20 de outubro de 2014

A culpa nunca morre solteira

Atentem bem nestas palavras, musica para os meus ouvidos, que escutei ainda há pouco:
'ná, isso da matemática depende muito dos professores.'
Ahhhhh, benzádeus, pensei eu encantada, afinal não fui a única culpada disto tudo, de me afogar em tantas letras, que eu era ainda uma criança quando o meu avô paterno me juntou a custo com os primos do Colégio Moderno, sei lááááááá, e largou esta pérola da matemática aos netos: o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos.
Mas que criança  poderia compreender tal coisa?
Que interesse poderiam ter aqueles pequenos burgueses, todos de cabelo muito lambido e hiperlordose, nas palavras do avô, senão a certeza de que um dia lhe haviam de ficar com a casa de Lagos?
Uva! Gritava ele. O que são catetos? E eu, de costas muito direitas, retorquia muito aflita: que tetos avô, que tetos?
E ele lá continuava, monocórdico e enfadado, falando somente para os soberbos netos, enquanto eu fazia contas de cabeça sobre a melhor forma de colar a pastilha por baixo da cadeira.
Hoje, quando ouvi a frase ali de cima, voaram-me os pensamentos. 
É certo que o meu avô não me enfiou nada na cabeça, além de uns carolos bem valentes nas aulas dos catetos, mas a culpa não foi (só) dele.
Vejamos então como tudo (me) aconteceu.

"O Bacalhau" - Matemática (7º):
Homem rural, de grande cabeça pastosa, conhecido agricultor de Caneças, que também lecionava em números.
Logo que chegava à sala, sacava da sua antena de rádio, esticava-a como quem mata um coelho, e apontava um qualquer exercício no quadro negro.
Uva, ao quadro! E eu, que tinha um medo imenso daquelas unhas enormes e grossas, cheias de merda até ao sabugo, não conseguia perceber como é que um agricultor de Caneças, que não lavava o cabelo, as calças, a camisa e as restantes miudezas,  há mais de duas décadas, poderia querer ensinar a alguém uma ciência 'pura como água cristalina'.

"Dez para as duas" - Matemática (8º ano)
Uma mulherzinha muito atarracada, de olhos cínicos e perna curta, que debitava exercícios como um relógio; mas não foi isso que lhe deu o nome.
Tinha um problema nos membros inferiores. A posição dos pés, se sobrepostos num relógio, davam a hora certa. Dez para as duas. Tic, tac, tic, tac, patinhava ela pela sala, com os seus pés de pato enfiados numas socas brancas ortopédicas.
Reza a lenda que um dia, uma aluna que chegava sempre atrasada, substituiu o giz por um tampão. À pergunta da pobre professora: de quem é isto? toda a turma devidamente instruída, se levantou, à vez, respondendo como no anúncio: é meu, é meu, é meu!
Todos ficaram a conhecer a ira da pequena senhora, e a pobre rapariga viu-se grega para fazer o exercício que ainda por cima estava errado, esfregando com um OB num quadro acabado de lavar.

"Cuecas" - Matemática (9º ano)
Chegou decidida a fazer boa figura numa substituição inusitada, mas era uma moça muito estranha.
Alta, morena, entrava na escola de cigarro na mão e malinha à tira-colo, abanando muito a cabeça. Assim que se assomava no pátio principal, atraia para si tanto rapazola, que haveriam de pensar, quem visse a cena de longe, que era um enxame de formigas de volta dos restos de um Bolicao.
Não usava cuecas, e durante a leitura do problema que dava o mote à aula, sentava-se no corredor do meio, sempre de perna aberta, chamando todos os alunos a sentarem-se nas mesas da 'coxia', para que a ouvissem melhor. Passou toda a gente, mas ninguém aprendeu nada.
De jeito.

"Vira-Bicos" - Matemática (10º ano)
Era o temível diretor da escola. Era um grande estrábico e ora olhava com o olho virado para bardamerda, ora com o olho virado para infinito.
Ninguém sabia ao certo com quem falava, razão pela qual todos se levantavam ao mesmo tempo quando ele usava da sua frase preferida: Tu aí! Rua!
Um dia, perdido de raiva, disse: essa mesa aí do fundo, rua!
As duas alunas dessa mesa, uma delas conheço-a bem, levantaram-se ordeiramente, e acatando a ordem superior, levaram a mesa para a rua.

"Pingas" - Matemática (11º):
Vivia a quilómetros de distância e percorria todos os dias o caminho para a escola, pela via rápida, juntamente com o trânsito infernal, mas a pé.
Chegava todos os dias muito bem acompanhado, com a carraspana do costume e um pauzinho de madeira que usava para tirar a cera dos ouvidos.
Lecionava os números como quem ensina filosofia, e logo pela manhã, quando começava divertido a escrever no quadro preto, acabava sempre a frase na parede, furioso por ninguém o avisar que o giz é branco e ficava difícil ver o resultado.

'ná, isso da matemática depende muito dos professores.'
Ahhhhh, a culpa nunca morre solteira, e eu que fui a única neta que não andei no Colégio Moderno, sei lááááá porquê, sou a única que tem estas histórias para contar.
Tudo o resto são catetos.

30 comentários:

  1. Ahahah lembro-me de algumas personagens assim, mas no meu caso da área da Biologia, tinha uma particularmente totó que carinhosamente (#not) apelidámos de Plantinha...ela fazia verdadeiras odes ao reino plantae nas aulas com direito a vénias a vasos de flores. Um mimo portanto, e um pagode sem fim para um bando de miúdos de 17 anos!

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    1. O que eu me diverti com a minha prof de biologia.
      Coitadinha.... ainda deve estar internada com a mesmíssima depressão que apanhou em 1990, com a minha turma.

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  2. isso da hipotenusa e dos catetos é apenas um mito, e já se sabe; "cria fama e deita-te a dormir"! bom dia Uva. :))

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    1. Isso da hipotenusa era uma granda pancada que o meu avô tinha. Só me apetecia dar-lhe com a hipotenusa na caneça, mas ele era muito alto...

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  3. Ahahahahahahah claro que quase tudo depende dos profs. Claro! (E agora dou comigo a pensar como me descreverias se tivesses sido minha aluna. Sim, porque eu fui professora de matemática... Durante três ou quatro anos é certo, mas fui...)

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    1. Eu tenho cá para mim uma desconfiança que se fosses minha prof, só lá tinhas ficado o primeiro trimestre... mas isso são coisas cá minhas.
      Havia profs muito valentes. Os outros estão todos internados.
      Naquela altura não havia Ritalina.

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  4. ahahahahahahahahah Que maravilha! Eu tive uma professora de cálculo financeiro, mo 11ºano, era do norte, ficou conhecida pela Cilinha, por causa da maneira como dizia "Cê linha".
    Mas era uma excelente professora, sempre tive excelentes professores a matemática.

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    1. Quem me dera... sou uma grande nódoa verde a matemática. Cheia de musgo.
      Da única vez que tive um prof de jeito na disciplina, caí de amores. E ele decaíu-me a nota.

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  5. Eu com as hipotenusas e catetos entendia-me bem. O meu problema era mais com a Hitler de saias que lecionava inglês e o "smigol" de geografia (ainda hoje tenho pesadelos com aquelas orelhas de dumbo) :)

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    1. Também andaste no Colégio Moderno, tá visto...

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    2. Bolas fui apanhada … frequentei telepaticamente :D

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  6. Um dia em siracusa, disse Pitágoras a seus netos...


    Pois, eu andei num colégio até o 9.o ano, o quadro docente era mais estável...

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    1. A minha pequena (que não anda no colégio porque a mãe nunca foi boa a matemática) anda na 3ª classe e já teve quatro professores.

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    2. Por acaso não me posso queixar da professora de matemática, uma autêntica "generala", má como as cobras, mas andávamos todos certinhos.
      Também tive aves raras como prpfessores - há-as em todo o lado, simplesmente eram aves raras que se mantinham ano após ano em vez de mudarem todos os anos.

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    3. Como vês (e é tudo verdadeiro) tive muito azar. Estava escrito nas estrelas que eu havia de seguir o caminho das letras.
      Eu e os outros todos.

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  7. Os professores tem as costas largas...

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    1. E os alunos também.
      Depois vem o Ministério que também tem, a seguir o Crato, a seguir a DREL, a seguir ...... tudo tem culpas no cartório.
      Se os meninos são mal educados a culpa é dos pais, se os meninos não aprendem, a culpa é dos professores.
      A culpa não morre solteira.

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  8. Só me recordo da minha professora da quarta classe.
    Indelével e belíssima jovem senhora de 28 anos por quem me apaixonei assolapadamente. Tinha eu então nove anos, mas amei-a doida e desenfreadamente como se tivesse vinte ou trinta.
    Tanto que ainda hoje a trago no coração.

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    1. Que coisa engraçada essas de nos apaixonarmos por professores. Também tive as minhas quedas.

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  9. Sem grandes complicações matemáticas,se me permite gostaria muito de divulgar um blog diferente, novo chegado à Blogosfera, o Desabafa Aqui (http://desabafaiaqui.blogspot.pt/), bons desabafos!

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    1. És o novo correio sentimental da bloga? Vou ver isso.
      É capaz de ser uma grande ideia. Os psicólogos é que se calhar não vão gostar muito disso.

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  10. E o Pi, senhores, o Pi...
    (o que eu me ri com isto carecia duma tenalaide, ahahahahaha)

    Eu perdi a Matemática (ou ela é que me perdeu a mim, parece-me) no 7º ano. Vinha do Ciclo Preparatório com 20 (simmm, vintes) mas depois a pessoa que me apareceu pela frente no Liceu tinha mais ou menos uns 324 anos, estava completamente senil (mesmo) e só no fim de cada aula percebia que se tinha enganado no Livro de Ponto e que pensava que eramos do 11º, do 8º, do 10º e assim ia variando.
    E perdeu-se ali um grande potencial da lógica :( (que sou eu)!

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    1. Hahahahahaha
      Os professores de matemática pá. Esses grandes malandros.
      Não meti a do 12º porque ainda tenho muita vontade de a esganar....

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  11. Eu lembro-me da minha professora no 10º ano de Matemática A nos falar da sua vida pessoal. A matéria? Que é isso?

    Quem quisesse aprender que fosse pagar explicações. Eu assim o fiz, assim como os restantes vinte e muitos alunos daquela sala. Excepto 1, cujos pais achavam que era culpa dele. (De quem mais?! Dos professores é que nunca é!)
    Acabei o 12º com um 15 ... que me soube a 20 tendo em conta o que penei [trabalhei para poder pagar as explicações] e o tempo que me sobrava para ir às ditas e ainda estudar era muito pouco.

    No final do 10º a turma juntou-se em peso, fizemos um abaixo assinado, a pedir encarecidamente que nos fosse alterada a professora de matemática. Professora essa que era [re]conhecida por todos como "a pior professora de matemática do secundário".


    Chegamos ao 11º, professora diferente (sim o abaixo assinado resultou em alguma coisa: passamos a ter a senhora que era [re]conhecida como a 2ª pior professora daquela escola) - a primeira era a outra.

    As aulas dela eram espetaculares, sem dúvida: A ler o livro de matemática. Lia. E a aula estava dada.

    Quem quisesse melhor que pagasse as explicações... ainda tinha a lata de dizer que haveríamos de apanhar bons e maus profissionais em todas as áreas (sim a senhora reconhecia que dava as aulas de forma péssima).

    No 12º tivemos um professor 5 estrelas, daqueles que nos veio ajudar a todos mas que não fez milagres. Nem todos (eu incluída) podíamos pagar explicações de forma contínua e, apesar de a minha explicadora ser espetacular, não tinha dinheiro suficiente para andar lá 2/3 dias por semana para que ela me conseguisse dar a matéria toda.
    O professor do 12º era excelente, sabia o que fazia, sabia o que dava e sabia ensinar... mas depois de 2 anos sem perceber metade? Não há milagres..


    Mas pelo amor de Deus... não culpemos nunca os professores porque nessa vertente profissional é proibido apontar o dedo e dizer: "ou és competente ou rua". Afinal eles só estão a ensinar a futura geração... não é nada de importante.
    E deixo a devida ressalva para todos os que realmente sabem o que fazem, os que dão a camisola pelos seus alunos. Eles existem sim mas o outro tipo também existe, aqueles que desde que tenham o ordenado os alunos se lixem com f.
    Por isso é que eu sou contra a forma como a colocação dos professores é feita, fosse o concurso por competência iam muitos dos que estão fixos para a rua [como o exemplo da professora do 10º e do 11º...elas sabem que não interessa o que façam ou não porque jamais serão despedidas, o salário e colocação delas é mais do que garantido].

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    1. Uma possível amante da Matemática subcreve, na íntegra, este comentário.
      Acabei a tirar Direito, "pour cause" :(

      (não que deteste, não que gostasse de seguir os passos do Avô materno, mas queria outras coisas, talvez o percurso do Avô paterno, médico...nunca saberei, pela incompetêcia duma professora de Matemática e isso, meuzamores, é um facto incortonável.

      Mais de resto, mãe de 3, percebo que o problema persiste...tenho no meio deles um amante da disciplina mas que luta, todos os dias, para aprender quase sózinho. Tenho esperança, dough...

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    2. Though, sorry, sorry...shame on me, que por acaso até domino a língua de Sua Magestade :/

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    3. Anónimo, muito obrigada pelo seu testemunho. Na realidade também eu não fui enfermeira por más notas a matemática. Sinto mesmo que foi este azar de ter, quase sempre, maus professores, que me impediu (em certa parte) de avançar para o curso que eu sempre quis. Mas também tenho culpas no cartório ao não ter os neurónios suficientes para me safar sozinha. Além disso a minha mãe (à época) não me podia pagar explicações, o que só veio a acontecer já na faculdade onde também tive matemática para as ciências sociais, coisinha mais leve, mas ainda assim dificil para quem não teve bases nenhumas.

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    4. Dinada, pois exatamente como escreves. Parece uma brincadeira o meu post, mas está ali o motivo de não ter conseguido avançar para algo que realmente gostava. Agora é explicações para cima dos miúdos, é mais essa despesa, mas é a única coisa que podemos ter certa é que pelo menos aquilo ajuda.

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    5. Eu acabei na área que queria mas não da forma como queria. A minha média de secundário foi 16 e por 2 décimas não entrei na UPorto. Entrei em Coimbra... só que eu não tinha dinheiro para ir viver e estudar em Coimbra.
      Por isso, todo o meu percurso de vida foi alterado: tive que prescindir de entrar logo na Uni, acabei a estudar numa privada de noite enquanto trabalhava de dia...

      Se tivesse melhor nota a matemática provavelmente teria conseguido entrar na UP e tudo teria sido diferente - até porque a minha média era 16 precisamente porque matemática me estragava a média.

      Não vale a pena matutar muito sobre o assunto mas acho que, enquanto sociedade, temos o dever de refletir sobre estas questões e perceber que, se há casos em que os alunos são os maiores culpados pelo seu insucessos, noutros casos a culpa será na grande maioria do professor.

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  12. Fiquei a pensar nos meus professores e em como não conseguiria descrevê-los com tantos pormenores...

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