6 de janeiro de 2015

Balanço da quadra natalícia



Dia de Reis?

As pessoas que decidiram enviar hoje o Postal de Natal (eletrónico) com as Boas Festas, com o Feliz Natal e as Boas Entradas .... fizeram-no porque?
É que se foi para armar aos cucos, e ahh e tal que hoje é dia de Reis e estivemos de férias no Brasil, e na Índia, e no caranguejo mais velho, e enfim, não somos consumistas, viajamos para fugir à maçada das prendas, e não comemos peru, e nem bacalhau porque o Manzarra também não come, e por isso só foi possível enviar hoje... 

Pois, compreendo... mas deixem-se disso.
É que atentai, fazê-lo não é só possidónio...... é azeiteiro!

E depois há umas pessoas que fazem umas coisas...

... com a arte de fotografar debaixo de água, que ultrapassa (e muito) aquilo que tento fazer com as letras.














 Créditos da Imagem e ARTISTA aqui!

5 de janeiro de 2015

A cobra

Sabem aquela coisa que costuma atacar as pessoas, coisa feia, medonha, que surje amiúde nos inícios, sobretudo no início do dia, no início da semana, no início do mês, no início do ano, no início de mais sete longos e intermináveis meses antes das férias?
A cobra? 
Sim, a cobra.
A cobra que se enrola a nós e nos tolhe os movimentos, também cerebrais, que a pessoa bem tenta fazer qualquer coisinha (e credo, tem tanto que fazer), mas lá está, a cobra aperta, a cobra põem-se a dançar e a ziguezaguear à nossa frente, e aquilo dá uma soneira dos diabos, e a pessoa bem tenta enxotar a cobra, xô cobra, xô cobra, mas a cobra é malina, a cobra não desiste, e continua aquela dança misteriosa, toda ela se insinua, toda ela nos envolve, é um lodo, uma areia movediça, um triângulo das Bermudas, um veneno...

Fui atacada por essa cobra.
Tenho inclusive as marcas da dentada aqui nas pálpebras.
É que nem consigo abrir os olhos.
E o pior nem é isso. O pior é que a cobra está armada até aos dentes.
O melhor é não me mexer.
Amanhã logo vemos como é que ela acorda.

Atenção blogosfera, há uma nova lei sociológica a ter em conta.

O Prof. Carlo Cipolla, nos seus estudos sobre a estupidez humana (sim há pessoas que fazem os seus estudos em estupidez humana...), enunciou a sua Segunda Lei da Estupidez Humana (a estupidez humana é tão vasta que até tem duas leis...) e é esta:

“The probability that a certain person be stupid, is independent of any other characteristic of that person”.




Esta lei que Cipolla enunciou, permite-me compreender que há pessoas que conseguem conciliar a estupidez com a imbecilidade, ou seja, a pessoa estúpida também pode ser outra coisa além de estupida, nomeadamente imbecil.
Complexo?
Nem por isso.
O vídeo que aqui vos deixo, é prova mais do que suficiente (e evidente) de que a teoria deste nosso amigo é irrefutável.
Ora se por um lado vemos crianças em todo o mundo a aguardar serenamente a chegada do Pai Natal, envoltas num pijaminha muito quentinho, ora de copinho de leite numa mão, ora de bolinho de nozes na outra, por outro lado, temos o gentio sabugalense, gente rija e de tradições beras, que aguardam serenamente não o Pai Natal, que isso não dá pica nenhuma, mas um quadro cheio de cuspo, que beijam embevecidos, para logo a seguir afinfarem forte e feio na cigarrada da ordem, para acabar em beleza a tradição natalícia.

E é uma maravilha ver a criançada ali, tudo a fumar, à homem! numa grande alegria.
Podia deixar-vos aqui todo um estudo sociológico e médico sobre crianças a fumar, mas o amigo Cipolla já me adiantou o trabalho.

Ó gente da minha terra...


4 de janeiro de 2015

Ainda o Natal

É assim:
Já tropecei naquilo umas oitenta vezes desde que começou o Natal, sem contar com outras tantas, desde que terminou o Natal.
Ontem dei-lhe uma achega com o aspirador, porque precisei de limpar aquilo lá atrás, não é, alguém tem de limpar os ácaros natalícios que aquilo atrai, a bicheza que ali se junta, e porque lá está, enfiei aquilo num canto esdrúxulo e malinoso de alcançar, e estava-se mesmo a ver, taruz! aquela bodega cheia de tralha no real chão, e bolas e fitas, e postais dos primos alemães, e pais-natal miniatura, e luzinhas por todo o lado, e que quezília aquilo me dá, raisparta!

Pergunto:
Conhecem alguma entidade superior, dessas que mandam no Natal, que já tenham criado oposição ao desmanchar da árvore antes do dia de Reis? 
Virá depois essa entidade superior, e no próximo ano, trazer à colação esse pormenor de antecipação e deduzir ao número de prendas, que supostamente são a crédito?
É que se não, aproveitava já hoje para avançar com a minha vida sala e com a minha lareira para a frente, sem estar a tropeçar em coisas que só me fazem lembrar que este ano gastei mais do que devia com alguém que nem sequer existe.

3 de janeiro de 2015

Ensaio sobre a Blogosfera

Não sei ao certo que pessoas me visitam; não sei o que as fez parar por aqui, um dia, e outro, e depois outra vez.
Mas tenho uma vaga ideia.

Julgo que há motivos bem definidos para que um leitor siga um blog, todos os dias, várias vezes ao dia, e às vezes, anos de seguida. 
Da mesma forma que já segui blogs, também já abandonei blogs e todos os que fui abandonando atribuí-lhe uma única razão: foi o bloguer que me abandonou, isto é, conquistou-me com um jeito de ser e depois transfigurou-se, optou por outro caminho, mais difuso, enublado, comercial, musical. 
Não gosto que me dêem musica. A pessoa tem que saber para o que vai.
Os conteúdos que o bloguer partilha podem ser (numa primeira abordagem) a razão pela qual conquista os leitores, mas nem sempre, até porque o bloguer não partilha sempre a mesma coisa, e tem uma natureza variável, mutante, humana, e por isso inconstante.

Que magia é essa, então, que blogo-cometa é esse que traz agarrado no seu rasto um grupo de pessoas constantes, inteligentes e comunicativas, que fazem no fundo 'a casa'?
Não são com certeza os que vêm só para o Cozido à Portuguesa, que aqui se serve à quarta, caso contrário estaria a casa vazia o resto da semana.
O que é então?
Julgo que a manutenção do respeito, da (com)postura e um certo savoir faire, poderão estar na base da tal magia. A especialização do blog em certo ou certos assuntos pode ser um contra-senso, já que existe a tal inconstância dos leitores e do próprio bloguer, que procuram fazer a diferença e encontrar algo diferente, mas uma especialização pontilhada de experiências e opiniões pessoais, pode ser o que basta para um crescente sucesso blogosférico. Isso e um autor informado, sempre em cima do acontecimento. Um autor-leitor. Um curioso com interesse na partilha do resultado da sua (quase sempre) aturada pesquisa.
Tudo isto e muito humor, graça, piscadelas de olho.

Muito me espanta que um bloguer que antes postava assuntos políticos de certa qualidade, se coloque num patamar de citações e vídeos risíveis. Ou mesmo clips de musica diários, que conferem ao blog  um certo querer-dizer 'nada tenho a partilhar, mas de música todos gostam'.
Quando um dos maiores cantores de Heavy Metal se decidiu pelas baladas românticas, muitos foram os que o abandonaram. 
Na música, como nos blogs.

O leitor informado e experiente, não se basta com um blog que lhe serve, qual snack-bar low-cost, conteúdos instantâneos, daqueles que basta juntar água, ou como alguém na vizinhança dizia, um blog de chão coletivo, pastagem comunitária, terreno sem vedações, sem muros e sem redes, onde toda a gente entra, onde tudo cabe, sem restrições, sem um alto lá! que aqui fala-se de literatura, aqui há poemas, aqui há cultura, aqui há design, aqui há gente, e gente que se sente. Alto lá! que este blog não é um lugar-comum.
Diria que o bloguer para conquistar o seu público deve imprimir uma certa bravura ao conteúdo, certa controvérsia, e abandonar os discursos desoladores, cansativos, quais florzinhas pasmadas no algeroz, todos consentâneos, gerais, sem beliscar alma. 

E porque não fazer incursões por outros blogs, e porque não contrapor a opinião da vizinhança? 
Se partilhamos a blogosfera e os leitores, ou uma parte significativa de leitores, porque não fazer saltitar o leitor de blog em blog, fazê-lo esticar as pernas? Faz-se por acaso uma tese consultando um só livro?
A constância do blog, quer-se assim, no trato, na maneira como responde ou evita a sua caixa de comentários, ou a ausência dela, a escrita cuidada e longe de prosas chilras, ou como diria o enorme Mário de Carvalho, as prosas compostinhas, género conversa de balcão ou perfumaria, que tresanda a desodorizante barato de supermercado, do fez isto, depois fez aquilo, foi ali, foi acoli, foi mais além, e a seguir disse, a seguir exclamou e a seguir respondeu. E a fuga, sempre que possível, aos lugares-comuns, também da linguagem, os 'grandes mantos de neve', 'os areais imensos, 'os lampejos de esperança', 'os assomos de indignação',  'as árvores frondosas', 'o silêncio sepulcral' que podem dar origem a 'uma muralha de indiferênca' e ao 'fim trágico' do blog. 
A 'palavra debaixo da língua' deve ser a última a escrever. 

Da mesma forma que os leitores seguem os blogues, também os bloguers seguem os leitores.
Um blog não é um 'mar de rosas', um blog leva muito tempo a fazer-se, muito tempo a pensar, muitas horas de dedicação. 
É por isso que o leitor incauto se deve proteger de aramices e enganos encapotados, da mesma forma que o bloguer se deve proteger de leitores que se enganam e vêm cá parar, totalmente tresmalhados do seu caminho. Ovelhas negras, dirão alguns, lobos maus dirão outros. Eu diria apenas, perdidos.
Se quero concentrar-me no tipo de leitores que quero no meu blogue, se quero definir um espaço 'exclusivo', onde juntamente com quem me lê possa (também eu) evoluir com a partilha, então o conteúdo partilhado deve ser também ele, exclusivo, deve ser um jardim interior, ameno e soalheiro, um deck luminoso no último andar de um edifício, que recebe restrita e educadamente, servindo apenas o melhor que encontra, elevando o leitor ao mesmo patamar que eleva o blog.
Haverá gostos para tudo, mas a exigência e a exclusividade trazem sempre uma aura muito difícil de resistir.

Se queremos, pelo contrário, ser um bloguer de praia, mercado, elevador, estação de metro, estação de serviço onde cai qualquer palha, onde qualquer um se serve, porque fast food é tudo o que procuro oferecer, então vou conquistar leitores que procuram a alimentação básica, a erva rasteira, ou leitores que não me procuram a mim, para em mim encontrar uma semelhança ou um amigo, mas sim um produto. Acontece que um blog deste tipo qualquer um pode ter, aliás, fazem-se blogs com este propósito, que não vivem de pessoas reais, que não escrevem sentimentos reais, mas sim máquinas de marketing muito bem urdidas. E um belo dia, vou procurar saber o que tem feito a bloguer xyz, que sigo há quatro anos, e levo com um banner de pensos higiénicos na cara, taruz!, a filha desnuda na praia, o marido de ceroulas de marca, ela de biquíni brasuca tirando fotos ao espelho para a marca-tóxica Dinintel.
E diz que sim, que emagrece, que renova, que enriquece, que é de tudo, o melhor. E nós a ver que não.
Não posso dar de beber a essa sede, porque me sujeito a leitores sedentos de nada. E isso ninguém quer, ou eu pelo menos não quero, isto é, ter leitores que nada consomem de meu, e apenas se sentam na esplanada para falar mal ou ouvir falar os outros. 
Há bonitos eléctricos em Lisboa que se prestam a esse tipo de cenário.

Depois de conquistado o estatuto do blog, dos leitores e visitantes, então o bloguer já se pode dar ao luxo de 'ir de férias', de ficar 'azedo', de ficar uns dias 'mal disposto' e até de faltar a qualquer palavra menos pensada. As pessoas verdadeiras também são feitas disso. Verter a felicidade e a perfeição em cada post, é só mais uma forma de enganar os leitores e os outros bloguers.

E eu?
Eu sou uma bloguer-leitora em construção. 
Muito tenho muito a aprender com quem sabe, com quem faz e com que faz bem.
Não conheço toda a gente que me visita, mas tenho uma vaga ideia, porque o blog, tal como o Universo, é um espelho que reflete.


Então e tu Uva, porque não fazes isto tudo... e voi-lá?
Porque uma coisa é dizer, outra é fazer, e outra é conseguir.


E depois também há muito aquela coisa.... a falta de tempo, que em última instância, lixa tudo.

2 de janeiro de 2015

E depois há umas pessoas que fazem umas estátuas que (infelizmente) o Ronaldo não conhece.







Créditos da imagem e ARTISTA aqui!

Sim.

Aquela ali em cima sou eu...
Em Paris.
Sim. 
Quem esteve horas a tentar disfarçar a Uva com mil e oitenta e três filtros, foi um designer de grande capacidade mental, nomeadamente paciência.
Sim.
A Uva tem uma sorte do caraças...

1 de janeiro de 2015

Em chegando ao fim...

"O que faço, em chegando ao fim, é cerrar os olhos e evocar todas as coisas que não achei nele." dizia Machado de Assis sobre os livros.

Todos sabemos que o sofrimento, o drama e a tragédia vertidas num livro, é o que faz dele Literatura. As boas memórias, o pardacento dos dias, os amores perfeitos, as estações sossegadas onde nada acontece senão o cair da folha, são uma náusea, um enfado e uma bela perda de tempo para os espíritos tumultuosos e ávidos de ação, que somos Nós.
A vida não é um romance de cordel, a vida não é essa literatice que vemos passar nas novelas, com ar complacente e distraído, enquanto, e por outro lado, e por todos os lados, nos atiramos com tudo o que temos, sangue, suor e lágrimas, para aquilo que é falho, para aquilo que almejamos e não alcançamos, para o difícil (e impossível) que é sobreviver à vida. 
A vida é na verdade Literatura, e é aqui que começo, e é deste exemplo que parto. 
O meu desejo para o novo começo é uma antítese, é um não-desejo.
Quando peço, de olhos cerrados, crente, com a fé metida em mim, comprimida em mim, dependente de mim, naquele que é o mais alegre e festivo fim, não é algo duvidoso, imaterial, etéreo. Isso seria relapsar e deixar fugir as poucas forças que conservo no final, para algum sítio que não sei onde é.
E não me quero perdida.
De que me serve o pedido de saúde, se não sei ainda viver saudavelmente. 
De que me serve o pedido de paz, se o que faço é lutar todos os dias.
De que me serve o pedido de amor, se acolho, como acolhe a Literatura, o drama, a luta, o rancor, a depressão, a desilusão, o inóspito.
O que o bom escritor faz para chegar ao final da sua obra-prima, não é acrescentar parágrafos e frases inúteis, pedidos, termos, citações e enganos.
Toda a gente sabe que as resoluções fingidas são as letras miudinhas que ninguém lê.
O bom escritor sabe, e sabem também os bons leitores, que a urgência é cortar, emendar, apagar, se preciso páginas inteiras, capítulos inteiros, histórias inteiras, talvez aventar mesmo alguns personagens, cortar com protagonistas; o bom escritor sabe que o desapego às coisa materiais, que é como quem diz, às suas letras, vírgulas e pontos finais, e à troika literatice chamada felicidade-paz-e-amor, deve ser questionada, porque a vida não é esse génio da lâmpada que nos concede os 3 desejos...
Mas então... e a esperança?
Não espero nada da esperança, já o disse,  mas imagino que naqueles instantes mais sombrios, a Vida, que é um génio em si mesmo, um génio com várias lâmpadas ao invés de desejos, me ilumine o caminho.

A luz para o caminho.
É essa a minha luta.
O resto encontra-se, na justa medida das nossas forças.
E na comédia, que é tal como na Literatura, o descanso do grande guerreiro.