6 de maio de 2015

Qualquer dia faço um blogue


Numa dessas entrevistas, perguntaram-lhe porque escolheu não ser uma figura pública.
“Talvez por qualquer desejo neurótico de intangibilidade”, respondeu. E ainda que o anonimato lhe permite maior liberdade, livra-a de qualquer espécie de auto-censura. “Escrever sabendo que não vou aparecer produz um espaço de absoluta liberdade criativa.” Talvez esteja aí a génese de uma escrita tão limpa quanto furiosa, “brutalmente honesta”, quase sempre sobre mulheres em situações limite, desapontadas, marcadas por um passado de que não se conseguem livrar, a viver momentos de paixão ou abandono; uma escrita capaz de descrever o asco que tantas vezes faz calar quem o sente e baseada numa premissa: a de que se a realidade permite a mentira, a escrita não.


Na verdade hoje é isto que sinto. 
Neste trecho de prosa que fui encontrar nas deambulações internáuticas à procura de Elena Ferrante, tive um momento patológico muito comum nos leitores: a 'leitura identificatória'.
Não é segredo para ninguém que não há pior inimigo da Liberdade do que o escravo feliz.
E eu estou feliz aqui no Uva, que estou, mas a linha estreita-se e não posso negar, que por vezes me sinto uma escrava feliz, porque de certa forma perdi uma boa parte da liberdade para escrever o que gosto de escrever, e talvez me tenha transformado num bagaço mal amanhado porque me escuso muitas vezes de fazer certos malabarismos com as palavras por causa da chamada responsabilidade moral, mormente a que se encontra prevista no Código do Trabalho, da Família e dos Amigos.
Confesso que gostava mais de mim quando podia ser mais eu, isto é, quando podia ser totalmente sincera na escrita, sem impor limites à minha criatividade, opinar sem mais, sem barreiras psicológicas, sem aquele espelho dos outros que sistematicamente me perguntam: aquilo hoje era para mim?
Não, não era. Era para mim, posso? 
Não posso, porque ninguém está imune à leitura identificatória. 

E tudo isto me inquieta.
E sou bem capaz de começar isto tudo de novo.

17 comentários:

  1. O espelho que são os outros pode ser também uma janela se lhe retirarmos o nitrato de prata :)

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    1. Eu escrevo sob um pseudónimo. Há tempos publiquei um post sobre esta questão. Se estiver interessada, pode ler aqui:
      http://notasdecha.blogspot.pt/2015/04/miss-smile.html

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  2. A ver se eu percebi bem: a Uva Passa está a defender o anonimato? É isso?

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    1. Estou a dizer que anonimamente se consegue a absoluta liberdade criativa.
      Ser criativo não é ser malcriado e rude com e para os outros, é poder escrever o que sentimos em nós próprios sob a influência dos outros sem sermos identificados socialmente e particularmente com isso.
      Não sei se me faço entender.
      O anonimato vil é absolutamente execrável se quer a minha opinião. Esse anonimato ao qual se refere na tentativa vã de me pregar uma rasteira, não obrigada!
      O que eu digo é escrever sobre nós, sobre o que sentimos, despir a alma, isso é que anonimamente é muito melhor.
      O Uva não é anónimo há long time ago, e não deixei de escrever tudo o que penso dos outros da mesma maneira, mas já não digo tudo o que penso de mim.
      É este anonimato que falo.
      Não o de andar nos blogs a incendiar caixas de comentários sob anonimato.

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  3. Uvinha, tu solta lá esse schhhhh que há em ti! (Mas se criares outro blog, avisas aqui a gente, avisas?)

    Compreendo muito bem o que dizes, muito bem, arrependo-me um bocado de não ter sido logo de início a Maga Patalógica, não achas que ficava gira? só que nunca pensei vir a ser lida por "tanta" gente, a sério que não. ("tanta" nem todos os dias atinge 3 dígitos, mas ainda assim...)

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    1. Soltarei sempre!!
      Talvez faça outra coisa, talvez acabe mesmo o raça do livro.
      Maga patológica era mais giro. O Blog Patológico. Hum?
      3 dígitos é muito bom Susana. Muito bom. Aliás tens aqui uma fã, como sabes.

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  4. Se eu tivesse um blogue não dizia a ninguém, calava-me bem caladinha, o blogue seria o meu espaço de liberdade para dizer tudo o que me apetecia, como me apetecia, como faço quando comento, da mesma forma que as pessoas próximas sabem que eu gosto e acompanho alguns blogues, mas não lhes digo quais, é um prazer meu, uma coisa minha e uma pessoa tem direito a ter as suas coisas sem ter que andar sempre a anunciá-las ao mundo que a rodeia, porque, lá está, mais tarde ou mais cedo isso vai acabar por limitar a nossa liberdade e ao limitar a liberdade rouba o gozo em igual proporção, ou pelo menos, eu penso assim. Tal como aquela coisa dos blogo-amiguinhos ou blogo-inimiguinhos, passado um tempo uma coisa que era um exercício de liberdade, (de liberdade de quem sabe viver com ela, ou seja, desta forma que tirei de uma resposta tua a um anónimo, "não é ser malcriado e rude com e para os outros, é poder escrever o que sentimos em nós próprios sob a influência dos outros sem sermos identificados socialmente e particularmente com isso.") passa a ser mais uma prisão cheia de limitações. Giro mesmo, acho que é ter um espaço onde somos nós sem amarras e pelo caminho encontrarmos outros que se identificam e passam a acompanhar-nos e nos seguem também desamarrados e livres, seguem-nos por gosto, para mim, esta é, a principal magia disto, mas eu não tenho blogue e portanto estou para aqui a dizer coisas sem conhecimento de causa, é o que eu penso vendo do lado de fora.
    Se este é um espaço para seres saudavelmente livre, se começares a limitar-te, vais deixando de gostar disto aos poucos, acho eu. Se perderes seguidores e visualizações, perdeste, o que é isso comparado com a liberdade de dizeres o que te apetece? sabes aquela música "It's my party and i'll cry if i want to, cry if i want to..." pois, é o TEU blogue Uva.

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    1. Querida Uva Passa,
      Andaria por aqui, embora tenha um blogue.
      Beijos,
      Outro Ente.

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    2. Querida Cláudia. Eu gostava muito de ver um blog teu.
      Tenho a certeza que ia ser assim mesmo em bom. Tens muita qualidade de escrita e tens uma cabeça muito boa. Boa mesmo.
      O blog é meu, mas já foi mais meu. Agora já é mais vosso que meu.
      Um dia faço um só meu e não digo a ninguém. Mas o Uva vai andando. Tenho muito orgulho neste bicho.

      Querido Ente.
      O senhor é um bálsamo, sabe?
      Um bálsamo.

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  5. Concordo Uva, com o tempo vão-nos identificando e descobrindo, uns dizem-no, outros não e acabou-se a liberdade criativa. Há muito que tive de mudar os temas, a escrita, as opiniões, nunca se sabe quem nos lê e quem nos conhece e como nos interpretam... Podes fazer outro blogue mas com o tempo vai sempre para ao mesmo. Bjs

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    1. Vai dar tudo ao mesmo. Right! Já me descobriram a careca, agora se fizer outro não conto a ninguém, nem às paredes confesso!

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  6. Talvez sem deixar este, começar outro e deixar-nos algumas pistas para podermos passar por lá, mesmo que seja sem sabermos quem é o seu autor...

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