2 de setembro de 2014

Listas públicas de pedófilos: Não.

Há mais de dois anos que aguardo pelo desfecho desde assunto, e hoje foi o dia.
Presume a Sra. Ministra da Justiça, que é de bom tom e terá repercussões muito positivas na sociedade portuguesa, publicar e dar acesso aos pais de filhos menores, uma lista com os nomes de todos os abusadores sexuais condenados, e apenas a esses pais, como se essa lista não fosse chegar a todos nós, como se essa lista não fosse pior que rastilho de pólvora, que vai explodir no exato momento em que o Correio da Manhã resolver fazer a exata correspondência entre os nomes e as caras dos abusadores, com a ajuda do inestimável Facebook, e espetar com elas na primeira página do seu inernarrável jornal.
Serviço público dirão eles. 
Serviço público diz a Ministra.
E isto vira faroeste.
Temos assim, que eu e o meu marido, a minhas primas e a as minhas amigas, as minhas colegas e respetivos maridos, toda a gente afinal, até aqueles senhores raivosos que matam tudo o que é abusador - calhasse apanhá-los e era um festim - que se o abuso fosse infligido aos filhos deles, desses senhores raivosos, a esses porcos nojentos nem os olhinhos lhes sobravam, que não pensavam duas vezes antes de os assar numa fogueira da aldeia, depois de lhes sacarem os devidos tim-tins, o fígado e a vesícula, com o garfo de virar as febras, tudo em praça pública, calhando até ao som do acordeão, com o povo a ulular de prazer, como trogloditas ensandecidos.
Em filmes. Em filmes a coisa até que podia resultar. E era giro.
Em filmes.
A Sra. Ministra da Justiça, faz sozinha um filme, passado lá nos recônditos da sua imaginação muito fértil, e dependura uma lista, como se dependurasse no cadafalso, aqueles que todos querem matar, esgadanhar, fazer sofrer sem inocência, por contraponto à inocência roubada às crianças.
Ora vamos lá ver:
Toda a gente odeia os abusadores sexuais.
Estes, com a corda do cadafalso na garganta, prestes a serem linchados em praça pública, a sangue frio,  já foram condenados e já foram enrabados, (e alguns até gostaram, outros aprenderam a gostar),  já cumpriram por esse crime uma pena, pena essa que foi feita pelo legislador e aprovada pela maioria.
São libertados.
Assim que saem da pildra já estão identificados pela vizinhança que se organizou numa mega reunião de condomínio para discutir o que fazer ao intruso abusador. 
Todos aguardam que aquele abusador de crianças, que agora voltou para casa da mãe - coitada, outra para o cadafalso por ter parido um monstro - que vive ali no número 47, no 2º dto, saia à rua para lhe queimarem os olhos com as pontas dos cigarros.
Se calha a haver dois abusadores, mas um ainda não está na lista, e se calha que seja este, o não condenado, a fazer perigar ou a roubar a inocência de alguma criança do bairro, a vizinhança pode sujar a mãos de sangue podre, mas inocente, pois que é fácil presumir, tão fácil, a culpa nos outros.
Por outro lado, na Europa, a Grã-Bretanha permite desde 2011 o acesso condicionado ao registo nacional de cerca de 110 mil agressores sexuais. Nos Estados Unidos, as listas públicas já têm 18 anos.  
Uma mãe de uma menina de 5 anos, que se apaixona por um porco nojento não poderá ter o direito de saber que esse porco nojento está na lista? Não poderá ter o direito de proteger a sua filha antes que seja tarde de mais?
Um abusador cura-se? O nosso modelo bonzinho de reinserção social assenta-lhe? Vai para casa pensar no mal que fez e volta ao trabalho prometendo interessar-se só por mulheres mais velhas?
Ora, uma lista onde o seu nome como abusador consta para toda a vida, não é uma espécie de pena perpétua? E esta pena não foi já abolida de Portugal?
Será que por eu saber que ali no número 47, 2º dto vive um porco nojento conseguirei proteger a minha filha das quase 9 horas que passo longe dela? E digo-lhe como agora aos sete anos? Tem cuidado princesa, não te aproximes daquele homem. Ela não me irá perguntar porquê? E se calha o filho do homem mau ser colega dela lá na escola? Mais um para o cadafalso?
E se de repente eu confundir o vizinho com outro? E se tiver um irmão gémeo, e se... 
Não sou Deus.
Não faço justiça divina. Não posso fazer justiça com as minhas próprias mãos.
Preciso de acreditar na lei do homens. 
De outra forma sucumbo em dúvidas, medos e ignorância.

Sra. Ministra, deixe cair. Sem medos.
Vai ver que não se perde nada.

4 comentários:

  1. A pedofilia e o abuso sexual de menores revolta-me as entranhas e deus permita que nunca nenhum predador sexual ponha os olhos ou as mãos num fio de cabelo das crianças que me são próximas, não sei do que seria capaz de lhe fazer.
    Porém, um pedófilo condenado (pedofilia e abuso sexual de menores não são a mesma coisa, há pedófilos que nunca chegam a "vias de facto"), depois de cumprida a pena, terá pago a sua dívida à sociedade. A pena, por sua vez, terá tido, deseja-se, uma componente reabilitadora. Não será contraproducente fazê-lo carregar o anátema?
    E estarão as nossas crianças protegidas de todos os outros, dos que não foram condenados (porque nunca os apanharam ou porque os apanharam mas nunca se fez prova)? Não devemos antes estar atentos a quem se relaciona com as nossas crianças, ensiná-las a não falarem com estranhos, que há certos comportamentos que não são admissíveis, vindos de estranhos ou de conhecidos, mesmo que pareçam brincadeiras, que o seu corpo é uma barreira intransponível e que ninguém tem o direito de lhe tocar, em vez de nos preocuparmos com um tal de Manuel ou António que consta de uma lista?
    Depois da divulgação da lista de pedófilos condenados, o que se segue? A criação de um ghetto, do qual não possam sair? Se calhar assim os nossos filhos estarão mais protegidos...

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    1. Por isso não concordo.
      Tocaste em todos os pontos que ficaram por dizer no meu texto.
      Obrigada.

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