17 de fevereiro de 2016

O Estado (das coisas) mata


"Espero que as pessoas que tinham este caso em mãos consigam dormir descansadas."

A frase é do Presidente da Junta de Freguesia de Santo António, em Lisboa: Vasco Morgado.
O Vasco é um velho conhecido meu e um acérrimo defensor dos direitos humanos e das causas sociais. Tem feito mais Lisboa do que o Marquês de Pombal, e na verdade têm os dois a mesma profissão: especialistas em terramotos sociais.
Espaço Júlia – RIAV (Resposta Integrada de Apoio à Vítima), para as vítimas de violência doméstica, foi idealizado por ele e está a funcionar. 
É de longe o meu político preferido, e não é por ser meu amigo.

Mas desta vez permitam-me discordar.
As pessoas que tinham este caso em mãos, representantes funcionais das políticas sociais do Estado, da inércia e inépcia do Estado, da burocracia que engole o Estado, dormem todos os dias com casos destes debaixo da almofada, descansadas, cansadas.
Não podemos levianamente atribuir as culpas pelas inúmeras mortes que acontecem todos os dias aos profissionais que tentam [todos os dias] salvar as pessoas da morte. Isso seria uma injustiça profunda.
Não é possível acusar os psicólogos, os assistentes sociais, os centros de saúde que não têm psicólogos, o Estado-Providência nos serviços mínimos, e todos aqueles que se debatem diariamente com a falta de meios para agir, que são eles os responsáveis por haver uma mãe, que num desespero invivível, mata duas as filhas, como o mal menor para os seus problemas maiores.

O Estado somos afinal todos nós, e eu não me considero culpada.
O que mata não somos nós, mas sim o estado em que deixámos chegar as coisas do Estado.

15 comentários:

  1. Venho pela descoberta de (mais) palavras - gostei da viagem pela (sua) escrita. Fico por cá, posso? :-)

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    1. Claro sim. As minhas palavras são todas sua. Bem vindo.

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  2. O que leva muitas vezes a estas situações tão lamentáveis são as limitações e barreiras que o Estado ergue que só servem para dificultar, sem mais nenhuma função útil. Tens toda a razão. beijinhos

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  3. “Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado. Os estados sociais, os corporativos e o estado a que chegámos. Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos! De maneira que, quem quiser vir comigo, vamos para Lisboa e acabamos com isto. Quem for voluntário, sai e forma. Quem não quiser sair, fica aqui!” -

    Era só isto, Uva!
    abraço,
    Mia

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  4. Tens toda a razão. Não é possível o Estado proteger todas as pessoas de todas as tragédias. A responsabilidade do ato é de quem o comete.

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    1. Sim Cuca, mas o Estado deveria zelar, no mínimo, pelas crianças, q estão longe de serem responsáveis do que quer que seja.

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  5. E quando não deixamos, alguns formam estado a ferros, porque quer lá saber o estado, do estado das coisas, desde que as coisa do estado, lhe encham os bolsos e os embandeirem em status. Como sempre, quem se lixa é o mexilhão.

    Belo post Uva

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  6. Tentava explicar isso hoje à Filipa. Por norma os funcionários q lidam com estas áreas até tendem a ser pessoas q dão o litro. Ok, há maus funcionários, há em todo o lado e todas as áreas.
    Mas mais do q os funcionários, para mim o problema reside mto na "burrocracia" e no sistema q está cheio de areia na engrenagem. Não é Dona X, assistente social, sozinha, q vai conseguir resolver. Ela n tem essa autoridade.

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    1. Pois não, não têm...

      ...e algumas pesa-lhes bem no coração o não conseguirem resolver estas situações e outras, igualmente complicadas...

      :)

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  7. As comissões de proteção do raio qu as parta existem para serem responsabilizadas por aquilo que são pagas por todos nós para fazerem. Aconselho a leitura deste artigo:

    http://www.publico.pt/sociedade/noticia/o-superior-desinteresse-da-crianca-1723629

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