6 de novembro de 2014

Dentes de leite em pão duro.

Gosto sempre de voltar aos lugares comuns.
Gosto sobretudo de ouvir falar os mais velhos sobre as coisas pelas quais ainda não passámos e que por isso desacreditamos. 
As histórias mais pungentes, as que olhamos de lado com um sentimento de incredulidade, quase que desmentindo as palavras daquele ser imenso, com tantos anos de experiência, são as que o destino nos serve irónicamente, como se nos quisesse ensinar que antes de nós, outros houve, e que em nada somos diferentes.
Deixa-me ensinar-te a viver.
A impossibilidade do agora é a certeza do amanhã, dizia-me ela num fio de voz. Deixa que te passem os anos por cima, a vida por cima, tudo por cima, para perceberes o que te digo.
É um verdadeiro lugar comum, quando nos encontramos com uma vida já vivida.
Escuta, dizia-me ela ajeitando com as mãos muito alvas a saia nos joelhos: as brigas entre mães e filhos adultos não são como as brigas e os gritos, e depois os beijos aflitos, e abraços de mãe em filhos crianças.
Não são brincadeiras. E não há esperanças. 
Essas brigas medonhas entre mães e filhos adultos, cravejadas de punhais antigos, enferrujados no pardacento dos dias, atingem-nos com a força de uma bala, de uma seta atirada, de uma palavra dita, e como tal, não voltam atrás.
E ferem, dizia-me ela, porque a mãe perde-se naquele encantamento da meninice, e julga, no seu imenso amor de mãe, que o seu menino volta, os beijos voltam e um abraço tudo apazigua, e acaba-se o castigo. 
Mas não. Há horas em que o filho se revolta, e volta virado do avesso. É a outra face do filho travesso, tantas vezes repreendido.
A briga é tão forte e tão imensa que faz soltar a dura e purulenta crosta do amor, que prende um filho à mãe. E na discussão medonha, atiram-se as pedras, as palavras, e as setas, e o filho solta-se do respeito que o aperta, e esquece o medo que já perdeu. 
A mãe já não é o porto de abrigo, é apenas um indivíduo, um inimigo, a mãe torna-se subitamente castradora e inquisidora, e já não é o ninho, é uma senhora. 
Qualquer.
As mães também erram, dizia-me ela com o olhar perdido na saia, ou quem sabe, na vida. Eu também não acreditava, mas agora sei: os erros não se apagam, e por isso te digo, todo o amor do mundo não chega para abraçar um filho.
Porque os filhos crescem.
E nada é para sempre.

8 comentários:

  1. Respostas
    1. Ando a perder o jeito. Quanto mais tempo passo a trabalhar menos capacidade para esta coisa de escrever.
      Para se escrever é preciso viver, e acho que ando mesmo a precisar disso.
      De viver.

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  2. Respostas
    1. Onde vocês aprendem a fazer isso é que é um grande mistério. (º.º)

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    2. Tiraste o curso onde? No Arrumadinho?

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  3. Mais uma vez fiquei sem palavras. Não como filha mas como mãe... (Não sei se me faço entender )

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    1. ;)
      Uma história verdadeira, cá das minhas.
      Às vezes os filhos têm razão. E isso dói muito às mães.

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