12 de fevereiro de 2016

Estou em casa, e resolvi escrever isto

Um dos maiores terrores das mães é o número da escola a tocar no telemóvel.
Por não ser suposto ligarem da escola, é certo e sabido que das duas três: ou andou à pancada com um colega qualquer, ou partiu uma janela, ou partiu os óculos, ou partiu os dentes ou outra parte do corpo, ou tem febre e vomitou.
A minha pincas, que anda num chove não molha com a febre e os vómitos desde Sábado passado, e sem razão aparente (pelo menos de acordo com os profissionais do Saúde 24 e dos médicos da urgência do Centro de Saúde), encheu-se de febre, vomitou, e o número da escola apareceu no visor do meu telemóvel.
Stress.
A correria para ir buscar a miúda à escola, arrancando dois pais completamente enterrados nos escritórios situados no centro de Lisboa, leva mais de 40 minutos, isto se tudo correr bem e seja só levantar o rabo da cadeira e zás, porta fora. Nunca é. Juntamos a isto várias vomitadelas durante a semana, cor pálida, quebranto, enjoo e tudo o que se pode atribuir ás misteriosas 'viroses' - que ninguém sabe e ninguém viu, mas que são o melhor álibi do SNS para poupar uns trocos em análises e exames -, e temos um quadro de esquizofrenia parental a conduzir um automóvel no eixo N-S.

Está na hora de fazer aquilo que toda a gente faz, que se lixem as estatísticas, não passo nem mais um dia com este diagnóstico de merda sem consistência de virose-que-anda-por-aí, e que aliás nem personalidade jurídica tem para me justificar as inúmeras faltas ao trabalho.Quero lá saber de taxas e taxinhas, caguei para o saúde 24, e planto-me de armas e bagagens no Hospital Beatriz Ângelo, o mais perto da escola.

O Hospital Beatriz Ângelo é praticamente a estrear. Tudo novo. Tudo brilha. A urgência pediátrica é igual às outras só que os adultos têm crianças ao colo, no chão, nas cadeiras, a correr, a gritar, enfim, um cenário de guerra onde as armas são o ranho, a tosse, e algum queixo aberto.
Lá estamos nós, os três, com a miúda a gemer de dores na barriga, eu a fazer mil conjecturas se é apendicite, esquisitite, ou outra coisa mais séria.

A triagem revelou uma pulseira verde, a pulseira da virose-que-anda-aí. Tudo bem, mas curem-me a miúda. E lá fui desfiando ao médico de cara patusca um novelo de sintomas, de sins e nãos, até que ao sim à pergunta de ardor ao fazer chichi, lhe apitou qualquer coisa lá nos megafones dos entretelhos, e vai de fazer análises ao sangue e à urina da criança, à procura de uma infeção urinária.
Fazer chichi para um copo não é assim tão difícil, agora tirar sangue com recurso a uma agulha parece-me missão de 007. E foi. Ficou-me a criança 4 horas sentada nas cadeirinhas que brilham da urgência, com o ranho, a tosse e os queixos partidos, uma agulha espetada na veia, e uma recordação sinistra de como é que ela lá entrou.

O diagnóstico não podia ser pior. Pielonefrite aguda com afetação do rim. As análises são contundentes, a menina precisa de iniciar terapêutica de imediato.
Pânico. Infecção generalizada provocada por bactéria misteriosa no trato urinário, e que por ter sido deixada à solta pelos senhores da Saúde 24 e pelos médicos do CS, durante vários dias, subiu e foi instalar-se num rim. Bonito serviço. Atacou-me a culpa e o desespero. Depois atacou-me a conta da farmácia. 10 dias de um antibiótico fortíssimo, montes de merdas para isto e para aquilo: é um rim comprometido, não é um dente de leite, e toca para casa para o respectivo consumo da matéria tóxica. A primeira toma do antibiótico veio fazer uma visita ao tapete do quarto. Cabum! Tudo no chão. Uma infecção num rim + antibiótico vomitado = Estefânia. Não aceito que um hospital não me dê soluções imediatas para o caso da terapêutica não funcionar. Muda-se de Hospital. Isto já passava da 1.30 da manhã.

Entrada na Estefânia com um quadro de pielonefrite aguda sem medicação, vómitos, dor de barriga, palidez, quebranto, febre, e eu já não sabia bem para onde deveria voltar os pensamentos.
A triagem foi uma constante de sobrancelhas franzidas. Hum... mas... pois... e a pulseira, a custo, lá saiu amarela. As análises do Hospital Beatriz Ângelo andaram de mão em mão como se fossem uma nova descoberta cientifica, sóquenão. Pielonefrite aguda? Com uma PCR nestes níveis? Desculpe mãe, mas fique contente por a ML (providência divina?) ter vomitado a bomba antibiótica que lhe receitaram.

Não me alongo mais. Deitei-me na cama da ML às 4.30 da manhã depois de esperar horas sem sentido pelo resultado de mais análises, de mais picas, de mais consensos.
A ML está aqui em casa com uma terapêutica de chá e torradas, para uma virose-que-anda-por-ai.
Eu tirei o peso do rim da consciência, e voltei a faltar ao trabalho, a uma sexta feira. A ML não fez o teste de matemática para o qual se preparou 2 semanas seguidas. A conta da farmácia que vai para IRS de 2016 cairá no esquecimento de todos, porque enfim, é só mais uma despesa, mas o que realmente me pesa é eu ter estado a discutir no café que todos os médicos deveriam ser pagos a peso de ouro, que é miserável pagarem 12 euros à hora a quem salva vidas, e o homem do balcão me estar a dizer: menina, há médicos que não valem um peido quanto mais 12 euros... e eu agora ter de lhe dar razão.

23 comentários:

  1. Xiii...Uva...infelizmente, esse filme eu já vi...:(..vim domingo com o meu pequeno de um internamento de 4 dias..dias difíceis, requerem medidas...cuida-te para conseguires cuidar. beijinho enorme.

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  2. O sr do café tinha razão.
    E olha que conheço muitos que deviam ser pagos a peso de ouro, é verdade...
    ...mas há muitos mais que nem os 12 euros merecem...

    :)

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  3. Hospital novo a estrear... Médicos incluídos!
    Não há nada a fazer, por isso, o melhor é esquecer. :/
    As melhoras da filhota!

    (Escreve-se "às 4.30 da manhã" e não "ás 4.30 da manhã" ;) )

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    1. Escreve-se (no meu Alentejo)às 4 da madrugada.
      Done.

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  4. Escreve-se uma merda qualquer, porque o que importa aqui é a saúde da menina, o português fica um pouco mais tarde, se não se importam, e não, porque não tenha sentido e importância mas, noutro contexto por favor.

    melhoras da Uvinha

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  5. Uvinha, as melhoras da ML.

    Um beijinho para as duas :)

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  6. ...não falo de médicos, tal como não falo de ciclistas...

    as melhoras para a mini uva.

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  7. apre, não ganharam para o susto. pobre ML.
    As melhoras.
    beijinho grande,
    Mia

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  8. Ser mãe .......... é sofrer no paraíso!
    Que fique boa logo sua menina.
    joturquezzamundial
    Beijos.

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  9. As melhoras da pequena. Caramba, que susto. Já fui três ou quatro vezes às urgências pediátricas do beatriz ângelo mas sempre coisas simples.
    Em termos de panorama nacional, quando a coisa se complica, ou a gente se mexe ou bem que andamos à deriva.

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  10. As melhoras da ML e ainda bem que é só uma virose.

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  11. Uva, n te entregues já assim aos bandidos. Bem sei, é revoltante. Mas, maus profissionais há em todo o lado. Com a saúde a coisa assume contornos mais complicados, bem sei. Pode ser a diferença entre salvar ou condenar alguém. Mas se te serve de consolo, já fui "resmas" de vezes à Estefânia e o meu puto foi operado lá aos 2 meses. Impec!
    A verdade é q foste várias vezes aos médicos. Todos apontaram p um mm diagnóstico. Na realidade só aquele, no meio de tantos, é q falhou...
    O q importa é q a ML se meta boa, e o resto...beijinhos e as melhoras da miuda. Não desanimes.

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  12. Já tive uma - aliás, duas - pielonefrite aguda e não foi nada simpática. E à primeira ida à urgência também me mandaram para casa com um antibióticozinho - no dia a seguir estava lá outra vez e deram dose mais forte - no outro dia voltei e acabei por ter de ficar semana e meia internada, que o rim é um bicho sui generis e não tinham visto bem a gravidade da coisa (a médica que me internou chamou nomes feios aos primeiros...). Mas se me custou andar às voltas - e até tinham acertado no diagnóstico mais ou menos à primeira - no hospital, nem consigo imaginar uma miúda - ou os pais de uma miúda! - que leva com o epíteto de virose esses dias todos e com febre persistente e todo esse mal-estar. Não é aceitável, é por essas e por outras que às vezes me custa ser solidária com os médicos e que eles acabam por levar todos por tabela da opinião pública!

    As melhoras da miúda*

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  13. E o SNS eo Centro de Saúde tinham razão!!!

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  14. Há bons e maus profissionais em todo o lado, infelizmente na medicina, que lida com vidas e com saúde é igual. Espero que a ML esteja melhor. Beijinho

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  15. Infelizmente há bons e maus em todo o lado... eu tenho uma péssima experiência na Estefânia que me deixou o pirralho mais velho, há uns longos dez anos atrás, vir para casa com uma infecção urinária porque o atenderam por favor já que aquele não era o hospital da residência!!
    3 dias em casa a benuron/brufen, 40º de febre para chegar a Sta.Maria e o Sr.Dr. me dizer "Vai fazer análises imediatamente e prepare-se para ficar cá que estes 3 dias em casa agora só antibiótico por via intravenosa". O puto tinha 6 meses e quem descobriu a doença estava em Sta. Maria.
    Do Beatriz Angelo nada tenho a apontar até hoje... Sempre bem atendida e sempre com resposta e solução. Ainda ontem lá estive e por uma causa de uma pequena coisa o miúdo foi imediatamente encaminhado para a especialidade para despite! Como em tudo... há bons e maus profissionais

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