Não sei porque me torturo tanto. Sei perfeitamente que não tenho capacidade para intervir na luta que se trava entre mim e o prato onde pousam, e que fica abandonado por todos, num canto da mesa de Natal.
Andei estes dias a passear pela casa, armada em distraída, e a deitar o olho ao prato.
Tapei-o, como se tapam os mortos.
Ninguém quer olhar para ali, basta-nos o vulto para saber o mal que para ali vai, o cheiro que aquilo deita, o gosto que aquilo tem.
Parecia uma doente psicopata com aqueles pensamentos estúpidos e binómios entre a gula e a culpa, ou então semelhantes aos que os tóxicos têm quando decidem deixar o vicio: 'só mais uma vez não faz mal, é a última.'
Mas a última, já se sabe, é só quando acaba, quando o prato fica vazio, os bolsos vazios, a culpa cheia e a gula esperneia...
Sei muito bem o que é isso de enfrentar a gula da comida, a gula do tabaco, a gula da leitura, da ginástica, do Bairro Alto, e de tudo o que levei até ao extremo.
Alargou-se o estômago, a cabeça só estava bem de pernas para o ar, e a
boca não se cansava de fumar.
E dançar? Dançar até cair. Ainda não me levantei.
E agora estou para aqui a sofrer.
De nada me vale ir beber um chá, ou meter os dedos à boca.
Já não me sai o binómio da cabeça, já não me sai a culpa da pele, e já não voltam as filhós para o prato.
Não sei porque me tentam se tudo o que aprendi comigo foi: se é para cair, há de ser em tentação.
Fogem-me sobretudo as palavras.
Fico aqui muito quieta a ver passar as linhas cheias de letras, cheias de significados.
Os livros trazem-me muito isso. O meu próprio silêncio. Calam-me as vozes da cabeça, que nunca se aquietam, e fico sossegada, e atenta, às vozes dos outros.
As palavras nunca são silenciosas, poderão dizer. Há até palavras más que se unem com outras palavras, para nos gritarem muito alto. E picam, e são duras, como pedras.
Mas gritam, e picam e apedrejam... para dentro.
Não se ouve nada, mas despertam sons.
Não cheiram a nada, as palavras, mas às vezes os odores que soltam são véus que nos envolvem como especiarias... de muitas cores.
Saber ler é também saber escutar, cheirar e saborear.
Ler é o sexto sentido.
A arte a sexta cor.
Não sou artista e talvez por isso tente fazer com as letras o que alguns (me) fazem com a arte.
Por isso leio livros, mas fogem-me as palavras, para escrever, criando.
Não me entristeço porquanto os livros são artistas e ler também é arte.
Mas gostava mais de ser artista, e por isso, a pouco e pouco, vou criando a minha obra.
Pode ser prima, mas será antes de tudo amiga, companheira... de luta.
Um dia ela há-de calar muitas vozes. Um dia será arte aquilo que escrevo.
Deu-se o caso de não ter trazido a marmita hoje, que a coisa tem de ser feita a preceito, e não é todos os dias que trazemos a filha para o Rule of Law.
O almoçarelos hoje foi a duas, num restaurante aqui da zona.
- Perto do trabalho da mamã não há, mas levo-te ao Great American Disaster que é infernal mas servem hamburgas e peixinhos panados com batatas em linha. Pode ser?
É um orgulho sair do escritório com uma filhinha tão bonita pela mão.
Não levava as pernocas enfiadas numas meias até ao joelho, porque constipa-se nas pernas (e não gosta lá muito de saias), mas levava uma camisola linda, cinzenta clara, com uma estrela de brilhantes no meio, muita gira, onde aflorava (na golinha) uma camisinha branca toda ela bordada à mão, por uma máquina nossa conhecida.
Para pandant, umas jeans pretas bem justinhas e uns ténis-bota muito dos altamentes, que dão aquela impressão que os miúdos só têm pés... mas a filhinha é dona de uns olhos azuis do tamanho do mar e a coisa lá disfarça. Um ganchinho lateral em renda, oferta da avozinha, e os dedos todos tisnados de tinta verde e preta, fruto do trabalho no escritório, completavam o ramalhete.
Uma bola de chocolate inteirinha na camisa bordada à mão, a escorrer pela camisola cinzentinha, tão gira que dói, passa pela estrela de brilhantes e diz olá, despedaça-se toda nos jeans justinhos e cai toda esmolengada justo em cima dos ténis-camurça? Check!
Filhinha no escritório = The Great Rule of Law Disastre.
What else?
ML?????
MLLLLLLLLLLLLLLLLL????
Mas onde é que se enfiou agora a miúda?
- Olá, desculpe, viu a minha filha?
- Vi! Foi com a TJ distribuir o correio ao 1º andar.
- Sacana...
(...)
TJ entra-me no gabinete.
- (Muito alegre) Uva Passa????? Não sabia que tinhas um blog. É sobre quê? A minha cunhada também tem um, mas o dela é sobre costura! Que máximo! Mostra lá, é de receitas não é? Uva Passa, só pode!
- (Muito amarela) Ò filhinha, a mamã não tinha combinado contigo... hum?
- (Muito vermelha) Mas mamã, a TJ só perguntou se eu sabia escrever, e eu só lhe disse que tu é que eras a escritora........ também disse que o pai fazia desenhos... faz mal?
Não filhinha, faz agora mal, mas podes pedir ao pai para desenhar um buraco?
Dos grandes?
Já afiou, frenética, 15 lápis desses caríssimos que só servem a CEO´s e CEE´s em dias de closing.
Já carimbou, com o carimbo da data, praticamente uma resma de folhas que havia de lhe dar para todo o dia.
Já pôs o tablet com uma musica manhosa da Violeta a soar em altas berrarias que só ninguém ouviu porque estão todos de férias.
Já errou em duas contas de somar quando lhe perguntaram quantos éramos à mesa do Natal.
(...)
A chegada do Sr. Dr:
- Olá bom dia!!! Então tu é que és a ML? És muito bonita. Estás a gostar de estar aqui com a mamã?
- Não, isto é uma grande seca. Mamã, podemos ir embora?
Venho aqui dizer às escondidas, enquanto a pequena 'ajuda' a menina das fotocópias, que até agora, e contando que nos primeiros 45 minutos andámos a conhecer os colegas e as instalações, que ainda só disse à menina do departamento de contencioso que a mamã não era loira!! e que achava muito mal ter uma fotografia na Uva Passa com uma franja e um cabelo que nem era dela...
Criança no escritório no último dia de trabalho - 1
Mamã no escritório numa grande carga de trabalhos - 0
Mais do que ela, que fala no assunto desde que entrou de férias.
Ela é uma criança super descontraída, que vai ser ela própria, vai rir e sentar-se ao colo de toda a gente, vai dizer que a mãe tem um blog e desmontar o mais sinuoso e tortuoso segredo quer alguma vez tive de esconder. Vai dizer que a mãe aquece os pés num saco de água quente e que grita com o pai se ele deixa as migalhas na toalha. Vai dizer com o nariz colado no nariz do Sr. Dr. (que é assim que faz quando conta as coisas proibidas) que a mamã às vezes fala sobre ele mas que lhe pediu para não contar. Vai de certezinha deixar escapar que o cabelo da mamã é na verdade preto, igual às sobrancelhas, e que às vezes fica laranja quando se engana nas tintas. Com sorte ainda lhe conta que é o pai que lhe pinta as unhas dos pés e que lhe corta o cabelo, aos domingos, quando o Benfica não joga. Vai dizer que a avó nunca se penteia com a escova e que às vezes tem nódoas na camisola, e vai dizer que o avô já lhe deu uma palmada e que ela nunca, nunca! lhe fez nada e que só por isso é que toda a gente deve ficar a saber as maldades que ele faz, como por exemplo andar a apanhar ameijoas na Lagoa sem os polícias saberem. Isso e que passamos o verão todo a comer caracóis. Ahh, e que ela só come douradinhos e deita-se sempre muiiiitoooo tarde.
Ai que vergonha quando lhe perguntarem se já sabe ler e ela, muito depressa, a responder que já sabe ler desde a primeira classe e que a mãe, coitadinha, só aprendeu a ler na segunda.
E vai perguntar ao Senhor Dr. porque é que ele não deixa a mamã sair a horas de a ir buscar, e se ele não sabe que as senhoras tem afazeres em casa.
E vai espetar aquele dedinho, ó se vai, que eu bem a conheço, se descobre que matamos uma centena de árvores por dia para imprimir emails.
Estou eu mais em pulgas do que ela.
Mas ela é uma criança super descontraída que vai adorar passar o dia com a mãe no escritório, a ver fazer as coisas que a mamã faz, muito complicadas e muito demoradas, que lá na imaginação dela são de suma importância para todos nós... só que não...
Mamã, o que é o teu trabalho? Hum.... Hum...
Só espero que não peça presentes de Natal a todo o departamento financeiro ou dinheiro para o mealheiro, que isso sim, seria o descalabro e a vergonha da minha cara.
Amanhã será um dia especial no escritório.
Amanhã pequena terrorista invadirá o Rule of Law!!!!