18 de julho de 2016

Canal Caveira

A primeira lembrança que tenho de Canal Caveira é de me apear de um Mini-Morris vermelho esbugalhado (onde vinha aninhada entre as pernas da minha avó no banco da frente), ver o meu pai em tronco nu, cabelo muito amarelo, olhos azuis muito alegres, a tabaquear o caso e a dizer: 'almoçamos aqui e ainda vamos a tempo de jantar na Corte Brique'.
Dentro daquele carro ainda viajavam a minha mãe, a Fátima e o Zé - dois retornados enormes e barulhentos - o filho deles, que vinha ao colo da mãe que ia ao colo do pai, e o nosso Banana, completamente grog depois de umas pastilhas para gatos assanhados que a minha mãe arranjava na fábrica mas que nunca falhava a 1ª viagem de verão ao Alentejo.
Canal Caveira foi onde me apeei muitos anos seguidos e durante um longuíssimo tempo da minha vida, com as pessoas que mais me disseram até hoje. Foram os melhores tempos de todos, foram os tempos em que demorávamos um dia inteiro para ir de Lisboa a Santa-Clara-a-Velha, onde as veredas cheias de silvas e amoras, fontes de água fresca e serras a cheirar a pão, me fazem agora chorar.
A paragem em Canal Caveira era um compasso do coração; era ali que o meu pai em pé e de mãos no quadril para esticar a barriga para a frente, me comprava um Capri-Sonne e me dizia.
- Estamos quase a chegar.
E chegávamos noite cerrada, e eu sem medo do caminho escuro que ia dar ao monte, deixava explodir o coração nos braços da minha avó pequenina, a espantava-a muito por estar cada vez mais alta, mais magra e mais parecida com a minha mãe.

Depois o meu pai vendeu o nosso Mini por 15 contos.
Depois uns senhores não trataram bem da minha avó, e ela morreu-nos numa maca de hospital.
Depois a vida levou-nos por auto-estradas que iam dar diretamente ao Algarve.
Depois começámos a matar as saudades do Alentejo por Facebook.
Depois apareceram os blogs e descobrimos que os melhores anos da nossa vida são de somenos, que somos de uma estirpe muito perigosa e de uma dimensão planetária inferior, porque parávamos em Canal Caveira para almoçar, a caminho do Alentejo.

"Olhei para trás, chorando,
 Minha terra da minh'alma
Tão longe me vais ficando."

10 comentários:

  1. Ainda bem que os blogs existem para me fazerem perceber que a minha vida de somenos me faz muito feliz, muito mais do que algumas pessoas terão alguma vez coragem de ser.

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  2. Também parava em Canal Caveira, a caminho do Alentejo dos meus pais.
    Tempos felizes os meus, de menina.

    CB

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    1. Eram sim, tempos desprovidos de soberba bacoca.

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  3. O teu texto abriu em mim um canal de lágrimas, salgadas.

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  4. As lembranças de criança são sempre as melhores, as minhas incluídas. É engraçado que, pelo que vejo, os anos vão passando e as memórias tornam-se mais alargadas. Os velhotes lembram com saudade a vida até aos trinta. Foi uma divagação, pois.

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  5. Saudades desses tempos.
    Gosto quando nos fazes viajar assim, no tempo ;)

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  6. Exactamente a mesma coisa... o mesmo caminho, a mesma paragem... mas eu ia até às Pereiras, passar as férias de Verão com a tia!!

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  7. Canal Caveira era paragem obrigatória e demorava-se o dia inteiro a fazer 400 kms para chegar ao sul. Hoje regressei de férias, fiz oitocentos e tal kms em oito horas, parei quatro vezes e nem passei pelo Canal Caveira. A tradição já não é o que era...

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