4 de novembro de 2016

Da fragilidade

Gostava muito de ser sempre divertida, mas a vida não dá.
Gostava de ser sempre perfeita, aqui, debitando só as melhores palavras, as que não ofendem ninguém, aquelas que todos gostam muito de ouvir, as que conseguem atravessar toda e qualquer personalidade, para se colarem na perfeição a quem as lê.
Nunca serei capaz de ser aqui o foco que irradia por toda a casa, como quando era pequena e tinha todas as atenções sobre mim.
E nessa altura não era como sou hoje, complacente, paciente, capaz de me elevar para além de mim e calçar outros sapatos. Viajar para além do meu mundinho e sentar-me na pequena plateia que me vê.
Que vejo eu quando me vejo?

Aqui, como na vida, ninguém me perdoa o deslize dos maus dias, dos maus meses, da má vida.
E é verdade que já nada disto é como antes.
Vão-se encavalitando as desilusões umas nas outras, ora porque é um mau livro, ora porque não soube avaliar a consequência das minhas palavras, e tudo se afasta. Fazem-se texto velados sobre aspetos menos bons da minha conduta, mas eu, que não desgosto disso, dói-me.
É como se fosse aquela dor boa, que dá prazer, mas eu fico toda partida na mesma.
Ninguém quer saber das fragilidades dos outros, e eu sou toda frágil.

Gostava que ficasse aqui escrito que a minha única rebeldia, a única que me sobrou dos velhos tempos, quando era uma miúda e ninguém gostava de brincar comigo, é a absoluta necessidade que tenho de me dar aos outros.
A rebeldia é muito emocional.
Subi muitas árvores sozinha para contemplar os meninos lá em baixo. Nem eles se atreviam a subir e nem eu me atrevia a descer.
Às vezes, nos maus dias, saltava da árvore e caia mesmo em cima de uma qualquer brincadeira, e estragava tudo. Estragava-os a eles e a mim.
É o que faço aqui.

Os dias são quase todos maus e eu não ando divertida.
Busco em toda a parte os ecos de uma qualquer brincadeira, mas estou frágil.
Vou quedar-me na árvore.
E calçar os meus próprios sapatos.

30 comentários:

  1. Deixa-te disso...
    ...desce daí e anda brincar...

    :)

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  2. Arranja outra "árvore"
    Arranja outros "meninos"


    Todos temos os nossos momentos

    Arranja uns Reebok Pump :)

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    1. Todos temos os nossos momentos, e eu estou num mau momento.

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  3. Então, miúda? Tu vê lá isso que se não desces a malta sobe. Tenho muito jeito para subir às árvores, eu, foram muitos anos a subir à corda...

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    1. A miúda gostava de ter a tua capacidade de lidar com estas porcarias. Só metade, vá, da tua capacidade.

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  4. os dias em cima de árvores tão contemplativas são capazes de aborrecer. desce. mistura-te. há muitas mais árvores para subir, e muitas pessoas para acompanhar.
    bom fim de semana, Uva.

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    1. Eu sou a minha própria árvore. Sou eu a ramificar-me de medo e insegurança.
      É preciso crescer. Abraço ao desabafo.

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  5. Passo mais tempo a calçar os sapatos dos outros que os meus, concluo talvez tarde de mais que isso pode ser uma grande chatice, mais não seja pelas micoses. As circunstâncias menos prazerosas com que a vida me tem presenteado nos últimos tempos, levam-me a afirmar que tal como tu, tenho de calçar os meus sapatos e optar por umas botas biqueira de aço para, quem sabe, dar uns quantos pontapés no traseiro.
    Até lá, que é o mesmo que dizer, quando conseguir, sigo com uns dias menos felizes, aninho-me no colo dos meus dois macacos para sorrir e espero pela oportunidade certa para descer da árvore, não para estragar qualquer brincadeira mas para mostrar que sei brincar melhor que os outros.
    Tu és mais forte que frágil, é como te vejo.
    Um abraço apertado porque sei que não te vais partir.

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    1. Isso é porque és inteligente e tens em ti uma capacidade infinita. De todos nós, os vizinhos, és de facto a que tens uma resiliência maior, és entendedora, és educadora, és mãe e és feliz.
      Eu quando me chamam puta ali atrás, porque escrevi umas linhas a falar do Pipoco, que nem foi dele, eu fico a pensar que aquilo que mais gosto, que é dar-me aos outros, é conotado negativamente, como se dar-me aos outros significasse que sou afinal uma mulher da vida. Não consigo entender-me com isto.

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  6. Tenho ali uma escada bem forte. Tanto dá para descer como para subir!

    Beijo embrulhado num abraço, Uvinha :)

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    1. Tenho aqui um espacinho infinito para ti Maria-poeta. Sou uma soldada da vida mas feita de uma peça só.

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  7. Sabes Uva, foi isto que me fez chatear contigo, sim, a partir de uma certa altura chateei-me com a Uva Passa, sabes quando foi, foi quando começaste a dar tanta importância às opiniões alheias sobre aquilo que mostras, aquilo que gostas, aquilo que queres mostrar do que és, ou sobre aquilo que te vai por dentro que só tu podes saber, eu Uva, eu gostava que te estivesses nas tintas para as opiniões alheias que não são construtivas que só são para chatear e, por outro lado, que não tomasses como um ataque opiniões que apenas diferem das tuas, mas com isso as pessoas não estão a querer dizer-te que são melhores ou mais válidas, apenas que têm uma opinião diferente sobre um determinado assunto, eu gostava que exercesses o teu direito à liberdade de ser, eu gostava que fosses, apenas fosses, sem problemas quanto ao que pensam ou deixam de pensar de ti. Sabes, existiu uma altura em que me senti, aqui nos blogs, profundamente ridícula, foi quando me deu para dar excessiva importância a palermices, foi quando eu, que nem blog tenho, comecei a dar conta de boquinhas várias que me eram dirigidas e hoje sei que está relacionado com o blog onde prefiro comentar e, na altura, deixei que isso me afetasse e decidi com os meus botões que não voltava a comentar mais nada, mesmo sendo uma coisa que me dava gozo, que me divertia, e depois, lá está, depois senti-me ridícula, deixar de fazer coisas que me dão prazer e que não prejudicam ninguém por causa de umas bocas palermas, felizmente passou-me rápido e hoje Uva, hoje estou-me rigorosamente nas tintas e até me parece impossível a importância que dei àquilo. Não tens de estar divertida se não te apetece, não tens de moldar-te para agradar, acho que apenas devemos tratar os outros com o mesmo respeito que achamos que merecemos, acho que isto deveria ser básico e se este requisito fundamental for cumprido é a pessoa ser como é e não como acha que tem de ser só para agradar, que isso mais tarde ou mais cedo acaba por dar mau resultado. Uva Passa, sê a Uva Passa, é certo e sabido que nunca vais conseguir agradar a gregos e troianos, nem tão pouco a todos os gregos, ou a todos os troianos, mas uma das melhores coisas que temos na vida é a liberdade para ser tal como gostamos de ser, o mais que conseguirmos.
    Desculpa desta vez não ter resistido a dizer-te isto, já resisti outras vezes, podia ter voltado a "ficar calada", e claro que se entenderes que não deves publicar não publicas.
    Um abraço, Uva.

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    1. Cláudia Filipa, não sei se a minha fragilidade aqui nos blogs se nota assim tanto, mas a verdade é que sou tão fortemente atacada que às tantas transporto um bocado desse negrume para pessoas que nada têm a ver para o caso. Prezo muito o respeito que os vários leitores que aqui tenho têm pelos meus dias menos bons e pelas minhas (às vezes) estúpidas opiniões sobre a vida e sobre os outros, e também quero, e é tudo o que quero, respeitá-los nas sua opiniões. Não sou assim como tu que me estou completamente nas tintas para o que pensam sobre mim. Esse é o tal ponto que é para mim de rebuçado. Sou totalmente permeável às opiniões dos outros. E podes chatear-te comigo de eu ser assim, ou de estar assim agora, nesta fase mais descabida da minha personalidade.
      Não quero ter um bola de chumbo agarrada à perna, mas tenho.
      Eu aqui não sou livre e nunca fui. Já várias vezes me acusaram de ser uma anónima que esconde a cara ali em cima, no header, mas se há pessoa conhecida sou eu. Eu não vou aos outros blogs comentar em anónimo, eu comento como Uva Passa. Todos os meus amigos e família conhecem a Uva, sabem quem sou, até no Rule of Law, foi o meu segredo profanado pela ingenuidade da minha filha. Exercer aqui a minha liberdade tem sido das coisas mais difíceis desta vida.
      Eu não quero magoar ninguém em geral nem chatear-te a ti em particular, tão zangada que estás com uma Uva que descambou algures por entre os posts, para uma coisa que achas que pode não ser autêntica.
      Mas esta sou eu, e não consigo (agora) transformar-me e ser aquilo que era antes, porque sabes que nenhuma água passa duas vezes pelo estômago, a menos que vomitemos, e quando isso acontece, ela já vem ácida que dói.
      Entretanto, só para não me veres afundar ainda mais, teria mil vezes preferido as tua palavras ao teu silêncio.
      Conto muito contigo para isso. É no fundo essa a partilha que espero ter de quem me lê.

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    2. Uva, como no post dizes "Aqui, como na vida" presumi que estavas a referir-te a ti aqui no teu blog fazendo um paralelismo com a vida e claro que só me refiro a ti aqui nos blogs, à Uva Passa. Não estou "tão zangada" Uva, nem nunca achei que não estivesses a ser autêntica ou que quisesses magoar ou desrespeitar seja quem for, o ponto é precisamente o que disseste na tua resposta "ser aquilo que era antes" eu tenho a ideia, talvez completamente errada, que quando comecei a ler-te, eras mais livre, a questão não são os meus chateamentos, que se lixem os meus chateamentos, o que pretendi dizer-te é isto, não será, precisamente, essa tua permeabilidade às opiniões dos outros um dos motivos do teu sufoco, uma coisa é prestarmos atenção ao que os outros nos dizem, respeitarmos as suas opiniões, aprender com eles, mudarmos a nossa visão relativamente a um determinado assunto por considerarmos que o outro está a ver aquela situação muito melhor do que nós, outra coisa completamente diferente é agora vir o Manuel e dizer-nos que devíamos ser ou fazer assim, vem a Maria e dizer-nos que afinal não, afinal devíamos era ser ou fazer assado, vem o Jeremias e dá mais uma dúzia de palpites e nós ficamos ali, feitas baratas tontas, sem saber o que fazer à vida, é aquela tal história do velho, do rapaz e do burro, às tantas a pessoa já nem sabe quem é, e depois, claro, deve dar uma vontade danada de subir para cima da primeira árvore que lhe aparecer e ficar lá sossegada. Uva, confia em ti, confia no teu valor, as tuas opiniões não são piores que as de ninguém e são tão válidas como as de toda a gente, quando te digo para não ligares ao que te dizem estou a referir-me aos tais casos de que falas "sou tão fortemente atacada" ninguém que vem por bem, acho eu, desata a atacar fortemente outra pessoa, se em vez de ser para conversar, para dar visões diferentes das coisas, ataca, como dizes, então merece ficar a falar sozinho/a.
      Leva o tempo que quiseres em cima da árvore, desde que não seja por pensares que os outros são todos melhores que tu e tu, então, estás aí em cima para não os incomodares ou por achares que eles não querem nada contigo.
      É apenas isto Uva, era isto que tive vontade de dizer-te e não disse sempre que fizeste posts sobre os anónimos maus ou quando escreveste que num post que não tinha nada que ver com opiniões sobre roupa e acessórios vieram dar opinião sobre as tuas sandálias, este é, por exemplo, o tipo de coisas para as quais eu acho que deves estar-te nas tintas.
      Vá, miúda, anima-te, desce lá da árvore e tem um bom fim de semana, a não ser que queiras ser como o Cosimo, O barão trepador de Italo Calvino.

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    3. E estava, e estava. Fiz um paralelismo com a minha vida, sim. Tu entendes-me bem, que eu sei. Quando dizes que 'era mais livre' eu acho que deveria ser 'era mais criativa, mais alegre'. Isto dava-me mais gozo e impelia-me a fazer mais, e por isso escrevi aqui coisas muito fixes, procurei coisas mesmo giras para vos mostrar, porque a motivação é tudo, minha cara Clau. Se de repente tenho oito anónimos a conspurcar a minha motivação, logo no exato momento em que decidi continuar, recomeçar a escrever, então a coisa já vai torta. Foi precisamente isso que aconteceu. A cena das sandálias foi de somenos, que eu quero menos é saber se gostam ou não das sandálias, mas foi o mote, triste mas ainda assim mote.
      Ando desalegre, tudo me enerva, e depois faz-me muito mal andar por maus caminhos, a enervar-me, a ver aquelas coisas dos filhos, a ver anónimos aqui a dizer mentiras, que sou uma saloia, que só compro maus livros, que sou uma vendida. Mas vem, vem sempre aqui dar-me na cabeça, se puderes, é uma privilégio ter-te aqui. Acredita.
      Mas da árvore dificilmente sairei. É estrutural.

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  8. Dói sim, e é aceitar que dói, que está na nossa essência. Depois lambe-se a ferida e segue-se em frente com o consolo de que não deixamos de nos dar, apenas estamos mais calejados.

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    1. Dói, mas é fogo que arde sem se ver. E andar aqui sem dizer nada faz-me pior do que o contrário.

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  9. Tu não és a pessoa que se esconde no header, és a pessoa que se mostra nos textos, na arte, nos livros e nos comentários.

    Já me disseste coisas aqui que ficaram comigo, que levo comigo e eu não passo de uma anónima sobre anonimato que nada mais faz do que visitar, ler e comentar de vez em quando.

    De que interessa mostrar a cara ao mundo se depois não passamos de uma máscara de nós mesmos? De que vale mostrar-nos ao mundo se for só para vender a nossa intimidade e a dos nossos?
    Tu és única Uva e eu tenho um gosto muito grande em ler-te. Talvez porque durante muito tempo também fui a menina que ficava na árvore a ver os outros brincar, por ser demasiado maria rapaz, demasiado diferente das outras meninas, demasiado diferente dos outros meninos.
    Mas nós crescemos, evoluímos e aprendemos que ser diferente não é ser mau, sem as diferenças não haveria evolução e estaríamos todos condenados ao fracasso. E, além do mais, num mundo cheio de pessoas, há sempre alguém que nos queira fazer companhia na árvore ou que queira a nossa companhia junto ao chão. Por vezes só temos de estar abertos a essa possibilidade, mudar de árvore ou de meninos costuma resultar.

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    1. Estava aqui a ler-te e a pensar que não há nada melhor no mundo do que sermos gostados. Não sei o motivo pelo qual consegui colar-me à tua pele, e seres uma das tais que se identifica aqui com as minhas coisas, mas sinto-me muito bem por saber isso, e deixa-me infinitamente feliz saber que há gente aqui dentro, gente de verdade, que sabe, antes de mais, calçar os sapatos dos outros.

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  10. As minhas desculpas cara Uva.
    Sou um sujeito de extremos, infelizmente.

    aqui não sou livre e nunca fui.
    Como compreendo. Por isso construí e destruí três blogs há tantos anos, refugiado agora em comentários de outros blogs, aparecendo e desaparecendo.
    Mas, na verdade, não somos livres onde quer que seja, nem sequer na nossa esfera do pensamento.

    Seria uma tristeza para mim que abandonasses este espaço que tantas coisas Belas me mostrou.
    Não, não é culpa.
    É gratidão.

    Beijo.

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    1. Parece então que nem no pensamento somos livres de nós próprios.
      Mas somos livres dos outros.
      Não abandonarei o espaço mas abandonarei os outros.
      Serei apenas eu, nos meus próprios sapatos.

      Teria sido atenta leitora de qualquer dos teus blogs. É inconfundível e neste teu último desaparecimento senti muito a tua falta.
      Não me agradeças, sem ti (e sem os outros) era apenas uma apátrida sem saber onde descansar as ideias.

      Um abraço.

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  11. É pá, ó Uva
    Empresta-me a tua bola de chumbo
    Que eu, na minha leveza de ser
    Calço-a que nem uma luva

    (e já agora
    se pensares mais em mim
    verás chegada a hora
    de não te sentires tanto assim)

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    1. Empresto sim,
      Leva-a de mim,
      E se não for suficiente,
      Passa com o camião por cima de mim
      E segue em frente.

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  12. Uva, passo só para te deixar um beijo. Não sou ninguém para te aconselhar do que quer que seja, mas pensa só quantos, quem e como te "atacam" e depois diz-me se merecem outra coisa que não seja gargalhares e continuares com a tua vida. São pessoas que prezes? Não? Então, cagaró e siga para bingo!

    (E depois, claro, sabes que isto de ser "atacado" faz parte de se ser uma rock star. ;))

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    1. :)) Eu? Uma rock star? Muito me contas... logo eu que sou a que dançava em cima da coluna sempre ao som do tecno.

      (Não são pessoas que prezo, são pessoas que des-prezo, e ainda assim me chocam)

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  13. A mim parece-me que és uma das poucas bloggers que mostra a alma e sabes, as almas têm momentos bons e maus, tal como tu, só que não os mostram. É por isso que gosto de te ler, pareces-me uma pessoa de verdade e não o escondes, só não devias dar tanta importância a coisas que te fazem mal, acabas por sofrer demasiado. De resto Uva, põe-te fina, agarra-te às coisas boas. Beijinho

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  14. Uva, minha querida Uva, que Passa Passa, difícil às vezes é saber o que sobra. Entendo isto tão bem que parece que é comigo, que também tenho uma árvore dessas.
    Não nos conhecemos de lado algum, mas fica sabendo que sim, és gostada por anónimos como eu.
    Aceita este abraço.

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  15. Beijinho grande Uva, da minha arvore para a tua.

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