17 de junho de 2015

Do juízo


E ainda bem.
Caso soubesse o que come o juízo já teria albardado o rapaz com tanta comezaina que agora estava aqui a morrer de tédio com a cabeça cheia de ses.
Nunca fui ajuizada, aliás, ainda hoje, as pessoas que me conhecem realmente bem, ou desde pequena, tendem a tratar-me como se eu fosse uma miúda igual à que costumavam chamar para vir para casa almoçar, já depois das nove da noite.
E eu gosto. É uma certa condescendência infantil, desculpada, uma carinhosa preocupação  que me enche de calor humano e de alguma fé nas pessoas.
Perdi tantas vezes o juízo que desisti de o reencontrar.
Às vezes, aflita, fazia juras sentada na mesa da cozinha, já depois dos açoites da minha mãe me arderem no rabo, e juntava a mãos em oração: juro que a partir de hoje vou ter mais juízo e hei-de ser um exemplo de menina. Juro!
Quem mais jura mais mente. Isto é ponto assente. Pelo menos de menina...
Se tivesse juízo não tinha seguido pela vereda mais torta da vida, a que se apresenta mais escura, repleta de calhaus dos maiores e de gente que agarra nos calhaus e mos lança enfurecida.
Ando muitas das vezes de cabeça partida, com os pontos todos à mostra, cheia de galos e de dores, cega no caminho, indecisa no rumo que devo tomar para encontrar definitivamente um pasto verde, e quem diz um pasto verde diz umas minhocas ou esses bichos peganhosos e amorfos, cheios de medo da luz e da vida, para alimentar o meu juízo.
Prefiro mil vezes a incerteza da vida à certeza da morte, lenta, do caminho direito.
És uma menina tão ajuizada foi coisa que ouvi tantas e tantas vezes dizerem a outras meninas, enquanto eu me encolhia de vergonha tentando ao mesmo tempo e para esconder a cara, arrancar as crostas dos joelhos. 
Hoje tinha aqui num caminho estreito, e mesmo à minha frente, um grande calhau. Baixei-me e peguei-lhe. Olhei demoradamente para ele e depois comi-o, vagarosamente, delicadamente, tentando morder bem no epicentro para degustá-lo de ambos os lados da boca.
Perdi a cabeça e parti os dentes.
Comi-o.
Era o meu juízo.
O juízo é um grande calhau. Os calhaus não se alimentam.
Servem quiçá para enfeitar as bermas, para se atirarem dos penhascos, para ferir os outros.
A mim não me servem para nada.


8 comentários:

  1. Uma verdadeira terrorista Uva? :)
    Os caminhos sem estrada são mais difíceis de seguir mas a adrenalina é outra!
    Beijos

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  2. Fica-se com o juízo do lado de dentro, portanto, ainda que partindo os dentes.

    Beijos, Uvinha loira. :)

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  3. Cara Uva Passa,
    Vem inspirada. (Epá, as crostas nos joelhos... ainda hoje tenho a cicatriz de uma espetacular queda de bicicleta. O juízo está sobrevalorizado.)
    Um beijo,
    Outro Ente.

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  4. Eu sp disse q a culpa era dos sisos, qd finalmente 2 deles deram o ar da sua graça, tumbas, arrancaram-mos, de uma assentada só. Lá se foi a hipótese de ter juízo :)

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  5. E tu lá precisas de juízo, tens bom senso que é o que falta a quem faz juízos de valor.

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  6. Partir os dentes comendo um calhau
    Eu chamo a isso
    um grande pre_juízo

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