14 de setembro de 2015

Da praxe

Legenda: Aluna Caloira - 'Jaula T2' 

Em 1996, entrei para a faculdade com um enorme nó no estômago.
Em 2001, sai da faculdade com montes de nós na cabeça.
Nunca me tinha debruçado à séria sobre a minha praxe, e de que forma (ou porquê), terá sido apreendida por outras colegas, cheias de sonhos sobre o Espírito Académico, como a 'verdadeira e única aproximação à Instituição e integração no meio escolar superior'.
A minha praxe foi o pináculo da Lei de Murphy, aplicada à minha vida académica.
Fui, naturalmente, apanhada de surpresa. 
Estava tão longe da praxe quanto da PGA, e lutei mais conta a PGA, que não cheguei a fazer, do que contra a praxe contra a qual ninguém lutou, pelo menos da forma como o fizemos em relação à PGA, no infernal fevereiro de 1992.  
Para mim, o início de um novo ciclo académico seria tudo menos ser surpreendida e engolfada por uma caterva de veteranas em praxes, justo no dia da minha melhor roupa, que gesticulavam patranhices, alardeando e gritando ordens militares esganiçadas, enquanto nos alinhavam toscamente, umas ao lado das outras, em frente ao enorme edifício da Universidade.
Achei aquilo engraçado. 
Um paradoxo entre o rigor militar, frio e calculista, e o Serviço Social, quente e sensível.
Julgava que era uma Universidade. Mas era a guerra.
O ritmo das raparigas era frenético; muito idêntico a um estúdio de pintor que prepara e ultima a grande exposição. A parafernália de tintas, pincéis, batons, instrumentos rurais, cordas, latas, cartolinas, marcadores e outros materiais, era tanta, que julgava que tinha ido parar a Arquitetura. 
Mas sim, arquitetas na arte da humilhação.
Recordo com alegria uma colega, certamente mais madura que eu, e mais esperta, que deu um passo decidido em frente, ficando totalmente exposta na frente da tosca fileira: recusava-se a ser praxada por ser contra produtos testados em animais!
Atarantou a cambada que se entre-olhava perplexa, e questionou sem complacências  as mais velhas sobre a proveniência dos produtos.  
Declarou-se anti-praxe e saiu do alinhamento.
Foi uma risada.
E que elegância. E que tresmalho!
E que preço pagámos todas por isso e ela, que preço terá pagado?

- Vê lá como te comportas. É preciso integrares-te de forma positiva na Universidade, e que de início tudo te corra bem. É um grande passo. A ver se o levas a direito...
- Sim. Vai correr bem.
- ... para teres o apoio dos colegas mais experientes que te podem ajudar com as bibliografias e com os trabalhos das cadeiras mais difíceis. Não empines logo o nariz.
- Sim. Não te preocupes.
- Boa sorte! E não te esqueças: pé direito!
- Obrigada, mãe.

Lembro-me de dizer que participaria na praxe, desde que não me despejassem uma merda nojenta que tinham em mente para o meu cabelo, e não me obrigassem a colocar os slips e o soutien por cima da roupa exterior. Fui imediatamente acusada de não cumprir com as regras e recebi, já não me lembro onde, uma notificação para comparecer no Tribunal de Praxe.
Não compareci e não voltei à universidade senão passadas duas semanas. 14 anos depois, jaz na minha memória a praxe, como a coisa mais humilhante a que fui submetida, depois de andar aos tombos sobre a decisão de me atribuírem ou não uma madrinha. 

- Este é o cartão de acesso à piscina. São 500 escudos. Amanhã pagas o cartão da biblioteca.
- Ó caloira! Paga aqui a minha ginja!
- Vá, caloira, eu sei que tens cigarros. Toma lá um e passa para cá o maço!

Sim.
Aquilo que ali vedes sou eu.
Aquilo que ali vedes, sou eu, com orelhas de burro, com um penico na mão, com um badalo de bovino ao pescoço, atada com uma corda pela cintura a outras tantas colegas, minutos antes da partida para o Rossio - chocalhando latas vazias atadas aos tornozelos - onde fiz peditórios de penico em riste aos transeuntes, e onde, algumas horas depois, me vi obrigada a descalçar os sapatos, e a encontrá-los de olhos vendados no meio dum monte imenso de outros sapatos, apenas pelo cheiro.
É.
Aquilo que ali vedes, sou eu.
Depois de totalmente descaracterizada, depois de completamente besuntada com uma mistela de borras de café e vinagre, tal e qual como estava quando tudo acabou, tal e qual como estava quando me encontrei sozinha no metro, rodeada de olhos furtivos e ligeiramente cínicos, que sorriam perante a perplexidade do meu próprio olhar, tentando segurar-me em cima da imensa vergonha.
Eu própria teria tido pena de mim se me visse em tal figura.

Não te sentes absolutamente ridícula? E deixaste que isso te acontecesse porquê?

Porque a ignorância tem um preço.
Em 1996 eu era uma ignorante em praxes (e em muitas coisas) e ignorava que fazer um curso superior é o mesmo que ter um emprego.
Estamos lá para trabalhar, e não para fazer amigos. Esta é a dura realidade.
Espero que sirva de exemplo aos muitos que planeiam andar de joelhos pela calçada, açoitados por uma cambada de frustrados educacionais que julgam que um ano de avanço num universidade lhes dá o direito à tirania pidesca.

Acho que quem hoje vai para a praxe, já sabe para o que vai.
Espero que no reacender da temática, tenham isso em consideração.


15 comentários:

  1. Também não tinha muito noção para o que ia. Só sei que depois de uma hora a achar aquilo tudo demasiado ridículo, encontrei uma brecha numa fila e escapuli-me (combinei com uma rapariga que lá estava e que também queria sair o momento de sairmos sem dar demasiado nas vistas mas na hora da verdade, já estava eu a marchar, olho para trás e ela encolheu-se, ficou lá e eu desertei sozinha). Apareci lá vários dias depois para as aulas propriamente ditas. Foi impulsivo, uma coisa do momento, não pensei se teria consequências, se ficaria uma ovelha negra, se me traria dificuldades nisto ou aquilo. Só senti que era demasiado estúpido e que nunca tive jeito para a submissão, nem mesmo em contexto de brincadeira.

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    1. Eu achei tudo ridículo e estúpido, mas ainda mais ridícula e estúpida fui eu que me sujeitei aquilo uma tarde inteira. Só percebi o que me tinha acontecido no fim do episódio.
      É daquelas coisas que não dá para perceber...
      Grande tresmalho também o teu!
      Valente!
      As sabichonas é que sabem e o resto é cumbersa!! ;)

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  2. "Vê lá como te comportas. É preciso integrares-te de forma positiva na Universidade, e que de início tudo te corra bem. É um grande passo. A ver se o levas a direito..."

    Ah, a ingenuidade das mães...

    (não comento as praxes, tudo o que poderia dizer desvia a atenção do que acabei de ler... )

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    1. As praxes são um nojo se forem como a minha foi.
      Uma coisa sem jeiteira nenhuma, de má índole, para fazer sofrer, para espezinhar.
      Figuei com aziaa uma série de colegas daquele ano por causa desse episódio. Há algumas que nem as posso ver. Durante 5 anos a convivência com 'as tipas' do 2º ano tornou-se insuportável.
      Uma estupidez do tamanho dum palácio.

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  3. Não frequentei universidades (a não ser as festas académicas onde fui tocar, mas acho que isso não conta), mas acho que não me integraria de forma positiva...

    ...é que eu tenho um feitio do caraças, e assim como não gosto de humilhar ninguém, também não gosto de ser humilhado, nem que seja numa "brincadeira"...

    :)

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    1. Feitio do caraças também tenho, mas depois sou um bola de sebo para outras coisas... No caso fui contra as praticas instituídas durante anos naquela escola e apanhei logo com a sanção da madrinha e do tribunal de praxe (outra coisa ridícula muito em voga nas universidades).

      Só arranjei problemas...

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  4. nem de propósito ainda hoje li isto: http://www.huffingtonpost.com/entry/fraternity-hazing-michael-deng-murder-charges_55f76df8e4b09ecde1d988f6?ncid=fcbklnkushpmg00000063

    por cá, "murder charges" não se aplicam em caso de praxes.

    um excelente texto, Uva. Resta-me a consolação de que esses pequeninos estercos de capa e batina também são praxados mas é quando vêm cá para fora, para o mundo do trabalho. porque muitos deles, o melhor que conseguem é viverem à custa dos pais. quem é que tem orelhas de burro agora?

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    1. Vi coisas do demónio na minha praxe.
      Gajas pah! Imagina o que é teres um monte de gajas com o 'poder' de fazer o que quiserem a outro monte de gajas?

      Foi o pânico.
      Um horror.

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  5. Eu nao tive praxes, tirei o meu curso num instituto particular, a fina (ou não ). Ja MaisVelho declarou-se anti praxes e MaiNovo, a ver vamos, comeca na semana que vem:) pessoalmente acho graca a algumas coisas, mas acho que muitas coisas não tem nada a ver com brincadeiras e isso assusta-me. Ha coisas completamente estúpidas. ..

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    1. O Serviço Social era um curso particular que se tirava (à época) no Instituto Superior de Serviço Social. Pagava 45 contos por mês para frequentar a escola. Finess ao mais alto nível. Eu devia ser das poucas que tinha estatuto de trabalhador-estudante porque trabalhei durante os 5 anos do curso.
      É tudo igual. Particulares ou privadas.
      E tudo permanece exatamente na mesma, mesmo depois do que aconteceu no Meco.

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  6. Cá por motivos que não interessa nada agora explicar entrei duas vezes na faculdade:
    - A primeira, em 85 (ok, ok, sim, sou vá, velhota), em que me declarei anti-praxe, num encontro debate os pró e os anti. Depois de ouvir ambos os lados, optei pelos anti. Nunca fui posta de lado. A única coisa que me aconteceu foi eu ter aparecido no cortejo vestida com a roupa de caloira e de me proibirem de participar. Fiz oralhas moucas, mandei-os dar uma curva, subi para o carro e diverti-me como os outros. Não sei se estes debates ainda se fazem no início do ano letivo para esclarecer os novos alunos, julgo que não. E é pena.
    - A segunda, em 97 já mais crescida, nem sequer dei hipótese a ninguém. Olhar 34 a quem se aproximava com o intuito de praxar. Também era mais velha, já com calo, já com alguns anos de experiência no mercado do trabalho, enfim, já não me deixava comer de cebolada.
    Dulce / Porto

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    1. Ahh nem me lembrava dessa bizarria do traje. Quem era anti-praxe não podia trajar. Ohhh que pena eu tive de não ter a fatiota toda commme il faut.... ainda sonho com isso.
      Hahahahahahah
      Pedi um saia-casaco preto emprestado, calcei uns sapatos da minha mãe, muita saloios até, uma gravata preta dos funerais, do meu pai, e fui benzer as fitas.
      Ficaram foi mal benzidas. O meu primeiro emprego foi uma valente bosta! E não tem melhorado muito.

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    2. Mas eu nunca tive o traje. Nunca quis.
      A roupa que falo ali em cima era umas calças de palhaço e uma t-shirt. E tínhamos também de levar colado ao rabo um daqueles autocolantes amarelos com o número 90 em preto (que se colavam nos carros dos condutores que tinham carta há menos de um ano).
      De qualquer das formas, eu, sendo anti-praxe, não tinha direito a vestir essa roupinha nem a participar em atividades da queima.
      Dulce/Porto

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  7. " a verdadeira e única aproximação à Instituição e integração no meio escolar superior"
    Mas como é que os miúdos de hoje em dia ainda caem nesta esparrela? Enfim...
    Eu não fui praxada e ainda bem! E depois acho graça àquela malta que diz que adorou ser praxada, como se ser humilhada fosse uma coisa maravilhosa.

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    1. Quem nasceu para lagartixa nunca chega a jacaré.


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