27 de dezembro de 2014

Histórias de Natal #2

Acabaram-se as filhós.
Agora mesmo. 
Não sei porque me torturo tanto. Sei perfeitamente que não tenho capacidade para intervir na luta que se trava entre mim e o prato onde pousam, e que fica abandonado por todos, num canto da mesa de Natal. 
Andei estes dias a passear pela casa, armada em distraída, e a deitar o olho ao prato. 
Tapei-o, como se tapam os mortos. 
Ninguém quer olhar para ali, basta-nos o vulto para saber o mal que para ali vai, o cheiro que aquilo deita, o gosto que aquilo tem.
Parecia uma doente psicopata com aqueles pensamentos estúpidos e binómios entre a gula e a culpa, ou então semelhantes aos que os tóxicos têm quando decidem deixar o vicio: 'só mais uma vez não faz mal, é a última.'
Mas a última, já se sabe, é só quando acaba, quando o prato fica vazio, os bolsos vazios, a culpa cheia e a gula esperneia...
Sei muito bem o que é isso de enfrentar a gula da comida, a gula do tabaco, a gula da leitura, da ginástica, do Bairro Alto, e de tudo o que levei até ao extremo.
Alargou-se o estômago, a cabeça só estava bem de pernas para o ar, e a boca não se cansava de fumar.
E dançar? Dançar até cair. Ainda não me levantei.
E agora estou para aqui a sofrer. 
De nada me vale ir beber um chá, ou meter os dedos à boca. 
Já não me sai o binómio da cabeça, já não me sai a culpa da pele, e já não voltam as filhós para o prato.
Não sei porque me tentam se tudo o que aprendi comigo foi: se é para cair, há de ser em tentação.

Acabaram-se as filhós.
Mas ainda há os sonhos....

O sexto sentido

Fogem-me sobretudo as palavras.
Fico aqui muito quieta a ver passar as linhas cheias de letras, cheias de significados.
Os livros trazem-me muito isso. O meu próprio silêncio. Calam-me as vozes da cabeça, que nunca se aquietam, e fico sossegada, e atenta, às vozes dos outros. 
As palavras nunca são silenciosas, poderão dizer. Há até palavras más que se unem com outras palavras, para nos gritarem muito alto. E picam, e são duras, como pedras.
Mas gritam, e picam e apedrejam... para dentro. 
Não se ouve nada, mas despertam sons.
Não cheiram a nada, as palavras, mas às vezes os odores que soltam são véus que nos envolvem como  especiarias... de muitas cores.
Saber ler é também saber escutar, cheirar e saborear. 
Ler é o sexto sentido.

A arte a sexta cor.
Não sou artista e talvez por isso tente fazer com as letras o que alguns (me) fazem com a arte.

Por isso leio livros, mas fogem-me as palavras, para escrever, criando.
Não me entristeço porquanto os livros são artistas e ler também é arte.
Mas gostava mais de ser artista, e por isso, a pouco e pouco, vou criando a minha obra.
Pode ser prima, mas será antes de tudo amiga, companheira... de luta.
Um dia ela há-de calar muitas vozes.
Um dia será arte aquilo que escrevo.












 Créditos da imagem e ARTISTA aqui!

24 de dezembro de 2014

FELIZ NATAL MEUS AMIGOS!!!

 

 
Já tenho a mesa posta.
Arranjei duas sapateiras gordas e dispus os camarões pelas travessas.
Parti uma broa muito amarelinha e cozi 24 ovos que descasquei com uma proficuidade só ao alcance de algumas mulheres. Poucas.
Já descasquei os alhinhos e lavei as couves. Belas couves.
As filhós pelas quais esperei todo o ano já estão empilhadas. 
As minhas rabanadas estão escondidas na dispensa. Tenho medo que venha uma rabanada (de vento) e as leve misteriosamente. 
O Natal prepara-se e segue o seu curso.
O meu Natal deste ano tem rabanadas de pessoas.
O Natal são as minhas pessoas com rabanadas de conversas e rabanadas de risos. 
O Natal sou eu e vocês, e a Uva Passa.
A Uva Passa passa aqui para desejar a todos um Feliz Natal.
Um Natal grato e cheio, repleto de tudo o que o Natal tem de bom.
As rabanadas.
E a família.

Um grande, grande abraço.
Da Uva.
Meu.

23 de dezembro de 2014

Ronaldo-Erectus



Qual é a dúvida?
O algodão não engana.

Já a cera...

Filha no escritório 4# e fim!

Deu-se o caso de não ter trazido a marmita hoje, que a coisa tem de ser feita a preceito, e não é todos os dias que trazemos a filha para o Rule of Law.
O almoçarelos hoje foi a duas, num restaurante aqui da zona.

- Mamã, pliz, leva-me ao McDonald´s!! Vá lá, vá lá, vá lá!
- Perto do trabalho da mamã não há, mas levo-te ao Great American Disaster que é infernal mas servem hamburgas e peixinhos panados com batatas em linha. Pode ser?

É um orgulho sair do escritório com uma filhinha tão bonita pela mão. 
Não levava as pernocas enfiadas numas meias até ao joelho, porque constipa-se nas pernas (e não gosta lá muito de saias), mas levava uma camisola linda, cinzenta clara, com uma estrela de brilhantes no meio, muita gira, onde aflorava (na golinha) uma camisinha branca toda ela bordada à mão, por uma máquina nossa conhecida. 
Para pandant, umas jeans pretas bem justinhas e uns ténis-bota muito dos altamentes, que dão aquela impressão que os miúdos só têm pés... mas a filhinha é dona de uns olhos azuis do tamanho do mar e a coisa lá disfarça. Um ganchinho lateral em renda, oferta da avozinha, e os dedos todos tisnados de tinta verde e preta, fruto do trabalho no escritório, completavam o ramalhete.
E pés ao caminho, em direção ao restaurante.

Pepsi? Check!
Douradinhos? Check!
Batatas em linha? Check!
Boa disposição? Check!
Grande risota o almoço todo? Check!
Queres um geladinho? Check!
Com uma bola de chocolate? Check!

MLLLLL!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Cuidado!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Uma bola de chocolate inteirinha na camisa bordada à mão, a escorrer pela camisola cinzentinha, tão gira que dói, passa pela estrela de brilhantes e diz olá, despedaça-se toda nos jeans justinhos e cai toda esmolengada justo em cima dos ténis-camurça? Check!


Filhinha no escritório = The Great Rule of Law Disastre.
What else?

Para o ano há mais.

Filha no escritório #3

ML?????
MLLLLLLLLLLLLLLLLL????
Mas onde é que se enfiou agora a miúda?
- Olá, desculpe, viu a minha filha?
- Vi! Foi com a TJ distribuir o correio ao 1º andar.
- Sacana...

(...)

TJ entra-me no gabinete.

- (Muito alegre) Uva Passa????? Não sabia que tinhas um blog. É sobre quê? A minha cunhada também tem um, mas o dela é sobre costura! Que máximo! Mostra lá, é de receitas não é? Uva Passa, só pode!
- (Muito amarela) Ò filhinha, a mamã não tinha combinado contigo... hum?
- (Muito vermelha) Mas mamã, a TJ só perguntou se eu sabia escrever, e eu só lhe disse que tu é que eras a escritora........ também disse que o pai fazia desenhos... faz mal?


Não filhinha, faz agora mal, mas podes pedir ao pai para desenhar um buraco?
Dos grandes?

Filha no escritório #2

Já afiou, frenética, 15 lápis desses caríssimos que só servem a CEO´s e CEE´s em dias de closing.
Já carimbou, com o carimbo da data, praticamente uma resma de folhas que havia de lhe dar para todo o dia.
Já pôs o tablet com uma musica manhosa da Violeta a soar em altas berrarias que só ninguém ouviu porque estão todos de férias.
Já errou em duas contas de somar quando lhe perguntaram quantos éramos à mesa do Natal.
(...)

A chegada do Sr. Dr:

- Olá bom dia!!! Então tu é que és a ML? És muito bonita. Estás a gostar de estar aqui com a mamã?
- Não, isto é uma grande seca. Mamã, podemos ir embora?

Filha no escritório #1

Venho aqui dizer às escondidas, enquanto a pequena 'ajuda' a menina das fotocópias, que até agora, e contando que nos primeiros 45 minutos andámos a conhecer os colegas e as instalações, que ainda só disse à menina do departamento de contencioso que a mamã não era loira!! e que achava muito mal ter uma fotografia na Uva Passa com uma franja e um cabelo que nem era dela...

Criança no escritório no último dia de trabalho - 1
Mamã no escritório numa grande carga de trabalhos - 0

Mais novidades no decorrer da manhã.

22 de dezembro de 2014

Just another (special) day in the office.

Estou em pulgas. 
Mais do que ela, que fala no assunto desde que entrou de férias.
Ela é uma criança super descontraída, que vai ser ela própria, vai rir e sentar-se ao colo de toda a gente, vai dizer que a mãe tem um blog e desmontar o mais sinuoso e tortuoso segredo quer alguma vez tive de esconder. Vai dizer que a mãe aquece os pés num saco de água quente e que grita com o pai se ele deixa as migalhas na toalha. Vai dizer com o nariz colado no nariz do Sr. Dr. (que é assim que faz quando conta as coisas proibidas) que a mamã às vezes fala sobre ele mas que lhe pediu para não contar. Vai de certezinha deixar escapar que o cabelo da mamã é na verdade preto, igual às sobrancelhas, e que às vezes fica laranja quando se engana nas tintas. Com sorte ainda lhe conta que é o pai que lhe pinta as unhas dos pés e que lhe corta o cabelo, aos domingos, quando o Benfica não joga. Vai dizer que a avó nunca se penteia com a escova e que às vezes tem nódoas na camisola, e vai dizer que o avô já lhe deu uma palmada e que ela nunca, nunca! lhe fez nada e que só por isso é que toda a gente deve ficar a saber as maldades que ele faz, como por exemplo andar a apanhar ameijoas na Lagoa sem os polícias saberem. Isso e que passamos o verão todo a comer caracóis. Ahh, e que ela só come douradinhos e deita-se sempre muiiiitoooo tarde.
Ai que vergonha quando lhe perguntarem se já sabe ler e ela, muito depressa, a responder que já sabe ler desde a primeira classe e que a mãe, coitadinha, só aprendeu a ler na segunda. 
E vai perguntar ao Senhor Dr. porque é que ele não deixa a mamã sair a horas de a ir buscar, e se ele não sabe que as senhoras tem afazeres em casa. 
E vai espetar aquele dedinho, ó se vai, que eu bem a conheço, se descobre que matamos uma centena de árvores por dia para imprimir emails. 
Estou eu mais em pulgas do que ela.
Mas ela é uma criança super descontraída que vai adorar passar o dia com a mãe no escritório, a ver fazer as coisas que a mamã faz, muito complicadas e muito demoradas, que lá na imaginação dela são de suma importância para todos nós... só que não...
Mamã, o que é o teu trabalho? Hum.... Hum...
Só espero que não peça presentes de Natal a todo o departamento financeiro ou dinheiro para o mealheiro, que isso sim, seria o descalabro e a vergonha da minha cara.
Amanhã será um dia especial no escritório.

Amanhã pequena terrorista invadirá o Rule of Law!!!!
Cuidado!

O Natal é isto. Imaginação e Superação


Ele nas letras. (Fernando Pessoa)
Ela na voz. (Maria Bethania)

Não deixem de ouvir.
Vale muito a pena.



Poema do Menino Jesus

Num meio-dia de fim de Primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu tudo era falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas -
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque nem era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E que nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!

Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o Sol
E desceu no primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.

Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar para o chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou -
"Se é que ele as criou, do que duvido." -
"Ele diz por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres."
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.


Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural.
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é por que ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre.
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.

A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontado.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo o universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens
E ele sorri porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do Sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos dos muros caiados.

Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.


Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.

Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)