13 de fevereiro de 2018

QUERO UM CÃO!

«Esta é uma época em que um filho é, acima de tudo, um objeto de consumo emocional. Os objectos de consumo servem necessidades, desejos ou impulsos do consumidor. Assim também os filhos. [...] Para desalento dos comerciantes, o mercado de bens de consumo ainda não é capaz de fornecer substitutos à altura.»

A frase, que excertei do livro 'Amor Líquido' de Zygmunt Bauman, era qualquer coisa de extraordinário, se extraordinárias não fossem todas as frases de Zygmunt Bauman.
Reparem bem no que ele argumenta: os filhos são bens de consumo que servem necessidades. É duríssimo.
Parto daqui para uma ideia em construção, sem certezas absolutas mas bastante desconfiada, de que certas pessoas - e não são tão poucas quanto isso - tendo necessidades diferentes e meios económicos diversos para satisfazer essas necessidades, podem estar a assumir o cabeçalato de uma corrente que pretende dar mais ânimo aos comerciantes e ao mercado, na descoberta de um substituto para a inquestionável sede de consumo emocional que todos temos, quase sem exceção, enquanto Humanidade.

Não é pouco comum conhecermos rapazes e raparigas completamente desligados da 'necessidade de ter filhos' ou ligados à ideia de que ter filhos é um investimento grande demais para o nível de risco que acarreta.
É uma resolução que a longo prazo elimina qualquer possibilidade de crescimento do mercado, visto que o mercado só se renova com a renovação da população, porquanto criamos serviços para pessoas de todas as idades e não só para adultos ou séniors.
O mercado tende, claro, a responder a estas novas formas de vida (ou escolhas de vida) controlando o consumidor através de auxiliares emocionais, sobretudo para os indivíduos que escolheram não procriar ou que têm resistência em fazê-lo.
O que quero dizer é que o mercado está a fazer uma grande pressão na sociedade e encontra-se neste momento a regular o impulso do consumidor através de diversas leis e regras, que nos impõem os animais como pessoas.
Duríssimo.

Vejamos: está completamente fora de questão [mas há exceções, que isto não é ciência é humanidades] um casal sem filhos não ter um cão, ou outro animal de estimação, para suprir a necessidade emocional que carrega (também em diferentes níveis) nos seus genes.
Deriva também desta premissa o facto de, como espécie, não sermos capazes de usar para sempre os recursos animais para nos alimentarmos, e vai daí, o Senhor Mercado regula para que haja consciência ambiental que promova a alimentação vegetarina ou mesmo vegan.
O Senhor Mercado sabe que nem todas as pessoas poderão ter filhos num futuro que está muito próximo e regula no sentido de substituir essa enorme fonte de desespero social.

Acredito muito que em breve - apesar de haver uma larga franja da população que se insurgirá contra isso, sobredeterminada por uma visão que é já arcaica [julgo eu] de que os animais de estimação devem ocupar um espaço totalmente diferenciado da restante população - o facto de se entrar num restaurante e dar de caras com uma matilha de cães que por ali deambulam à procura dos restos dos vários comensais presentes, será qualquer coisa de muitíssimo comum, passando depois para o muitíssimo normal, e depois para o completamente indiferente.

Assim sendo, não vale a pena discutir mais nada sobre isto, pois que não há nenhuma forma nem vontade, por parte do Senhor Mercado, em parar aquilo que ele encontrou como sendo a única maneira de suprir as necessidades emocionais das pessoas, ao mesmo tempo que determina pela regulação quais são essas necessidades.

Nem contra nem a favor, sou antes uma mera espectadora da evolução da espécie [também animal]. 

5 comentários:

  1. Profunda, lúcida e generosa partilha de reflexão.
    Soube-me bem ler a reflexão que partilhou.

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    1. Muito obrigada por passar e deixar o comentário, também generoso.
      Enche-me de contentamento.

      Olá e um abraço.

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  2. Dentro da temática gostaria agora de ouvir a opinião daquelas pessoas que de tempos a tempos se insurgem contra as crianças em restaurantes.

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    1. Estou careca de ler esse tipo de comentários em pessoas que estão totalmente a favor (sem restrições) de animais nos restaurantes.
      Não sei se estarei certa, mas quase que posso garantir que são essas as pessoas que assumem o cabeçalato daquilo que escrevi em cima, no post, isto é, as primeiras pessoas a cederem à pressão do Senhor Mercado e a entender que os animais são como pessoas, e até superiores a pessoas.
      Há muito disso ultimamente.
      É interessante.

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