15 de abril de 2016

Chamem a polícia

Tentando o simulacro da comparação metafórica, que não sei a esta distância do final do post se correrá bem, surge-me à ideia a última vez que escrevi neste blog - que foi ontem - e a primeira vez que entrei numa esquadra da PSP para reportar uma ocorrência - que foi hoje.
Faço esta comparação porque aquilo que eu sinto ao entrar no meu blog por estes dias é, metaforicamente, aquilo que senti ao entrar hoje na PSP.

Depois de um longo namoro comigo própria, em que abria um qualquer livro da minha estante e me achava capaz de escrever aquilo, e juro-vos, a soberba era tanta que me voltava na cadeira rotativa do escritório, acertava o olho num livro ao calhas - podia ser Dostoievski, podia ser qualquer um -, e dizia para mim própria que se abrisse um blog e treinasse o suficiente, o bastante, acabaria por alcançar certos pódios, e que através da minha escrita, muito boa, e do meu género, muito bom, outros se virariam para a estante, para si e para dentro, e iniciariam a mesmíssima aventura das letras.
Achei-me capaz de arrastar massas, ouve até, mais tarde, quem me dissesse que faria história, que seria grande, mas a verdade é que há pódios que não se alcançam, mesmo que cortemos todas as metas.

Hoje, por coisas cá da minha vida, entrei pela primeira vez numa esquadra da PSP para reportar um crime. Tal como lá atrás me julguei capaz de tudo, ali, num hall pejado de moscas, mostrei-me capaz de nada. Reconheci o logótipo azul, sei do que ali se trata, sei o que ali se faz.
Sei também, que tal como no blog, há ali dias menos bons, há dias francamente maus, há dias banais, há dias sentimentais, e há dias em que são apenas como as moscas que andam à roda na minha cabeça.

Acho que hoje, quando me sentei na cadeira de napa preta, e olhei o guiché do Chefe Ramos, é que percebi a ironia da metáfora.

Fui tomada de assalto por força de um assalto.
Reconheço o meu logótipo, sei do que se trata, e o que aqui se faz. Sei, tal como na esquadra, que há dias menos bons, há dias francamente maus, há dias banais, e há dias sentimentais.
Mas nenhum dia foi como hoje.
Chamem a polícia.
Tenho as palavras presas.

15 comentários:

  1. Querida Uva Passa,
    Parece que se soltaram. Imputáveis e em condições.
    Um beijo,
    Outro Ente.
    (Apenas as palavras - e a paixão, permita-me - deveriam poder tomar-nos por assalto.)

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    1. Querido Outro Ente, tenho uma grande estima por si.

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    2. Escusado será dizer que a estima é mútua.

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  2. É por esta altura que começa a música de fundo, com os Delfins a tocar e o Miguel Angelo a cantar "Soltem... os prisioneiros..."

    :)

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    1. Hahahahahahahahahahaha.
      Não estou boa da cabeça.

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  3. Percebo a metáfora.

    Os tipos da PSP são mal pagos, estão ali para dar conta da ocorrência.
    tens de entender...

    Hahahahahaha.

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  4. E se tivesses de conviver diariamente com esquadras da Psp?

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    1. Faria seguramente alguma coisa por aquela gente, porque a esquadra onde estive, tem umas condições de trabalho que não se desejam nem aos criminosos, e olha que não estou a brincar, eram decadentes e entristeceram-me bastante.

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  5. ~~~
    Continua a escrever, Uva fresca, gostei das metáforas

    e de Passa ou Gaga não vislumbro vestígios, vejo sim,

    ótimas hipóteses de triunfo...
    ~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

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    1. Isso é dos teus olhos Majo.
      A Uva finou-se.

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    2. ~~~
      Nunca duvides da minha apreciação, Uva.

      Podem ser péssimos momentos, contudo,
      são transitórios...
      Experimenta brincar com a situação...

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  6. Sabes o que pode acontecer por prestar falsas declarações??!
    "Palavras presas" pois...

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    1. De qualquer maneira trabalho no Rule of Law. Alguém acabaria por me desenrascar... ;)

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