3 de novembro de 2015

Da passagem do tempo e outros calendários

Não gosto que tratem os velhotes como se fossem crianças.
Detesto. É uma coisa que me causa a mais profunda náusea.
Ao longo da minha vida profissional tive inúmeras oportunidades de ver como são tratados os velhotes e de como é apanágio dos cuidadores, sejam familiares ou profissionais, elevarem, ou neste caso, rebaixarem, um ancião à sua condição primária, imberbe, de criança.
O velho, assim o trato porque não sou hipócrita e nem cínica, é um ser humano repleto de experiências e sabedoria, mesmo aquele que por qualquer desígnio forreta ficou sem a memória desses tantos de dias que constituem a sua longa vida. É pérfido e injusto obrigar o irmão mais velho a tomar conta dos mais pequenos, dando-lhe responsabilidades de adulto que não é, pesando-lhe nas costas uma experiência que é obrigado a inventar, envelhecendo-o. Mais ridículo será tratar um ser humano que carrega nas costas todos os anos da sua vida e fazer-lhe aviõezinhos para o fazer engolir a sopa.
Muitos dos profissionais que trabalham com velhotes adotam uma postura paternalista e de falsa condescendência que me incomoda, porque tomam a ingenuidade de quem se sente desprotegido pela idade, a carência de quem não se pode bastar sozinho, com a necessidade infantil que vimos nos filhos pequenos.
É falso e feio. É desrespeitoso e ridículo, e por isso é que de vez em quando vemos situações que nos parecem surreais, como esta, em que senhoras muito idosas se prestam 'de livre vontade' a certas 'atividades' que apesar de estarem fora da sua realidade pessoal, da sua conduta, fazem parte do Plano de Ação da instituição para aquele ano, mas que, tenho a certeza, muitas delas nem em novas as faziam.
Mas está tudo muito bem descrito nas diversas e modernas 'práticas interventivas para a 3ª idade'. O velhinho é agora uma criança que precisa muito de brincar.
Vamos então brincar aos calendários, porque 'a sensualidade não tem idade'.
E venham a nós as criancinhas.

20 comentários:

  1. Épá!!! Épá!!!! porque raio não há aqui aquele gadget de 2 mãozinhas a bater palmas?

    Considera-te soberbamente palmada Uvinha

    E mais não dirás, por não saberes ler nem escrever

    :=))

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Thanks miúda. Não vale a pena grandes aplausos que aqui a menina é pessoa muito humilde.
      ;)

      Eliminar
  2. Pois amodos que achei essa história do calendário surreal!

    Sobretudo porque a sensualidade não tem idade, mas têm princípios!

    Por exemplo, há quem ache a Niki Minage sensual...
    ...já eu não! O facto de parecer uma P... meretriz não a torna sensual!

    E se eu já acho calendários com bombeiros, ou até mesmo com gajas tipo os da Playboy, ridículos, o que não dizer dessa brilhante ideia...

    :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. É surreal na medida em que é demasiado possidónia, casca grossa, rural.
      Tanta coisa para fazer com aquelas senhoras, tanta coisa engraçada que poderiam fazer, com classe, uma coisa gira, mas não. Quiseram abardinar e ser contemporâneos, modernos, e depois saíram aquelas fotografias onde se percebe a léguas que estavam todas super tensas e desconfortáveis. Aquele não é o seu registo. Deixaram-se levar numa onda parva quando poderiam divertir-se aos molhos se tivessem escolhido outro mote.
      Coelhinhas da Playboy a mostrar o cuecame... desculpem mas não.

      Eliminar
  3. Feia é esta argumentação, Uva.
    Temos direito a interpretar aquelas imagens como entendermos (pessoalmente, por exemplo, não retiro delas que "a sensualidade não tem idade", muito pelo contrário, e também por isso mesmo as achei interessantes), gostar ou não gostar, comprar ou não comprar, mas vir dizer que aquelas pessoas não fizeram aquilo de livre vontade, que estão gagás, coitadinhas foram "obrigadas", isso sim, é diminui-las em razão e integridade, é roubar-lhes a decisão que tomaram e pretender julgar sobre as suas intenções. O que temos, convém não esquecer, não são acções, não são modos de vida, é um conjunto de imagens.

    Lady Kina

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Eu também as achei interessantes, por isso comentei sobre elas.
      Não está escrito em lado algum que eu considero aquelas senhoras do calendário destituídas da sua razão, da sua integridade e da sua capacidade de decisão, talvez ler novamente o post te dissipe as dúvidas. O que digo é que a idade associada a um certo método de intervenção, e a um certo infantilizamento da comunidade utente, leva a que sejam levadas a cabo atividades que nada contribuem para o bem estar dessa mesma comunidade. Apenas as ridiculariza.
      Além disso discordo quando dizes que o que temos são apenas imagens. Isso era verdade se o alvo das fotografias fossem simples objectos, o que de todo não o são. Para serem fotografadas, aquelas senhoras agiram em conformidade e a ação delas foi transformarem-se em coelhinhas da playboy, quando fotografias delas transformadas em outras coisas como, por exemplo figuras de Estado, cantoras famosas e até legumes, teria produzido o mesmo efeito. Mas não. Tinham mesmo de ser velhinhas de 90 anos a levantarem a saia como colegiais.
      Se a minha avó de 80 anos se pusesse naqueles preparos, e moderna que ela é caramba!, eu ia achar que sim, que estava gaga. E depois iria perguntar à técnica que teve a ideia, o que achava ela de todas as valência participarem na brincadeira mas num género de quadro nu, tipo artístico. A Psicóloga com o rabo à mostra, a enfermeira com a mama de fora e por aí em diante até ao Diretor a fazer de Eros em cima de um pedestal com o seu pénis minúsculo. Mas isso não fazem eles. Era o faziam!
      Mas foi tudo muito divertido e a receita será abismal...

      Eliminar
    2. Tão bem, mas tão bem respondido!!!

      Eliminar
  4. Para além das considerações de natureza moral e ética, o que me faz aflição é que isto é estúpido. Acho que é muito visível que este tipo de infantilização puxa para trás, para o lado do défice cognitivo, e não para a frente. É uma falta de respeito. A fala coerente, a interacção e a discussão, puxam pela organização das ideias. Infantilizar faz o contrário. Puxa para o lado da demência. Só porque alguém tem dificuldade em se mover, em ouvir e até em se expressar (devido a perda de certo tipo de memória) não quer dizer que seja estúpido.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Mas há quem ache que não, que foi tudo ideia delas e que se divertiram imenso.
      São os chamados Charlies dos calendários, desde que não seja a avó deles a aparecer com as cuecas à mostra ou a sodomizar o cantoneiro de limpeza, meia despida em cima de uma cama....
      Não havia lá um psicólogo mais jeitoso? Ou um ciclista?

      Eliminar
  5. Podia ter sido eu a escrever isto (não com tanta qualidade, claro está, mas no básico).

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Tens muita qualidade e és o meu blog mais velhinho ali da lista.

      Eliminar
  6. Concordo contigo em quase tudo, excepto a partir do momento em que insinuas que as pessoas não o fizeram de livre arbítrio. É de muito mau gosto, poderiam ter feito algo muito mais bonito e que não expusesse as pessoas ao ridículo, como penso que foram expostas. No entanto, mostraram-se assim porque quiseram, porque se predispuseram a tal. Parecem-me, na sua maioria, pessoas bem capazes e pensantes. Se assim não foi, então será de lamentar que os familiares ou pessoas responsáveis por eles sejam tão pequeninos.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Vamos lá ver: eu não insinuo que elas não o fizeram de livre arbítrio, que fizeram, quiseram fazê-lo, mas foram foi levadas a fazê-lo daquela forma, com aqueles propósitos e daquela maneira porque é naquele meio que vivem e é com aquelas técnicas que aprenderam a articular. É como no emprego, exatamente igual. Tens o chefe que faz um plano de ação e é aquele plano que cumprem. Numa instituição há regras veladas, subtis, que estão dependentes do medo de não haver vagas ou serem convidados a sair por 'desenquadramento ou inadaptação' e se a regra é fazer todos os anos uma festa de Natal em que se mascaram todos os velhinhos e os põem a circular no bairro com um tambor, é isso mesmo que fazem. Os utentes não são obrigados a participar, mas acabam por fazê-lo até porque para se distrairem pouco mais têm al´me de jogos florais, malha, sueca ou dominó.

      Eliminar
    2. Suponho que te interpretei mal quando li de livre vontade entre aspas mas se foram levadas a fazê-lo, pelas técnicas ou pessoas responsáveis pela instituição, onde estão os familiares destas pessoas? Tu, melhor do que eu, sabes como funcionam estas instituições mas como neta e co-responsável de alguém que esteve num lar em que todas as actividades nos eram participadas antes de acontecerem, fico um bocado atónita com tudo isto.

      Eliminar
    3. Mas é exatamente assim que funciona. Concordo totalmente com a uva.

      Eliminar
  7. Há gente
    que sendo criança toda a vida
    em velho não será diferente

    E... Há novos, tão velhos, tão velhos

    (o "meu" projecto "Desenhando Sonhos" encalhou... mas não desistimos
    há muitos velhos sozinhos)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Que se desencalhe. Eu ajudo no que puder. Já disse.

      Eliminar
  8. Muito bem Uva, tens todo o meu acordo. Até acho que elas se divertiram imenso e se acham lindas e sexys para a idade e tudo e tudo, mas eu não gostava nada de ver a minha mãe baquelas preparos....

    ResponderEliminar
  9. Concordo inteiramente contigo e já dei por mim a pensar no que referes quando vejo certas atividades de centros de dia de sítios que conheço... bailaricos, marchas, cantorias, mas tudo a parecer que estão quase a ridicularizar os velhotes...
    E este calendário, bem, não achei muita graça... Como diz a Gaja Maria, não gostava de ver a minha mãe assim...
    :O

    ResponderEliminar