4 de agosto de 2015

Quotidiano

Acordo. 
Doem-me os olhos e penso que se calhar ontem vi muito com eles.
As lentes que me libertam o rosto das próteses inclementes de massa preta, são invenções únicas, mas desconfortam-me.
Sinto os olhos.
Não é suposto sentirmos o corpo, não é suposto termos a cada minuto a consciência presente de que temos olhos, e pestanas, e braços, e duas pernas, o fígado, e o estômago.
O nosso corpo deve ser apenas perceptível aos outros.
São os outros que devem sentir os nossos olhos, a forma das nossas pernas, o toque da nossa pele.
É uma sensação muito estranha sentir a toda a hora que tenho uns olhos.
Ai mas que vem a ser isto? Ah sim, são os meus olhos.
Costumo pensar que tive muita sorte por nascer depois da descoberta da miopia (e respetiva correção), e de como seria desgostoso se fosse obrigada a caminhar pela vida, durante os anos que me estariam reservados, sem saber onde punha os pés, sem reconhecer a vizinhança, sem memórias nítidas do quotidiano.
Seria terrível se de manhã me levantasse com a mesma dor nos olhos, mas de ver pouco com eles.
E tudo o que vejo com os meus olhos é muito pouco se pensar que há artistas que me fazem ver com as mãos.
E que extraordinária visão esta.
Só falto ali eu, a meter as lentes.
Nos olhos.











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