1 de abril de 2015

Retalhos da vida de um dente

Pedro Dente Molar, nascido e criado numa boca de raízes profundas, conhecido por estraçalhar grossos nacos de pão, besuntados com banha de porco e açúcar, vivera toda a sua vida em grande sofrimento.
Aos seis anos, num jantar de família muito animado, em que se refastelava com um delicioso e suave bacalhau de asa branca, coisa tão rara e preciosa naqueles tempos de arroz com atum, fora repentinamente confrontado com o início de uma dor que lhe havia de ficar para sempre gravada na dentória.
O seu irmão gémeo, Diogo Dente Molar, adoeceria gravemente nessa noite, depois de lhe ter aparecido um ano antes, uma mancha negra no cocuruto que lhe provocava dores lancinantes no corpo todo.
A Senhora Bocana, a mãe que os criava desde os tempos de leite, tinha passado muitos meses num esforço medonho para proteger aquele filho, obrigando todos os irmãos mais saudáveis a trabalhar arduamente, para que o irmão doente, tão doente, e tão frágil, não mastigasse uma migalhita que fosse.
E tudo fizeram para o curar, mas todo o trabalho foi em vão, e aquela terrível mancha, que a todos horrorizava, nunca chegou a desaparecer.
Nessa noite, o pequeno Diogo Dente Molar, levado em queixos para a clínica do Dr. Horror, seria selvaticamente arrancado, sem anestesia, por um decrépito e ferrugento alicate, que sem complacências e à vista de todos, o aventou para um balde sujo e ensanguentado, onde jaziam outros dentinhos, igualmente falecidos, por variadas e desconhecidas maleitas.
Pedro Dente Molar nunca mais foi o mesmo.
Obrigado a trabalhos redobrados por falta do seu querido irmão, agora desaparecido de tão trágica maneira, e instigado pela madrasta, Língueta Dentória, a mastigar tudo o que lhe levavam para casa, foi durante muitos anos o pilar da Senhora Bocana, sendo chamado a todos os banquetes, refeições, cigarros, fados, unhas e dentadas, sem nunca se demitir da sua função de dente molar.
Os anos de trabalhos forçados foram implacáveis, e se a Senhora Bocana se podia regozijar por ter tantos filhos saudáveis e bonitos, o mesmo já não podia esperar do seu Pedro, que a pouco e pouco foi perdendo todas as forças.
Já adulto, Pedro teve aquilo a que se pode chamar de 'intervenção radical'.
Com um buraco que chegava quase até estômago, Pedro estava imprestável, velho e cansado.
Dona Bocana, exausta, levara o seu único filho molar a um médico da treta que lhe vaticinou um desfecho pouco favorável aos dentes da frente. Era preciso tratar aquele dente antes que o dente fosse para o céu dos dentes, obrigando os dentes da frente a fazer todo o trabalho de casa.
E foi assim que Pedro Dente Molar, numa arriscadíssima operação, que meteu chumbo e coisas que tais, se viu paralisado e desvitalizado permanentemente, cumprindo apenas a função menor de ocupar espaço. E dona Bocana ficou feliz, porque o que ela menos queria era ver os seus outros filhos separados uns dos outros, como vulgares códigos de barras.
Doze anos depois, dormindo, Dona Bocana foi assaltada por um objecto não identificado que se preparava para desaparecer goela abaixo. Era o chumbo demoníaco, que depois de anos e anos prisioneiro, se soltara das garras de Pedro Dente Molar, que chorava e esbracejava, dizendo que o tinham matado.

E mataram.
Pedro Dente Molar, foi hoje a enterrar.
Pedro Dente Molar, um enorme dente de três ferozes raízes, lutou até ao fim contra um alicate medonho, enorme, durante uma hora.
E sucumbiu.
Dona Bocana está inconsolável. Acaba de perder o seu último dente molar, e não sabe o que lhe reserva o futuro.
Pedro Dente Molar está agora em paz, junto do seu irmão Diogo, no céu dos dentes.
R.I.P.
Amém.


9 comentários:

  1. Cara Uva,
    Que nomes tão engraçados. Só conhecia o Pedro Pedra Rocha Calhau.
    De luto pelo seu céu da boca,
    Outro Ente.

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    1. Estou como o linguado. Com a boca de lado.
      Obrigada.

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  2. És fabulosa, Uva.
    Paz à sua alma.


    (Põe gelo, opta por alimentos moles nos primeiros tempos e mastiga do outro lado...)

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    1. Sou mas é desdentada, diz antes. 40º e eu aqui enfiada em casa, com uma boca-balão!
      Ai.

      (Obrigada Mirone, isto de ficar sem dentes é terrível. Nem quero pensar quando for por o implante...)

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  3. Ai coitada, as melhoras. A experiência mais traumática que tive no dentista foi terem-me queimado uma gengiva para nascer um siso que ainda hoje me dá dores. De resto tenho uns dentes óptimos, graças aos santinhos, que eu sou das que prefere ter um filho a pôr lá os pés.
    (história fabulosa, como de costume)

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    1. Já estou melhor Pic. Obrigada.
      Ontem tive muitas dores e até abusei no Brufen, mas enfim, tinha mesmo de ser, já estava a dar as últimas o Pedro.
      Mas vou meter implante, faz-me falta pelo menos 1 molar, mas só de pensar até me dá arrepios, e não é só pela dor, mas também pelo preço. Ai ai.

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  4. O que eu me ri com estas "peripécias". Parabéns por mesmo no meio da dor conseguir ver o lado humorístico da vida. :D Obrigada por este texto e sinceras melhoras.

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    1. O que vale é que a malta se vai rindo, vivendo e rindo.
      É o que se leva da vida.
      ;)
      Obrigada.

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    2. Querida Uva Pass isso é sem dúvida o melhor (senão a única coisa) que levamos daqui! :) Beijinho

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