1 de agosto de 2017

ARISTOCRACIA

Tenho evitado ao máximo explodir, criar conflitos, ser deselegante, só para não entrar em confrontos do tipo os-gostos-não-se-discutem, e cansar-me de vez das pessoas todas.
 Acho que com a idade devemos aprender a valorizar (e depois aperfeiçoar) as nossas melhores capacidades, sobretudo as de ficarmos calados perante as inconveniências daqueles que se acham superiores na casta.
Toda a gente sabe que à medida que os anos passam há uma certa beleza física que se esvai, mas há também uma outra que aparece, cautelosa e subtil. A elegância do saber estar (se possível de boca calada) e ao mesmo tempo divertirmos-nos com isso.

Adoro ver aquelas senhoras muito calmas, que parecem nunca se alterar perante as bizarrias dos outros. Os movimentos outrora frenéticos, cheios de gargalhadas e maneios de anca, tornam-se agora num cruzar de pernas subtil, goles muito mais pequenos nas bebidas, e um jeito muito particular de sorrir para os que falam. A minha avó - que foi sempre muito velha - dizia-me muitas vezes que 'o calado vence tudo', e parece que tinha razão.

Ora a minha capacidade de ficar calada é ainda muito imberbe. Sou tremendamente espontânea, sobretudo se gosto das pessoas, se as conheço bem ou se estou em vantagem quando ao assunto.
É o entusiasmo que me entala, mas é sobretudo quando me encontro perante injustiças que fico toda esboroada no quadro.
Perder as estribeiras da elegância - e o 'desculpe lá', que é das coisas mais grosseiras que uma mulher pode dizer em público, sair disparado  - é coisa para me matar de vergonha. Lá está: um desculpe seguido de uma valente alfinetada é totalmente diferente de um desculpe-lá, que já vai inquinado de possidónia.
Uma vergonha.

Mas ia eu a dizer - que foi por isso que fiz este blog - que tenho evitado ao máximo explodir.
Há coisa de dois dias (e reparem bem na finura da minha pré-maturidade, ao esperar dois dias para vir aqui contar isto), na presença de uma certa aristocracia, ia perdendo a decência.

Uma das senhoras cujo nome era Você, lembrou-se de lançar para o grupo, com um arzinho muito afetado, a pergunta mais inusitada da festa: o que era hoje em dia um aristocrata.
Desataram todos a falar ao mesmo tempo, e eu, que fui apanhando aqui e ali coisas sobre comunistas, páginas do facebook e touradas, mantive-me quieta.
Foi quando a  Senhora Você olhou para mim, depois de um longo bocejo talvez provocado pela minha roupa, e resolveu perguntar o que é que 'a menina' achava.

E eu disse: a aristocracia em portugal desapareceu há muito, mas foi proficuamente substituída por pessoas que se cumprimentam só com um beijo e tratam os filhos por você.
E ela pergunta: como é que a menina se chama?
E eu respondi: Vanessa.
E ela disse: desculpe-lá o que lhe vou dizer, não me leve a mal, mas a aristocracia portuguesa passa muito por evitar pôr esses nomes nos filhos.


Tenho evitado ao máximo explodir, criar conflitos, ser deselegante, só para não entrar em confrontos do tipo os-gostos-não-se-discutem, e cansar-me de vez das pessoas todas.

23 comentários:

  1. Um "estimo bem que se f###" seria provavelmente a minha resposta, deselegante com certeza mas apropriada tendo em conta a falta de educação.

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    1. Não foi falta de educação, foi por-me um pé em cima. Humilhar vai muito além da falta de educação.
      Como é óbvio, sorri-lhe abertamente.
      Mais tarde ainda tive a oportunidade de lhe dizer, depois de a cheirar levemente, que pior do que ser ordinário é usar um perfume ordinário.
      Era aqui que eu devia ter ficado calada.

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    2. Seria humilhação se não fosses senhora de ti, se não soubesses o que vales. Pedantismo aliado a falta de educação, não há berço que lhe valha.

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    3. Tenho mesmo de falar com as futuras mamãs... por amor de Deus, não vão nessa de chamar vanessa(s) às vossas meninas.
      ;)

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  2. Alguém que comece por perguntar como se definirá um dado tema nos dias de hoje e acabe a enunciar alíneas recônditas das regras de conduta do tema sobre o qual lançou a discussão, mais do que paciência parece merecer-me um suspiro e um ligeiro abanar de mão ao estilo 'Deixe estar, fica para a próxima'.

    Mais vale debater o que são Aristogatos nos dias de hoje ;)

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    1. Estas coisas acontecem todos os dias, de forma subtil, a todos nós.
      Esta era só mais uma pedante sem interesse, mas deixou-me ofegante das entranhas.

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    2. Ahaha, também me veio logo à cabeça "Os Aristogatos"! :)

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  3. Ahahahahahahahah
    Opa, opa, opa...
    A sério que ela disse isso?

    Agora a sério, isso é de uma falta de educação ostensiva, muito pouco digna de uma aristogata.

    (Há muito tempo, logo no início do blog, fiz um post sobre nomes, em chegando ao PC ponho-te aqui o link, tenho a certeza que vais adorar)

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    1. Disse, assim mesmo, com as letrinhas todas.
      Julgo mesmo que ouvi o meu coração partir-se em mil pedaços, e de repente, como se dentro do coração houvesse um álcool muito forte que se espalhasse pelas veias, ruborizei.
      O meu cérebro deu mil voltas, e depois deu um nó. Olha, uma coisinha para recordar...

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  4. Mas que deficiente! -.-
    Haja paciência...

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    1. Haja MUITA paciência.
      Ela não foi deficiente, foi aliás muito eficiente. Disse o que queria dizer para provocar os estragos que queria provocar.
      Ainda estou meia coiso.

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  5. P.s. Desculpe, "deficiente" talvez não seja a melhor palavra!!! Distorcida! Que pessoa distorcida...

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  6. ahahahahahahahahahahahahahahahahahahah

    devias era mudar o nome do blogue para Uva Nessa.

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    1. Depois ninguém cá vinha. A alta sociedade quero eu dizer.

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  7. Fiquei supé curiosa. Gostava muito de saber das origens e da vida dessa senhora. Gostava mesmo.

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    1. As origens não sabemos, mas o final tenho a certeza que sei.

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  8. "Foge cão, que te fazem barão! Para onde, se me fazem visconde?" uma comenda, já, para senhora tão digna e de tão fina estirpe. o 10 de junho ainda está longe, mas isto, o tempo, já se sabe, é um foguete...

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  9. Eu não diria o que essa senhora te disse porque não costumo emitir opinião de desagrado sobre questões pessoais e características pessoais se as mesmas não colidem comigo e com os meus direitos, e sem que me tenha sido pedida opinião. Se forem opiniões de agrado digo às vezes sem me pedirem porque entendo encaixarem no reforço positivo.

    Por outro lado, também não me sinto ofendida ou sequer irritada, quando me dizem algo assim. Passo à frente porque entendo não dever gastar energias com pessoas corrosivas. Se calhar estou a ficar muito velha como a tua avó, embora (ainda) não concorde que o calado vence tudo, pelo contrário devemos dizer, mas apenas o qb. O não dito é uma porta aberta para a violência.

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  10. ó, qual é a sua opinião?

    não tenho opinião formada. na verdade estava apenas a apreciar a paisagem.

    (há pessoas que não merecem a nossa atenção)

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  11. Querida Uva, não vale a pena explodir com pessoa tão fraquinha, bastava mandá-la, com um sorriso aristocrático, condescendente, piedoso, à merda.
    Cabrona da velha.

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  12. Eu teria respondido : é isso e o cag...de cócoras :) :) :)

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  13. O verdadeiro "berço" revela-se sobretudo pela educação (e empatia e simpatia e outras coisas que tais). É certo que a "aristocracia" - mesmo a pseudo - não põe "Vanessa" aos filhos (ou Rúben, ou Márcio, ou Cátia - desculpem lá qualquer coisinha, mas é mesmo assim...). Mas quem tem o tal "berço" (se é que isso ainda interessa alguma coisa), nunca faria um comentário desses a ninguém: ficaria elegantemente calada (lá está, a avó é que sabe...)
    moral da história: cagari cagarô, que a velha é só uma valente parôla com trapos caros (e perfumes ordinários...)

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