6 de agosto de 2015

Depressão Vs. Ansiedade

 Na UpToLisbonKids de hoje.



Gostava de explicar isto bem.
Tentarei ser clara na minha pretensão.

A depressão é o excesso de passado. A ansiedade é o excesso de futuro. (Junia Bretas)
Na medida em que todos temos um passado e imaginamos um futuro, a diferença entre ser depressivo e ansioso reside no tempo que despendemos a pensar num ou noutro extremo.
Se pensamos muito no passado somos depressivos, se pensamos muito no futuro, somos ansiosos.
As pessoas tendem a acomodar-se num ou noutro extremo da vida.
Foi sempre assim.

Desengane-se aquele que pensa que o desequilibro é coisa moderna, que só agora é que as pessoas pendem, ora para um lado, ora para o outro - dependendo do estilo de vida e da fase da vida -, enquanto antigamente todos caminhavam a par, muito centrados e muito equilibrados, sem ansiedades ou depressões, sem stress, e sem analista.
Não é um problema das novas sociedades, não chega sequer a ser um problema sociológico. É uma fraqueza individual, antiquíssima.
A humanidade é naturalmente depressiva ou ansiosa, desde sempre.
Eu não sou depressiva porque me sobra tempo para depressões. Eu não sou depressiva porque não tenho nada para fazer. Eu sou depressiva porque já fiz.
E também não sou ansiosa porque sou insegura ou demasiado perfecionista, assoberbada, hiperativa. Eu sou ansiosa porque ainda vou fazer e não sei como fazê-lo.

Há almas mais propensas em acumular o lixo do passado, em revolver os restos nauseabundos deixados pelos outros, e por si próprios, e que teimam em retificar e curar mentalmente algo que já não podem alcançar.
Um bom exemplo para esta tendência, para esta dependência do passado, é bem visível nas pessoas que insistem em fotografar os momentos todos da vida. Mais tarde, inevitavelmente vão perceber que as fotografias que tiraram impediram-nas de certa forma de viver o momento, de saborear aquele prato, de sentir aquele beijo. Elas não querem beijar, elas querem é fotografar maravilhosamente o beijo. E vão lançar-se e colar-se ao passado fotográfico, substituindo memórias efetivas e reais por momentos-em-clic, e vão ficar terrivelmente deprimidas de os terem apenas na superficial retina e não na meninge. E ficarão ainda mais deprimidas porque terão sempre a pulsão de ir ver as fotografias que tiraram, imensas, no passado. E andam sistematicamente naquilo, depressivas, a perpetuar o que já aconteceu e que na realidade não aconteceu nada.
Entendam que há acontecimentos que devem ser esquecidos (para bem do presente) e há outros que não foram sequer acontecimentos.
Se fosse saudável ao ser humano registar e guardar para sempre todos os momentos da vida passada, a memória fotográfica não seria considerada um distúrbio mental, e todos a teríamos mais ou menos desenvolvida.
O mesmo para o passado. É saudável reviver passagens do passado. É depressivo passar a vida nesse estado.

Outros há que preferem descerrar o futuro, saber mais sobre o que aí vem. Não percebo claramente se é para se prepararem melhor, se para se acomodarem melhor.
E vão aos magotes consultar videntes, e bruxas, e fazem simpatias, e cosem a boca ao sapo, e desejam mal aos outros para bem deles próprios, e fazem promessas e pagam promessas, para no futuro, quem sabe - não acredito em bruxas mas... -, viverem então muito bem com isso, com a falsa consciência que andam aí a fazer pela vida.
Ah, afinal sempre vou comprar a casa nova. Está escrito nas cartas. Deixa-me enfim descansar que o que é meu às minhas mãos chegará.
Há de ser tarde que a casa chega.
Mas cedo virão as ansiedades porque para se ser remediadamente feliz no presente (não pedimos mais que isso) é necessário lembrar como é que fizemos no passado, e se insistirmos em castelos de cartas, ideias sem ação, vidência e expetativa celeste nada irá acontecer.
Nada se faz se não for efetivamente feito.
É um cliché, mas a verdade é que a felicidade não é uma nuvem no ar que apanhamos aos saltinhos. A felicidade é uma coisa que construímos desde o chão, de joelhos e dores nas costas.

Então quer dizer que os únicos culpados pelas nossas tristezas (ansiosas ou depressivas) são precisamente aquelas que não conseguiremos, jamais, controlar?
Do que nos serve ficar dias e dias a remoer no passado, ou dias e dias a conjeturar o futuro?
Não será então a cura para tantos estados de tristeza o enaltecimento do presente? Da simples avaliação do agora? O que tenho agora? O que faço agora? Quem sou eu neste momento? Como reconstruir-me para que as minhas memórias do passado [as que construo agora] não sejam de tal forma penosas que me levem, outra vez, para um estado de depressão?
Tudo o que fazemos agora fará parte do nosso passado. Convém fazer o melhor que podemos e sabemos para evitar arrependimentos e falsos positivos para doença mental.
É preciso construir muito bem o presente, que no futuro não será mais do que o passado, e é ao passado que vamos buscar todas as nossas motivações.

Lamento muito que a classe médica insista em embriagar o paciente depressivo e ansioso com drogas fortíssimas e entorpecentes.
A droga vai adormecê-lo e vai apagar-lhe o presente, que em última instância é a única coisa que tem de melhor para consegui desligar-se do que já passou (e que é mau e deprime) e do que ainda está para vir (que é possivelmente mau, o que me deixa ansioso), e ainda o que lhe dá a motivação para o futuro.
Que futuro então, para quem não tem senão uma ténue recordação do presente?
Que futuro para todos nós, eternamente e geneticamente depressivos e ansiosos?
Não estaremos todos a fraquejar? Não estaremos nós todos inundados de drogas que supostamente nos salvam do nosso passado e nos protegem do nosso futuro, imaginariamente?
É que eu já não consigo suportar mais o espetáculo da nossa fraqueza.

Porque eu consigo entender D. Quixote sem conhecer a história de Espanha, no caso o seu imenso passado, mas não conseguirei nunca entendê-lo se não lhe (re)conhecer as ideias e as motivações que o fazem agir perante mim, agora, e assim esgrimir com o futuro a lógica da Humanidade.
E a lógica é só uma.
Avançar.
Sem medo dos mortos e sem medo dos que ainda estão por nascer.
Carpe Diem.


Trabalho (extraordinário) de fotografia de José Ð Almeida.










21 comentários:

  1. Fantástico. Parabéns, grande artigo. Devia ser publicado para mais gente ter conhecimento dele e da tua magnífica capacidade de escrita e interpretação.

    Agora. Agora. AGORA é que é. (e deve ser das coisas mais difíceis de se conseguir atingir na vida)

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    1. Obrigada.
      Juro que escrevo tudo isto para me convencer a mim própria que tal como todos os outros ando ali ora num extremo, ora no outro, e que devo focar-me naquilo que tem importância agora.
      E agora importa escrever. escrever para ler o que escrevo e abanar a cabeça e dizer que sim, que já chega de tanto passado e de tanto futuro.
      Obrigada outra vez.
      E já está publicado ;)

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    2. Publicado naquele site, certo? Mas realmente, hoje em dia as pessoas devem ler mais em sites do que revistas. Por isso, missão cumprida.

      Concentrar no Agora (estou a dizê-lo também para me convencer).

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    3. Certo! Uptolisbonkids.
      Era melhor que fosse no Record ou n' A Bola, que teria milhões de leitores. ;))))

      Concentrar no agora: estou cheia de fome! Apetece-me uma bifana no pão. Vamos a isso!

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  2. Que texto fabuloso. Conheço bem, a ansiedade mais do que a depressão, por tê-la por perto, em alguém muito próximo e querido. As pessoas não vêem algo orgânico e palpável (mas quem o vive, é assim que o sente). É um braço partido na alma. E ninguém acha que deva levar gesso.

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    1. Olá Maria. Vamos ser outra vez coleguinhas de letras n'O que se Passa na Blogosfera. Ena!
      O texto, pois o texto sou eu ali esparramada.
      Não ando é sempre a tirar fotografias porque nem me lembro, mas de resto, lá está, pensamentos a vaguear por tempos idos e vindos.
      A ansiedade é perigosa a valer. É coisa para nos deixar absolutamente KO. Atenção!
      Eu sou das que deprime, mas agora ultimamente ando com ataques de pânico (ainda que ligeiros) vindos do nada. Sei que preciso relaxar. Não me vou entregar aos loucos dos prescritores.
      Ando numa de bicicleta e faz-me bem, faz-me mesmo bem.

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    2. O texto está fantástico Uva, parabéns mais uma vez, retrata muitos de nós. A mim também e acredita retratava-me tal e qual até começar a pedalar à séria há quatro anos atrás. Acredita, desde então mudei muito, mudou muito a minha vida, raramente deprimo, sou muito menos ansiosa. Simplesmente vivo e aproveito o momento. Não sei explicar e a maioria das pessoas não entende o que digo, mas cresci como pessoa desde que pedalo e sou muito mais feliz. (Até parece que estou a falar de uma seita religiosa eheheh) Beijocas Uva e boas pedaladas :)

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  3. Texto e fotografias de enorme qualidade.
    Parabéns, 'Uva'.

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    1. Muito obrigada.
      As fotografias são de um fotógrafo muito bom que conheci na última edição da Egoista.

      (Eu sou mesmo Uva. Aliás Uva Passa foi um nome que uma colega de trabalho me pôs quando eu lhe disse que 'parecendo que não tenho menos 10 anos que tu' e ela, muito zangada respondeu: és mais nova mas estás uma uva-passa.)

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  4. Texto incrível. Escreves muito bem e explicaste o que de facto é alguém depressivo. Acredito que viver a vida, dia a dia sem complicações e sem grandes ambições materiais ou de sucesso, e sem esperar rigorosamente nada dos outros nos põe num patamar de felicidade razoável... não é por acaso que dizem que só os parvos são felizes.

    Beijo Uvinha.

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    1. Obrigada AC. Realmente as pessoas muito racionais, mais cerebrais, sofrem muito com esta coisa de não conseguir desligar o pensamento. Sempre a perscrutar. É horrível.
      Ler faz bem, por exemplo.

      Abracinho. E férias? nada?

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  5. Uva, eu não acrescento nada ao que está dito, pois a narrativa está ao nível superlativo. E, também não consigo expressar-me, hoje, melhor do que isto.
    Parabéns pela objetividade.
    Beijinhos,
    Mia

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  6. O texto tem uma bela pedalada, talvez pedaleira 34 e carreto 12 ou mesmo 42:11.
    E o envelhecimento Uva Passa? A degradação estrutural e funcional da memória e da cognição associada ao envelhecimento enjaula os idosos (para não falar da Alzheimer) no presente, sacudindo a depressão e a ansiedade?
    Ah, e depois também há a questão da controvérsia na Física sobre a reversibilidade da seta do tempo.

    João L.

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    1. Olá João!!

      Não abordei o envelhecimento, a demência, o TOC, a doença mental fisiológica, como Alzheimer, o Parkinson e/ou a a esquizofrenia.
      O texto não aborda, por assim dizer a PSICOSE, as vivências bizarras, os delírios, as alucinações, ou as alterações da consciência do eu.
      A Psicose (aquilo que julgo que te referes), é a "perda de contato com a realidade", o que na depressão e na ansiedade não se verifica taxativamente, porque é precisamente o pensamento extremo sobre a realidade.
      O texto aborda (tenta vá) um primeiro estágio da NEUROSE que embora cause muita tensão no dia a dia da pessoa, não interfere com o pensamento racional ou com a capacidade funcional da pessoa.

      A depressão num estádio mais avançado (dedução minha) só se agrava porque medicada com anti-depressivos, coisa a que sou totalmente a desfavor e contra.
      A depressão (sem psicose associada) mórbida é consequência da medicação.
      Mas disso falarei noutro tópico.
      A ver se não me espalho.
      Abraço!!

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  7. Uva,
    estava a pensar sobretudo no envelhecimento "normal" saudável do cérebro porque me pareceu um bom teste à tua teoria.
    Abraço

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    1. Muito obrigada. Fui espreitar o teu blog e já vi que tens umas belas pernas!

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  8. "É um cliché, mas a verdade é que a felicidade não é uma nuvem no ar que apanhamos aos saltinhos. A felicidade é uma coisa que construímos desde o chão, de joelhos e dores nas costas."
    Fiquei com vontade de te deixar aqui uma coisa, acompanhada de um gosto de ti, Uva, que já há algum tempo não te digo. Aqui vai:
    "A arte de ser feliz"

    "Houve um tempo em que minha janela se abria
    sobre uma cidade que parecia ser feita de giz.
    Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.
    Era uma época de estiagem, de terra esfarelada,
    e o jardim parecia morto.
    Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde,
    e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas.
    Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse.
    E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.
    Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor.
    Outras vezes encontro nuvens espessas.
    Avisto crianças que vão para a escola.
    Pardais que pulam pelo muro.
    Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais.
    Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar.
    Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega.
    Ás vezes, um galo canta.
    Às vezes, um avião passa.
    Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino.
    E eu me sinto completamente feliz.
    Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas,
    que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem,
    outros que só existem diante das minhas janelas, e outros,
    finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim."
    Cecília Meireles

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    1. Muito obrigada por esta maravilhosa partilha.
      Eu também gosto muito de ti, acho mesmo que gosto de ti desde sempre.
      Um abraço de gigante para ti, meu, igual a todas as amizades que vens semeando na blogosfera, qual pobrezinho de dedos magros, aspergindo bondade, simpatia e acima de tudo uma clarividência e alcance intelectual como poucos, para que os nosso jardins nunca morram.
      Abraços querida Cláudia Filipa.

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    2. Oh! Uva, nem sei o que te diga...olha, um abraço de gigante também para ti, daqueles que surgem mesmo da vontade de abraçar.
      (Eu também gostei logo de ti, aos primeiros comentários teus que li nos blogs que comecei a ler. Pensei, esta pessoa, embora se apresente indecentemente desnuda ;), é de valor, ai é, é).
      Que o período de férias seja excelente.

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