27 de outubro de 2015

Demasiado fiambre

Tenho 39 anos.
Nasci com uma grande propensão para comer, tanto que com 9 meses já pesava 12 quilos.
Foi sol de pouca dura. Assim que comecei a andar, tarde, o meu estômago encolheu, pespegou-se a hiperatividade nos ossos, e a hora das refeições era um martírio tão grande que ainda hoje a minha mãe sofre do trauma.
Lembro-me de ser muito pequena, e de estar sentada à mesa como um criceto. O bolo alimentar atravessava de um lado ao outro o buraco negro da boca, cheio de medo do escuro, e dali não passava. À pergunta desesperada da minha mãe, sobre o que queria eu comer afinal, respondia-lhe um bifinho, e naqueles tempo de vacas magras a minha mãe fazia das tripas músculo cardíaco e ia desencantar um bife que fritava com margarina de origem animal.
E também me lembro da moda dos bifes de cavalo. Lembro-me mas gostava muito de esquecer.
Depois comecei a ficar sozinha em casa. Aos 6 anos. Por essa altura apareceram as pizzas, e a minha mãe, vendo-me entusiasmada com a moda, comprava as bases e fazia ele própria o recheio. Linguiça. Pedaços de carne de porco frita. Queijo às fatias. Fiambre.
Devo ter comido centenas de pizzas, com quilos de fiambre.
Quando me pus ontem a escrutinar a minha vida alimentar, por força das notícias da OMS, dei-me conta que em quase todos os dias da minha vida, à exceção de alguns períodos em que enjoei este ou aquele alimento, consumi fiambre. Se não foi fiambre foi paiola. Se não foi paiola foi paio. Se não foi paio foi pica-pau, costeletão, febras, bifinhos ao champignon, fiambre, fiambre, fiambre.
Dizem que os enchidos estão agora no mesmo grupo que o tabaco. Pois eu fumei durante 15 anos cigarros enrolados em fiambre.
Há uns anos a esta parte deixei de consumir bifes de vaca, aumentei exponencialmente o peixe, e reduzi muito o porco. Mas quem é que eu quero enganar? Sou alentejana. Tenho à minha volta um grosso e volumoso porco que acena com uma bela chouriça.
Quero com isto dizer que de acordo com a OMS sou uma bomba relógio para o cancro.
Somos todos.
Decidi hoje o corte radical com as carnes vermelhas, da mesma forma que decidi cortar com os cigarros, com a coca cola, com os sumos e com o álcool.
Serei infinitamente mais infeliz, mas gostava muito de cá andar mais uns aninhos.

21 comentários:

  1. Não tens de ser infinitamente mais infeliz. Vais ver que rapidamente adquires novos gostos e mimas melhor os saudáveis que já te acompanhavam.
    Não como uma batata frita há cerca de doze anos, entre várias coisas que deixei de consumir. Não sou infeliz por isso. Valores mais altos gritaram.
    Silver lining, é o que é!
    Abraço

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    1. Tenho de substituir o pão com fiambre por sopa... quão feliz pode isto ser?
      Não comer batas fritas é outra luta.
      Não lhes consigo resistir.

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  2. Reduzir. Cortar? Ora bolas! O peixe tem mercúrio, a carne tem hormonas (mesmo a não vermelha), os legumes e a fruta são tratados com produtos altamente prejudiciais... Melhor injectarmos qualquer mistela pura para aveia e morrermos mais tarde uns dois anos?

    Beijocas, Uvinha preocupada. :)

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    1. Temos de estar com o olho bastante aberto. Não tarda roubam-nos o queijo.
      E aí eu corto os pulsos.

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  3. Pois... Tu Alentejana, eu Nortenha, que vai ser de nós e deste nosso tesouro de fumeiros?
    Não sou adepta do "antes faça mal, que se estrague" e há muito que fui reduzindo o seu consumo, mas não abro de um dia de São Asneira de vez em quando... Ópá,!! a gente já tá tão espremida do orçamento, e com isso, espreme-se a vida e o viver, que se não for um pecadinho, que andamos cá a fazer?

    Abreijo em TU

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    1. Não sei se vou aguentar, mas as carnes vermelhas é mesmo para reduzir.
      Com calma e senso tudo se consegue, mas eu como alentejanona tenho sérias dificuldades em resistir a tudo o que é fumeiro.
      Já para não falar nos hamburguers.......e essas coisinhas....

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  4. Uva, não tens de ser infeliz...não andamos cá para isso. O melhor é aproveitar, esta vida, não sabemos se haverá outra...pelos menos tão boa quanto esta.
    Deixo-te um link para um blogue novo. Pode ser que te inspire.
    Um beijinho miúda!

    http://anagalvao.pt/

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    1. http://anagalvao.pt/2015/10/barrinhas-de-arroz-tufado-e-amendoim/

      Isto é ótimo para as minhas voltas de BTT.
      Thank you miúda!
      Vou ficar de olho!!!

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  5. Há muitos anos que conclui e me resignei ao facto de que nos estamos a envenenar lentamente. Isso aconteceu no momento em que a alimentação se tornou industrializada. A nossa geração ainda apanhou meio-meio...

    E depois levou com o BOOOOOOOOM do consumismo.
    Inclusive o alimentar.

    As mães foram trabalhar e a comida começou a ser de pacote ou das cantinas da escola.
    Ainda me lembro que a primeira vez que me quiseram dar uma pizza declinei. Achei aquilo mau. Mas depois surgiram as Telepizzas ao domicílio, a moda que isso foi, os hipermercados a vender pizzas congeladas pela primeira vez...

    Cá em casa a mãe adorava, eu fui na onda...
    Mas gostar, realmente, nunca gostei. É apenas mais um alimento que entra na categoria de "pode ser"... Para despachar.

    Acho que não é novidade que tudo o que é charcutaria, carne vermelha e grelhados faz mal e tem potencial cancerígena. Mas cá está: ignoramos... faz parte da cadeia alimentar. Só os ricos se podem dar ao luxo de se alimentarem como os pobres dos nossos avós: biologicamente!

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    1. Totalmente de acordo e um comentário bastante lúcido.
      Lá em casa comemos pouca comida pré-cozinhada e além de mim, todos comem sopa duas vezes por dia.
      O pior são aquelas porcarias que durante anos andaste a comer sem saber que te faziam mal.
      O exponencial aumento dos casos de cancro indica que há qualquer coisa que TODOS fazemos que faz muito mal.
      Será as carnes e os enchidos?
      É tudo um pouco?
      Já reparaste que morrem milhares da mesma doença atulamente.
      Antes não era assim.

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  6. Uva, pois eu não penso modificar absolutamente nada. Era o que mais faltava. Lembro-me há uns anos aparecer o vírus H1N1, estirpe mortal, os países inundaram-se de vacinas e....., Pois é! Mesmo vindo da OMS.

    Beijinho grande Uva e sê feliz.

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    1. Acho que cada um deve fazer o que bem entende.
      Mas é uma chamada de atenção.
      Não se devem levar estas coisas ao exagero, mas para mim foi um abre-olhos muito positivo.
      Farto-me de cometer excessos.
      Fiambre e carne de porco então é um disparate.
      Não vou deixar em definitivo mas vai haver uma redução.

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  7. Mas isto é uma tristeza, nao podemos comer praticamente nada... valha-nos o tinto, pelo menos esse dizem que ainda podemos beber um copito :))

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    1. Praticamente nada destas merdas. Um copito venha ele. Isso não deixo de fazer. Nada como era antigamente com as naitadas, mas adoro vinho e muitas bebidas alcoólicas.
      Fazem é mal. A mim então fazem pessimamente ao problema da IUR que tenho.

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  8. É sempre louvável
    a pretensão
    de quer morrer saudável

    Tenho para o jantar salsichas com couve lombarda
    Estás convidada!

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  9. Uva, lá andaste tu a enfardar informação como se não houvesse um amanhã em que afinal. Agora vai lá vomitar, vai.

    Lady Kina

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  10. Tu cortaste com o álcool??? mulher, pq carga de água vais fazer uma coisa dessas?? Um copinho de vinho lá faz mal a alguém?
    (Retive-me neste ponto, peço desculpa, shame on me)

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    1. Nããããooooooooooooo. Bebo é menos, muito menos.

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  11. Estou como tu... sempre comi fiambre e demais enchidos... não é agora que os vou deixar de comer, nem as carnes...
    Olha, haja equilíbrio...
    :O

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