6 de julho de 2017

ACONTECEU

Há tantas coisas na nossa vida que ficaram por acontecer.
Lembro-me bem de uma noite, no Lux, andava eu numa fase absolutamente alvoraçada, a tentar trucidar o luto tremendamente e absolutamente doloroso do meu melhor amigo e namorado que morria todos os dias sem se despedir, que morria em todo o lado, a qualquer hora, numa casa de banho, num restaurante, no caminho para a faculdade, e também no Lux, durante muitos anos depois da sua efetiva morte, e de ter a plena certeza de que, nessa noite, o fio que me ligou à vida foi um fio de aranha, elástico, resiliente, feito para aguentar até a mais alvoraçada má-sorte, que podia muito bem ter ali acontecido.
Outra vez, novamente alvoraçada para chegar a casa, ou para sair de alguma casa, cantava muito alto uma canção dos Duran Duran, que passava no meu Fiat Punto 6 Speed - que eu nunca soube andar devagar - e, agarrada a um cigarro, com a cabeça na melodia, fiz uma espécie de ultrapassagem dentro de um túnel e só me apercebi que estava a guiar um automóvel quando um camião que se apresentava de frente, com uma carga imensa de eucaliptos, me acendeu duas vezes os máximos, apitou na linha, e optou por não me matar.
Há tantas coisas na nossa vida que ficaram por acontecer.
Tenho hoje um dos meus melhores amigos deitado numa cama de hospital, e não posso garantir que o fio que o liga à vida é de aranha.
Gostava que a vida fosse gentil e nos permitisse voltar atrás, muito atrás, para limpar os cacos que a morte nos traz.
Que bom seria levar os nosso mortos pela mão e mostrar-lhes todas as coisas novas que foram acontecendo na sua ausência: os jardins tão arranjados, a nova rotunda de Odivelas, o Metro que já chega à Pontinha, os olhos azuis, tão lindos, da minha filha...
Por tudo isto que não aconteceu comigo, por todos os fios que me prendem à vida, fios feitos de pessoas, de amigos, de alegrias, de dias de sol, de pedaladas, jantaradas, leituras, ternuras, e sorte, sou grata.
Mas não sou imortal.
Há de haver um dia que nada ficará por acontecer.

4 comentários:

  1. Cair no esquecimento somente aquilo que não veio para somar. AbraçO

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  2. Texto tão belos que não me atrevo comentar.

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