se quem pensa que só se passam coisas em Lisboa. Mentira. A baixa do Porto é qualquer coisa de maravilhoso. Levasse eu as minhas plataformas, e era dançar a noite toda. Muito bom ambiente, muita bifa mal passada, e muita gente divertida. Em qualquer canto, musica ao vivo, bifas descascadas, bifas embezanadas, portistas do Benfica, e por ai fora. Um must!
Que belos dias passei no Porto. Não fosse aquela anedota porca e era caso para dizer: vamos todos para o Porto, vamos todos para o Porto? 
Porquê?
Porque o Porto é uma nação! É é pequenita.
E ainda bem, senão não conseguiria andar com meus sapatos novos!! 
 
E aqui ficam algumas da 2521325698 fotos que tirei e que ficaram espetaculares, caralho!
 
 
O Hotel dos Aliados e as minha botas
 
Torre dos Clérigos
 
Livraria Lello (ambas)



 
Serralves com a 'arte' no seu melhor.
 
Uma belíssima 'arte' pós moderna em Serralves...
Serralves ... lindo...

Café Majestic. Um porradão de massa, como podem ver...
Morava aqui gente, mas só de lado...
Aqui está a Praça dos Aliados. Nem um Benfiquista à vista...
 
Serralves. Vale muito a pena.
O sapatinho maravilha!!!

28 de abril de 2014

Ondas

A minha filha ligou a televisão hoje de manhã e estava a dar um episódio dos (antes) adorados Irmãos Koala.
Mudou logo para o Disney Chanel onde passava uma série de adolescentes com os cabelos pintados, dessas em que há uma voz-of sempre a rir de coisa nenhuma, e senta-se a ver, muito interessada.

Eu: Então, já não gostas dos Irmãos Koala?
Ela: Não, já não é a minha onda.
Eu: ????
 
...
 
Pensamento de mãe (que a filha não ouviu):
Qual onda pá? Tens sete anos acabados de fazer, ainda nem sabes nadar sem duas boias agarradas aos bracinhos, e já tens ondas?
Não tarda vens pedir-me a gillett para fazeres a depilação nas axilas, porque vais acampar com a malta da banda, não?
Vai mas é arrumar os legos, antes que te dê duas galhetas!!

23 de abril de 2014

"No subsolo do Banco de Portugal ....

...há uma muralha com mais de sete séculos para conhecer", diz o PUBLICO, numa notícia de hoje.


Aqui a Uva, abelhuda como sempre, também sabe fazer notícias sobre subsolos, que é o mesmo que buracos, e escreve assim:
 
No subsolo do Banco de Portugal, há um buraco com mais de oitocentos metros de profundidade para conhecer.
Para chegar ao fim do buraco, é preciso descer uma centena de lances de escadas e entrar numa zona à qual o projecto inicial para o gamanço de reabilitação não previa que os visitantes pudessem aceder.
Abre hoje ao público, para que vejam as extraordinárias peças, de várias épocas, incluindo botões de punho do séc. XIX, estacas de madeira do séc. XVIII, um azulejo do séc. XVI, vários objectos do quotidiano da época islâmica e artefactos romanos ligados ao mar, que afinal já não está lá nada para ver.
Levaram tudo.
 
Obrigada pela vossa atenção.
E agora férias.
Alguma coisinha do Porto?
Um vinhinho talvez?

22 de abril de 2014

O estranho caso dos helicópteros KAMOV

Comunicado de Imprensa da EMA - Empresa de Meios Aéreos, S.A._G

A cada dia que passa, fico mais surpreendida com a pouca sensibilidade do nosso povo.
É uma revolta tão grande, que eu até estou capaz de fazer uma revolução sozinha, no 25 de Abril, só eu, ali, no meio da Avenida.
É muito bom saber, e todos nós sabemos,  que acima de nós existem pessoas boas, iluminadas, com consciência cívica, preocupadas com o povo, e com uma imensa capacidade de discernimento para as decisões magnas do país. 
É de tal forma profundo, o sentimento de proteção que os nossos governantes, patrões, chefes e administradores têm por todos nós, que chego a ficar comovida, e doí-me o coração saber, que o povo é muitas vezes injusto nas suas reivindicações.
Por exemplo:
O Governo comprou agora 6 helicópteros Kamov, muito jeitosinhos, parece que para o INEM.
Já repararam bem nisto? O que se gastou com estes meninos? O sacrifício que foi para todos nós, esta compra. Estes meninos são tão robustos e complexos que demoram 20 minutos só para aquecer e mais 20 para arrancar. Preparam-se ao pormenor, não é cá correrias de ligar e levantar voo.
E além disso, sabemos todos, e os nossos governantes melhor, que o INEM é aquela instituição calma, pacífica, sem pressas, onde chegar não é motivo de preocupação. O INEM vive perfeitamente sem helicópteros, aliás, o INEM nem precisa de pessoas para trabalhar, e é por isso que os nossos extraordinários governantes (Deus os tenha cá por muitos anos) pensam a breve trecho, mandar as pessoas que lá trabalham, para casa, para descansar. Mais alguém, tinha pensado nisto? Neste ideia WTF?
Mandar os trabalhadores descansar? Isto é que é o verdadeiro altruísmo social.
E não há necessidade de andar em correrias extenuantes para salvar duas ou três vidas sem importância absolutamente nenhuma. É que na verdade, e chega a ser pornográfico, quem se vê sempre em apuros são os chatos dos velhotes que teimam em viver para além dos 65 anos!
É que não têm vergonha nenhuma. Levam uma porradona de dinheiro ao Estado com brutas reformas, vivem para lá do sol posto, e ainda querem andar de cu tremido, para a frente e para trás, nos helicópteros Kamov. É preciso explicar a esta gente, definitivamente, que os Kamov foram comprados para ficarem  a descansar, para servirem alguma eventualidade mais séria.
E se o Senhor Dr. Passos Coelho se atrasa para ir ao Continente comprar uma morcela? Quem é que o leva lá depois, se os Kamov andarem todos nesses ares a salvar pessoas, para cá e para lá, sem jeiteira nenhuma?
É que já nem falo  daquelas pessoas que vivem longe do hospital! Uma vergonha!
Ora, se as pessoas vivem fora do recinto hospitalar, é porque gostam e querem. Ora se gostam e querem, têm de assumir essas responsabilidades. Não é andar constantemente a utilizar os meios médicos, ambulâncias e coisas assim, quando os meios médicos podem e devem servir para ir por os meninos ao colégio. Estas crianças são o nosso futuro, já pensaram? 
Veja-se o exemplo ali do hospital de Loures. Aquilo tem mais de 50 estacionamentos vagos. Porque é que as pessoas insistem em viver para fora daquele espaço. Se pensassem melhor, se fossem conscientes, é obvio que ficavam ali a viver, aliás, há ali estacionamentos muito jeitosos. Ainda ontem lá estive, e mesmo em frente às urgências está um lugar vago, ótimo para uma família de, vá, 4 pessoas.
No mínimo.
Mas não. As pessoas deste país não querem saber dos custos que é viverem por exemplo a 5 km do hospital, e vá lá que estas que estão a 5km não são as piores, porque ainda vão conseguindo ir a pé à consultas, têm é de fazer direta para chegar a horas, mas e aquelas que moram por exemplo fora das cidades, nas vilas, no interior. Um horror!
Caramba, pá! Pensem um pouco também naqueles homens que ali estão a pensar em nós o dia todo! Sentados, pá! Naquele semi-circulo sem janelas! O dia todo, pá! Não é fácil.
Mas e os incêndios, perguntam vocês?
Isso é problema de somenos. Que mal tem se arderem 5 ou 500 hectares de florestas? Já toda a gente se habituou à 'época de incêndios', aliás, a época de incêndios é uma espécie de época de caça, por sinal bastante divertida, como imensos adeptos. É a silly season dos bombeiros. Ou acham que só as outras profissões é que podem ter a silly season e rumar feitas loucas, todas no mesmo dia, para as praias do Algarve?
Os helicópteros Kamov foram comprados para essa finalidade. Apagar incêndios com calma, por sere, sobretudo, lentos. Só atacam o incendio quando este já está no fim.
Nem os nosso governantes querem retirar ao povo a beleza de um incêndio espetacular. Faúlhas por todo o lado, jogos de fumo, pessoas a correr com baldinhos, com mangueirinhas, as televisões a filmar, tudo a arder. Mesmo ali ao pé da porta de casa.
O povo tem de perceber que o Governo, ao comprar 6 helicópteros Kamov, é só para que as pessoas possam disfrutar com calma, um espéctáculo que só podem ter acesso, quando forem todas para o inferno.
E já se sabe que aqui a nossa malta, demora imenso a morrer...
 
São estas pequenas coisas que ninguém entende.
E uma pessoa tem que falar.
Pois claro que tem.
 
 

21 de abril de 2014

Conte lá, conte lá. Gostou do Mercado de Campo de Ourique ou não?

- Ai querida, sei lá! Ainda não sei se aquilo é chique, hippy-chick, hipster-chick, ou uma possidonisse.
- Não me diga que foi para lá cheia de fome? Olhe que ir assim para um mercado, cheia de fome... A menina não sabe que nos mercados só vendem coisas cruas? E as frutas, credo, ainda vêm com aquela coisa, a casca, um nojo.
- Estava a morrer de fome! Acordei já passava das 14h, cedíssimo. Ao almoço tinha comido um caroço de nêspera e não sei onde estava com a cabeça, que meti uma uva na carteira para lanchar, e nem reparei que a empregada se tinha esquecido de tirar as grainhas. Depois é esta vida louca que tenho. Não sei como consigo aguentar tanta responsabilidade. Passei o dia em reuniões e mais reuniões. Os decoradores, já se sabe, por eles até comiam as amostras dos cortinados para manter a linha, mas a menina sabe bem: eu não gosto de riscas, e olhe, fiquei assim, sem comer nada o dia todo.
- Deixe lá. Está ótima. Mas diga-me,  ainda tem aí a uva? gostou ou não do conceito? Dizem que é muito in, sempre cheio de gente gira, sei lá!
- Que é diferente, lá isso é, mas não é coisa para a pessoa morrer de amores. Só tive pena de chegar tão tarde.  Disseram-me que em Madrid é muito melhor. Servem os cafés em chávena de loiça e tudo, coisa que não acontece aqui.  Ainda disse ao meu marido Bernardo Soares de Almeida e Casto para experimentarmos antes o mercado de Madrid, que afinal de contas é a um pulinho de Lisboa, mas a mãe dele, coitada, teve um problema no banco e não lhe fez a transferência. Assim, olhe, decidimos ir aqui a Campo de Ourique, que parecendo que não, fica-nos mais em caminho.
- Mas a querida, gostou do Mercado de Campo de Ourique ou não?
 
 


Não sei.
O Mercado de Campo de Ourique tem mais fome do que barriga.
Se aquilo é para ser uma praça comum, com 2 cadeiras desemparelhadas, onde as pessoas andam aos encontrões, e algumas até, se digladiam para ver quem é que fica sentado, então mais vale irem ali à mercearia de São José, pedirem uma sandes de  presunto e sentarem-se calmamente na escadinha, a ver passar os turistas. Passam menos fome, fartam-se de rir com as indumentárias e ficam com mais dinheiro na carteira para mais tarde comerem qualquer coisinha de jeito.
Enfim, ir jantar a um sítio espetacular, demorar 2 horas a estacionar a viatura, chegar com a barriga a roncar horas, com seis capangas mortos de fome, e depois não ter uma mesa para poisar, vá, o pratinho dos acepipes, pode ser muito in, mas para mim é uma bela merda.
Fora isso, temos o problema da Sangria.
A sangria é o ex-libris lá do sitio. Percorres todo um recinto à procura da banca dos bebes, e heis senão quando, és atendida por uma catraia de São João da Pesqueira (a ver pela boina) que te serve com um ar macambuzio, num jarro de vidro de 2 litros, uma coisa que leva: 1 litro de vinho tinto de rótulo comercial, 2 folhas de hortelã, 5 cubos de gelo a saber a frigorífico, 1/4 de sumo ranhoso e passa para cá 18 euros! Passou-me logo a fome. Já da vontade de comer não me livrei eu, e por isso, antes de lhe dar uma dentada nos dedinhos que recolheram (subitamente com imensa energia) a minha nota de 20 euros, fui ver se havia alguma coisinha que pudesse agradar aos marmanjos que ficaram à minha espera de pé, agarrados à única mesa que encontraram vazia, sem cadeiras.
Na banquinha mais à frente, pude encontrar 2 rapazolas muito bem dispostos. Um, mais tristonho, tinha acabado de perder o papagaio. Eu vi isso imediatamente. O poleiro vazio na orelha esquerda, denunciava-o. Tive pena dele. Aquela orelha nunca mais seria a mesma. Resolvi pedir-lhe uma tabuinha de salgados. Ora bem: 3 fatias de queijo de cabra mal curado, 3 fatias de queijo de Nisa de Loures, um ninho de fatias finas de presunto ao meio, e mais 3 fatias de chouriço rijo e gordurento do Continente. Sim senhora! Acompanhava este belíssimo quadro um cestinho com 3 tostas mal aparadas, tapadas (obviamente) com um guardanapo preto, da Renova. E passa para cá mais 20 euros. Estive quase a abrir-lhe um buraco na outra orelha, com uma faca que por ali andava perdida, mas depois tive pena do pobre pássaro que lá iria morar, e optei por pagar e ir-me embora, com um sorriso muito, muito amarelo.
Bom, depois de um dia de trabalho daqueles que só uma super-secretária tem, só faltava encontrar velhos amigos, amigos desses que foram os nossos super-patrões, sim, naquela outra vida, em que tu eras só secretária e o super era só nas festas de Natal, quando apanhavas valentes cardinas.
Já não bastava a pessoa estar cheia de fome, furiosa, e vir com um jarro de sangria de 18 euros, numa mão, equilibrando um tabuinha merdosa de 3 fatias de queijo e um ninho nojento de chouriço na outra, caminhar com cara de quem não tomou banho, com aquela sensação estranha de ter sido assaltada por piratas com papagaios nas orelhas, e depois, caramba,  justo no dia em não pintaste as raízes, não retocaste a maquilhagem, ser sexta feira e vestires uma merda qualquer (daquelas que ainda te servem) e depois, como se fosses subitamente bafejada pela sorte, zás! A patroa-mor, justo a quem entregaste a tua carta de despedimento, à tua frente, linda de morrer, a cheirar a perfume caro, usando aqueles óculos de massa que tu adoras, mas que não tens dinheiro para comprar...
- Olá! Tá boa? Então, tá a gostar, têm-na tratado bem?   
E perante o teu ar incrédulo e a tua miserável resposta 'nim' que ela topou à distância, a tua ex-patroa, a rir-se para dentro cheia de pena de ti, passa-te uma mão nas costas, como se faz aos doentinhos e diz-te:
- Ainda bem. Vejo que está feliz.
 
- Mas conte lá. Gostou do Mercado de Campo de Ourique ou não?
- Olhe, tenha dó, tá bem? Eu ainda nem comi nada.
- Há ali uma banca ótima. Compramos 5 cenouras.
- 5 cenouras? E quanto poderão custar? É que sabe, só tenho 5 euros.
- Olhe, nem de prepósito. 5 cenouras, 5 euros.
 
 

O que vês na tua estante, Uva?



A minha estante é a minha vida. Imensa, se pensar que tenho 37 anos e que sou, infelizmente, uma leitora bastante tardia. Comecei a ler de verdade quando tinha 14 anos, muito por força da minha mãe. Um horror, bem sei...
A maioria das pessoas que me conhecem, não acredita em mim quando confesso que só aprendi a ler na 2ª classe, mas a verdade é que tive uma imensa dificuldade em juntar as letras e uma grande tendência para disparates.
Para uma primeira impressão, começar a ler aos 14 anos, combina bem com o final da minha fase hiperativa. Era uma miúda com muitos problemas de atenção, e muito embora a minha aprendizagem global não se tivesse ressentido (logo) com isso, toldou-me ali muito do juízo que só recuperei no início da adolescência. Juízo literário, claro. Aos 10 anos estava a borrifar-me para aquilo que a minha mãe insistia que era importante para mim. Os livros não eram a minha loucura. Eu gostava era de ginástica, de namorar, de correr, e de fazer a vida da minha mãe num inferno. Os livros só começaram a ter importância para mim no 5º ano, quando os meus pais me compraram uma enciclopédia de 5 livros imensos (de ciências) que precisei consultar para fazer um trabalho sobre o DNA. A minha primeira palavra difícil (ácido desoxirribonucleico) transportou-me mais tarde para o mundo da escrita. Afinal aquilo tinha interesse. Aquele trabalho de 20 folhas, foi o primeiro sinal que o Universo me deu, o primeiro grande sinal, de que escrever e aquela ´coisa de ler e ter livros´ era na verdade um amor igual aos outros, carnais. A nota que obtive no trabalho (excelente) e depois o que a professora me disse na aula, nunca mais me sairia da cabeça:
'Uva, o teu trabalho está muito bem escrito. Além disso, e apesar de ser um trabalho de teor científico, foi o único que me deu vontade de ler até ao fim. Digamos que a menina produziu sobre o DNA, um mistério que só desvendou na conclusão. E como toda a gente sabe, já não há grande mistério no DNA.'
É engraçado como é lá atrás, nas coisas da meninice, que encontramos as explicações todas. Aquilo ficou ali, a zunir-me atrás da orelha, como se fosse um carrapato. E aquela vozinha fininha, o meu outro eu, mais calmo e ponderado, convenceu-me que eu escrevia bem, de forma escorreita, e foi talvez por isso, aos 37 anos e depois daquele trabalho, que resolvi iniciar um blogue e dar os primeiros passos na escrita mais à séria.
Ainda mais engraçado, é perceber a importância que a minha mãe teve nisto tudo sem saber. Foi dela que recebi todos os livros que me transformaram numa leitora frenética, sem os quais hoje não estaria aqui a escrever para vocês, como se fossemos amigos de longa data, como se aquilo que eu escrevo e vos conto, fosse de alguma forma importante de ler, como se fosse uma coisa 'meant to be' e que afinal não há coincidências.
E não há.
E ainda tenho muito para contar.
Na minha estante tenho muitos livros. Tenho muitas coisinhas más, muito más, e assim-assim. Tudo o que lá tenho, fez parte da construção da minha pessoa, tudo foi importante para construir o meu eu-escritor e o meu eu-social, a forma como faço para contar uma história, os erros que dou na construção frásica e a forma como vejos as coisas da vida. Adoro aquela ideia de haver pessoas que se fazem pelos livros. Conheço mesmo algumas, reais, e são bem interessantes.
Na verdade atribuo muitos dos meus erros e desconhecimentos, sobretudo culturais, à escolha dos livros que li, ou ainda, à ordem dos livros que li.
Se tivesse começado pelos melhores, saberia por de parte os piores, ou trocá-los por coisas mais importantes e melhores para mim naquela altura. Não tive essa escola, que considero fundamental. Lia tudo o que me davam para ler. Era um livro, lia-o. 
Saber o que ler primeiro. Saber que autor se adapta a cada idade. Saber se vale a pena ler banda desenhada, saber se vale a pena ler Os Cinco, ou se é melhor começar por Gogol, é sem dúvida algo que deveria existir nas escolas.
Por exemplo, o meu périplo pelo Clássicos só começou na idade adulta. Anna Karenina, Os Miseráveis, Crime e Castigo, Guerra e Paz. E foi pena.
 No meio de algumas porcarias que deixei a meio, houve no entanto um autor que sempre gostei de ler e que foi um dos meus impulsionadores enquanto leitora. E li dele, quase tudo.
Comecei por "Cem Anos de Solidão" ainda muito nova, onde experienciei com os intricados laços familiares e os inumeráveis Buendia existentes na trama, alguns dos melhores momentos de leitura, e fiquei presa. 'Amor em tempos de Cólera' foi o último que li de Garbo. Magnífico. Depois de Garbo fui transportada para Carlos Ruíz Zafón, outro grande autor de realismo mágico. Maravilhosas histórias que valem muito a pena.
No fundo o que eu queria era partilhar este amor que tenho pelos livros e partilhar também a minha estante. Quem sabe se não encontram interesses parecidos com os meus e não podemos iniciar aqui uma 'Escola de livros'.
Se eu tivesse tido, na minha infância, uma 'Escola de Livros', tenho a certeza que hoje seria uma pessoa mais completa.
Nunca é tarde, mas para isso preciso muito de ajuda.
Alguèm? 



20 de abril de 2014

O mundo é um lugar estranho, mas Portugal é ainda mais.

Por todo o lado explode uma alegria imensa, um contentamento, uma loucura.
Os adeptos, as famílias, os amigos e todo um povo em euforia, celebra hoje uma vitória, que chama para si como se fosse sua, e apaga qualquer dívida, qualquer dúvida e qualquer tristeza, porque hoje todos cantam, todos saltam e todos são, repentinamente, tão felizes.
Lisboa está em festa e Portugal emerge triunfante, de braço esticado e punho fechado.
Somos campeões! Somos campeões!
Vistam camisolas a estátuas. Bebam cervejas e brindem.
Que se lixem, por hoje, o Governo, a Troika e a Europa.
Que se esqueçam, por hoje, os Capitães de Abril, o Cavaco, as Caxinas, a Páscoa, e a crise.
O Benfica é campeão, e que se lixe esta merda toda!
Amanhã é que são elas...




17 de abril de 2014

Há pessoas, coitadinhas, que nem festejaram o dia do beijo...



Dunky, era o rapaz mais esquisito que a Uva conhecia. A Uva e todo um complexo escolar pré-adolescente, onde as hormonas estoiravam como pipocas, e onde a vida dos alunos era tudo menos uma trama cheia de festas de garagem e convívios aos sábados à tarde.
Não. A vida desta escola era um filme sinistro, onde tudo parecia revestido de loucura, de frases cheias de Fuck You´s e I Love You´s, e outras ainda mais duras, que serviam de roupagem às paredes.
Essa escola, esse antro segregador, era um circo onde todos gozavam em surdina com os mais desfavorecidos, os que não ficavam a dever nada à beleza ou que pelos modos estranhos ou elevada inteligência, ou a falta dela, saíam dos parâmetros normais do grupo-mor. A seita era brutal. Retalhava e mastigava a vida, a roupa, e o cabelo, dos outsiders, e às vezes, o comportamento era de tal modo mafioso e cruel, que chegava ao ponto de parecer um bando de mortos vivos, onde uma voraz capacidade destrutiva, que os comia a todos vivos, levava ao suicídio de muitos alunos. Aquela escola era um terror.
Bom, já estou a divagar. Aquilo era uma escola normal, dessas onde todos andámos.
Se não se importam vou retomar a história ali  a partir do primeiro parágrafo.
Desculpem-me este deslize. Devo andar cansada, e quando assim é, dá-me logo para estas coisas macambuzias, sem interesse nenhum...
Dunky, era o típico outsider, tinha uns olhos pequeninos que se escondiam por entre umas sobrancelhas unidas ao meio da testa.
Não, desculpem. Recuso-me a ter uma mono-celha na minha história. Daqui a nada estou a dizer que o rapaz era um ciclope, usava a roupa do avesso e tinha 6 dedos, na testa.
Outra vez. A ver se sai melhor.
Dunky, era um miúdo enorme, daqueles que juntam as pernas acima do joelho e lançam os pés para fora. A cabeça pequena, que se escondia no meio dos ombros parecia desenquadrada do contexto. Os olhos pequenos e encovados davam-lhe um ar carregado e ligeiramente alienado. Nada disto pareceria estranho, já que olhos pequenos há muitos. O problema do miúdo, um vulgar mas desnorteante estrabismo, lançava como aos pés, um olho para bardamerda e outro para infinito. Poderia dizer-se que havia ali uma tentativa do Universo em equilibrar as coisas.
Usava o cabelo curto e espetado, e na nuca rapada, deixava apenas crescer uma estranha melena loira, oxigenada, que esticava continuamente com os dedos pequenos e sapudos.
Credo! Uma melena loira? Onde é que eu fui agora buscar isto???
Dunky usava o cabelo comprido, apanhado na nuca com um elástico de oficina. O cabelo chegava-lhe ao meio das costas, e não fosse a mãe a cortá-lo com a tesoura das unhas, sorrateira, às escuras, durante a noite, e a crina crespa havia de crescer até se lhe enrolar os atacadores das alpercatas.
Havia nele qualquer coisa de sinistro, como se houvesse algo que mantinha em segredo. Nunca se juntava aos demais, preferindo cirandar pela escola, sozinho, numa mudez desconcertante. Por detrás dos óculos escuros, que usava mesmo de noite, perscrutava o recreio, na sombra, dando a ligeira impressão que programava um crime, que a qualquer momento mataria alguém.
No entanto, apesar deste tipo andrajoso, o rapaz tinha qualidades escolares impressionantes. Não fosse o seu admirável raciocínio e perspicácia, e nem os professores davam conta da sua presença. Era um brilhante aluno, talvez o melhor de todos,  e isso notava-se sobretudo no resultado dos testes e na impecável apresentação dos seus trabalhos.
Não. Isto assim não tem graça.
Dunky era burro que nem um calhau! Patinava há 3 anos no 8º ano, e há muito que a mãe tinha desistido do apoio escolar, que de nada adiantava. Gastara milhões em psicólogos e explicadores, mas o miúdo não evoluía. Tentara até arranjar-lhe um trabalho, e tinha chegado à fala com alguns potenciais empregadores lá do bairro, mas o rapaz na hora de conhecer o chefe sumia-se, e nos dias seguintes ninguém o via, reaparecendo depois num estado catatónico de alucinações e desvarios, sobretudo por causa da fome. 
Na escola, nunca se aproximava de ninguém, muito menos dela, a sua musa Uva inspiradora. Uva sabia que este estranho rapaz a observava e seguia, e isso assustava-a. A seita dizia que o melhor era limparem-lhe o sebo, a a Uva percebia que se lhe limpassem o sebo, o rapas era capaz de se desequilibrar...
Um dia, só para o irritar, perguntara-lhe se era poeta.
- Ouve lá ó Dunky, tu agora andas armado em poeta, é? Mostra lá isso aqui ao pessoal, vá lá.
O rapaz baixara a cabeça e em passos apressados sumira-se por detrás do pavilhão de ciências.
Poeta! O miúdo escrevia uns versos no caderno, e na realidade eram inspirados e profundos. Eram mesmo de grande beleza.
O rapaz estava apaixonado.
Uva era o objeto da sua paixão, da sua perdição. Andava há meses congeminando uma forma de se aproximar dela, sem ser percebido, só para a beijar, nem que fosse um beijo fugaz e único.
Pensava repetidamente na forma como poderia fazê-lo e um dia, quando finalmente tomou coragem, decidiu-se.
Ela estava no corredor do pátio, conversando no meio de um grupo animado de raparigas, distraída.
Com as pernas a tremer, aproximou-se por trás, sem respirar, e quando o seu corpo já quase tocava no dela, deu-lhe um toque ligeiro no ombro e ela voltou-se, ficando cara a cara com ele.
Todo o seu corpo estremeceu e ouve um segundo mágico que ficou no ar, como se o tempo parasse e nada se ouvisse.
De repente um grito ao longe.
Um movimento brusco à retaguarda de todo o grupo que os rodeava, fez a magia desaparecer, e vinda não se sabe de onde e a toda a velocidade, uma bola veio bater-lhe em cheio na cabeça.
O embate provocou-lhe um grito feroz e uma imensa baforada fétida soltou-se da sua boca.
O grupo sentindo o cheiro nauseabundo, afastou-se rapidamente e a Uva matou finalmente a sua curiosidade.
Halitose.
Dunky, não festejou o dia do beijo...

9 de abril de 2014

Grande testamento???? Em sonhos...

Não entendo as pessoas.
Passam a vida a dizer que há gente que só sabe fazer grandes textos: 'É pah, que grande testamento!'
Grande testamento? Mas tá tudo parvo? No tempo da avózinha delas é que um grande texto era parecido com um testamento, porque a quantidade de coisas que as pessoas não têm, e por isso não as podem deixar em testamento, inviabiliza à partida, que qualquer texto longo seja apelidado de testamento.
É preciso entender que hoje em dia, escrever 4 linhas é que é um testamento. Vejamos:
Deixo aos meus herdeiros:
1 - A hipoteca da casa;
2 - O crédito do carro;
3 - A dívida ao Fisco;
4 - A conta de supermercado;

8 de abril de 2014

De médico e de louco, todos nós temos um pouco...

No caso em apreço, vou mais para a última hipótese, já que me parece a mais acertada.
Vejamos:
A minha tia Olinda, que aqui há tempos se viu a braços com um brutal desarranjo intestinal, correu à casa da vizinha, ainda agarrada às calças, às cuecas e a tudo o que podia, para que a dita senhora lhe dissesse o que fazer, para se curar da fenomenal diarréia.
Ora a vizinha da minha tia Olinda, senhora muito culta e de costados altaneiros, é, pelo que sei e pelo que se ouve falar lá na terra, grande especialista em migas de espargos, o que já dá para perceber, e de longe, que a experiencia acumulada nos anos sem fim, a confeccionar aquele prato típico do meu Alentejo, lhe deu total confiança para prescrever à minha tia, a melhor mezinha para o problema da soltura, vá, destempero, que a pobre tia Olinda, padecia.
Pois muito bem.
A minha tia, desesperada e sem saber mais o que fazer, viu-se sentadinha num penico improvisado, que a vizinha lhe arranjou, para não espalhar as caganitas pela casa fora, como fazem as ovelhas, e preparou-lhe uma infusão de espargos, coisa de sua especialidade, ao que lhe juntou uma cabeça de alho, cozida em mijo de cabra, receita misteriosa dos seus antepassados (sim, aqueles que só vivem até aos 30 anos, carregadinhos de não-presta) e deu-lhe logo a beber, como se o extraordinário remédio, além de lhe parar a soltura, a fizesse mais nova 5 anos.
A pobre tia Olinda, que por aquela altura já não sentia o rabiosque, bebeu de um trago a estranha infusão.
Seguiu-se depois um invulgar episódio.
Os espargos fizeram o efeito contrário, e o alho cozido naquela mijança, ao invés de parar a caganêra (é assim que se diz no Alentejo) aumentou os gases e a circulação intestinal. Escusado será dizer que a minha tia Olinda, largando um peido que fez tocar o sino da igreja, ficou com a tripa de fora, e caso a vizinha não lhe tivesse dito que o melhor era aproveitar aquilo para fazer uma chouriça (que por acaso até vai muito bem com as migas), a minha tia não tinha sido levada para o hospital de Beja, apavorada, coitadinha, num estado mesmo lastimoso e com um aroma de fazer cantar vinte galos.
Ora, em chegando ao hospital, já toda a familia a acompanhava, entre os quais, os dois filhos mais velhos, que andam lá para Lisboa, na faculdade da vida de comunicação e outra coisa qualquer que agora não vem à memória.
Foram logo atendidos, passadas 4 horas, e deram de caras com um médico cubano muito mal disposto.
Armou-se logo ali uma grande confusão, pois cada um sabia exatamanente o que fazer à pobre senhora, tendo consultado até e durante várias horas, a internet, sabendo assim e com toda a certeza o que o médico havia de prescrever à mãe, que fora concerteza atacada por um vírus, ou por uma bactérica -  o que vai dar ao mesmo, já que os remédios que as pessoas utilizam para ambos até são iguais (NOT) -  ou até por algum bicho-vermelho do campo, desses que também fazem brotoeja, e já ali levavam impresso todo o quadro clinico, e bem assim, a medicação e a alimentação mais ajustada aquele invulgar caso.
Ora, este pequeníssimo e caricato exemplo, pode ser, que é, extrapolado para toda uma panóplia de doenças e achaques, que chegam todos os dias aos gabinetes dos nossos caríssimos médicos de família, dermatologistas, podologistas, ginecologistas e todos os acabados em istas, e pasme-se, até mesmo aos conceituados cirurgiões.
Por estes dias as pessoas não precisam de médicos para lhes fazer o diagnóstico, o que precisam é de um site na internet que lhes mande os medicamentos para casa, através da sua própria escolha medicamentosa. O que sabem esses médicos de hoje em dia, de doenças? A maioria dos médicos que aqui temos nem sequer são cá da terra, como podem eles saber de caganêras alentejanas?
E se for preciso uma operação à barriga? Então essas mulheres do campo, habituadas a tantas matanças de porcos, galinhas, perús, coelhos e outras bichesas bravas, incluindo ouriços, não sabem tão bem como abrir a barriga a uma pessoa. Então e a vizinha da minha tia Olinda, não terá inclusive curado a pobre senhora (lá na terra é só do que se fala), já que acelerou o processo de expulsão do mal que ela lá tinha lá dentro?
Fiquem já vocês sabendo: a vizinha da minha tia é que a curou. Não fosse aquele peido que ela lá largou no corredor, e ainda hoje estava internada no hospital, coitadinha, à mercê de médicos cubanos, e calhando já morta. 
Por isso, meus amigos, é que no Alentejo não há ninguém doente. Podem estar um bocadinho nauseados, mas isso há de ser dos alhos...

7 de abril de 2014

E a propósito do amigo Manuel Forjaz, que ontem nos deixou, o que andas tu, Uva Passa, a fazer com o teu tempo?

O tempo perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem.
O tempo respondeu ao tempo, que o tempo tem tanto tempo quanto tempo o tempo... tinha.
 
 
 
O tempo é como  dizia (e bem) o meu amigo Manuel Forjaz. É o que temos em menor abundancia, e por isso mesmo,  o bem mais precioso da vida.
Foi este o ensinamento que o Manuel Forjaz me legou. Estar atenta ao (pouco) tempo que tenho para ser feliz, sentir-me bem com as minhas escolhas, e dispensar as coisas comezinhas do dia-a-dia, que fazendo falta, só o fazem à sôfrega e vil consciência, como se fossem uma espécie de culpa que carregamos desde o berço, transplantada ou herdada por genética social, e que nos obriga a cumprir rituais tão estúpidos e tão absurdos, como ficar a trabalhar até às dez da noite, só porque isso é o que o mundo acha que devem fazer os funcionários de elite.  
O tempo é como um amor platónico, um amor que não nos corresponde, que não quer saber de nós.
É ingénuo e infantil, e corre sem saber que existimos.
Corremos os dias atrás dele, na tentativa de o agarrar, de o seduzir. Tentamos infinitas formas de sermos notados, damos pulos, saltamos fronteiras, fazemos planos, inventamos carências, necessidades, prazos, metas.
Em vão. Nada o faz parar, e mesmo se o agarramos, é falso que seja nosso.
Como uma criança que corre livre, sem saber muito bem para onde, assim faz o tempo, sem olhar para trás. E nós corremos ofegantes em seu encalço, sem qualquer hipótese de o alcançar.
O tempo é isto, um cavalo com asas.
De que me serve a ilusão de que um dia vou ter tempo em quantidade e de qualidade?
Não será  o tempo, igual a um miúdo, que crescendo e ficando melhor, não é mais nosso?
Mas, óh, que diferença faz, mais um dia, menos um mês? Decerto que o terei no final da carreira profissional ou talvez depois de criados os filhos, quem sabe quando ganhar melhor. Não te iludas, Uva. O tempo nao tem tempo, para te dar (mais) tempo.
O Manuel Forjaz havia de te dizer que, ou te apercebes em tempo que perdes  tempo em passatempos, ou a tua vida não passará de um simples durar.
Em que perdes o teu tempo, Uva? Juntaste o suficiente, trabalhaste o suficiente, ou continuas exasperando-te, fazendo planos, contas, listas e ajustes, amealhando os dias, como se pudesses depois dispor deles no futuro, como se mais tarde pudesses voltar atrás, para apanhar o sol daquela tarde, empurrar com força o baloiço, fazer aquela festa de família, ou visitar um amigo que por agora, ainda não partiu?
Farás quando, aquilo que queres? Quando pensas sentar-te a ler? Quando terás tempo para escrever a história, três histórias, mil histórias? Quando pensas recuperar as amizades perdidas, os familiares magoados, os erros da vida?
Òh, pensas tu: hei-de ter tempo, amanhã.
Pois sim. Continua então sozinha, despida das pessoas que te fazem falta, com o frio do orgulho a afagar-te a pele; continua mirabolando histórias, fazendo personagens que ninguém vai conhecer. Continua no vazio das palavras que outros escreveram para ti, mas que tu não quiseste ler.
É bem verdade, Manuel Forjaz.  Acabou-se o teu tempo, mas tu não perdeste tempo.
Ainda assim, foge-me o meu, em coisas sem interesse, coisas que me foram plantadas na cabeça, os preconceitos, os sucessos, os deveres, o ser melhor, o chegar lá.
Chegar onde? Ao fim? Cheia de coisas penduradas nas paredes? As casas, os carros, as férias, os diplomas, os cursos, as conferências, os vazios, os nadas?
É esse o legado que espero deixar a quem terá mais tempo que eu?
Ainda estarei a tempo?
 
Obrigada Manuel Forjaz, por esta consciência que despertaste em mim.
  
Tu, que tens tempo sem ter conta, não o gasteis sem conta, em passatempos.
Cuidai! enquanto é tempo, em terdes conta.
 

4 de abril de 2014

É obvio...

É obvio que ele pensa que tem um grupo de mulheres a cacarejar à volta dele.
Cá para mim, vem de carrinho.
Mais depressa fica sozinho no poleiro, do que eu pôr um único ovo que seja, naquele galinheiro.

3 de abril de 2014

Sem-abrigo acabam numa legislatura, diz António José Seguro...

A notícia exaspera-me, enfurece-me, mete-me nojo.
Porque é vil, é falsa, é hedionda, e fere de morte qualquer oportunidade do PS ganhar as próximas eleições.
Esta abécula chamada José Seguro, foi às instalações da CAIS, de onde soltou um admiradíssimo "isto está enorme!" para logo de seguida vomitar a pior promessa que se pode fazer numa 'zona social de risco', nomeadamente na instituição de referência que há mais anos opera em Portugal na área dos sem-abrigo.
Prometeu este senhor - atentem-se por favor na maior estupidez jamais proferida por um político -acabar com os sem-abrigo no espaço de uma legislatura. Pois muito bem.
Quais sem abrigo?
Os familiares e amigos que ainda não têm cobertura nos Jobs do Governo?
As empresas que apenas aguardam as eleições para se agarrarem aos concursos fraudulentos das obras públicas?
Os meninos acabadinhos de sair da Católica, filhos dos amigos dos amigos dos amigos, para assistentes dos gabinetes?
Um tacho para a mulher que é licenciada em história da arte, mas quer é ser assessora da direcção financeira do Tribunal de Contas?
É este tipo de cobertura que ele dará a estes sem-abrigo da vidinha?
Que sabe este homem da problemática dos sem-abrigo?
Saberá este homem, que todos os anos chegam às ruas mais de 3 000 novos casos, e que a tendência é para subir? Acaba com os existentes? Então e os futuros? E os que vão e voltam? E os que não se veem?
Saberá este homem que a maioria dos sem-abrigo o é por convicção, por querer, por teimosia, por alienação?
O que quis ele dizer com 'acabar com os sem-abrigo numa legislatura'?
Será que tem planos de extremínio nazi para esta franja da população, e que 'legislatura' é o nome que ele dá aos campos de concentração, só para enganar?
Será que vai mandá-los todos para o Alentejo para plantar cabeças de alho?
Ou pretende metê-los todos num submarino, e enfiá-los no rabo do Paulo Portas?
Ááááááhhhh! Já sei. Na legislatura dele, seremos TODOS sem abrigo, daí que ele acabe connosco todos de uma vez.
Matar moscas também eu sei!

Este homem perdeu completamente a tineta.  
Ele não sabe, nem sonha...
 
Agarrem-me.... que eu vou-me a ele!!   

Este post não é sobre arte, é sobre o olho do cú.


As pessoas de hoje em dia, não sabem já o que fazer para ser diferentes.
O que pode interessar aos 'jovens-criadores' contemporâneos, se aquilo que se expõe é um monte de tijolos 'artisticamente' dispostos no chão da galeria, ou uma série de quadros com fotografias do olho do cú?
Há mesmo quem diga que o candelabro de tampões vaginais, da Joana Vasconcelos, é uma grande obra de arte. Sim. Lá tamanho tem ele, mas daí a ser uma grande obra de arte, vai mesmo um longo caminho.
Este exemplo que aqui vos deixo é isso mesmo, uma tremenda estupidez, que teve assim de repente, 2 milhões de visitas no primeiro mês de exposição...
Por terra lusas, temos em grande plano o primeiro slide deste post, ou seja, por estas bandas temos 10 milhoes de visitantes a ver o buraco, para grande orgulho da nossa ministra.
Dava para rir, não fosse uma grande tristeza, no caso, em ambas as situações...

 Exposição de arte O olho do cú


 Exposição de arte O olho do cú  Exposição de arte O olho do cú


 Exposição de arte O olho do cú  Exposição de arte O olho do cú
 

Implante nosso de cada dia, nos dai hoje...


Parece-me que hoje em dia tudo se resolve com um implante.
Desde o simples vaso no qual se deixou morrer a planta, até ao cérebro humano, que deixou morrer (ou nunca lhe nasceu) a inteligência ou a aptidão para pensar.
É pois por estes dias, tudo corrido a implantes, um bocado como era antigamente, tudo era corrido a óleo de figado de bacalhau.

A ver:
Queres um dente novo, metes um implante;
Queres um filho novo, metes um implante;
Não queres filhos de todo, metes um implante;
Queres umas mamas novas, metes um implante;
Queres umas nádegas novas, metes um implante;
Queres cabelos novos, metes um impante;
Ouves mal, metes um implante;
Não queres perder o cão, metes-lhe um implante;
Não queres perder o filho, metes-lhe um implante.

E de implante a implante, lá vamos levando a vida.
E por um implante as pessoas estão dispostas a tudo.
Cheguei à brilhante conclusão que não vale a pena gastar rios de dinheiro em vitaminas para o meu pobre cérebro cansado.
Não tarda muito, a unica coisa que vou ter de me lembrar, é de uma password, que me dará acesso à nuvem, onde um backup do meu cérebro estará alojado e a funcionar a todo a bit-vapor.
Num futuro muito próximo, sistemas neuroprostéticos poderão tentar ler os desejos de uma pessoa, realizar uma ação, como uma simples busca na web, e enviar os resultados de volta ao cérebro. Muito possivelmente antes do fim do século, muitos de nós estaremos conectados diretamente à nuvem, da cabeça aos pés.
E o que eu vou poupar em post its e em sermões do chefe, já me dá para ir atualizando o software, e quem sabe se o espaço disponível na nuvem, ou no planeta 'Nervermind' não dá também para lá enfiar a gigante depressão que se assoma por estes lados.
É que preciso mesmo de instalar AGORA um implante pulmonar. Sim, porque com o dia que levo hoje, já me está faltando a respiração...  
Respira, respira, respira....