17 de junho de 2015

Genial





Pulseira bóia salva-vidas.
Para quem olha, pensa que é uma pulseira normal, de elástico, mas na verdade é uma bóia salva-vidas.
Isso mesmo, basta dar um puxão que ela infla, transformando-se em bóia.
É genial. Sobretudo para as crianças.
Não entendo este mundo, tão evoluído para umas coisas e tão atrasado noutras.

15 de junho de 2015

Wunderbar!!!

Cucu!
Ahhh pois é!
Voltei.
E gostava muito de vos dizer que voltei fresca que nem uma alface, mas de acordo com as loucuras que decidi impingir ao meu corpinho, voltei podre que nem uma batata.
Sou por estes dias uma Uva Pisada, o que assim de repente me parece muito pior que ser uma Uva Passa.
Venho tesa que nem um carapau do país onde não comi um único peixe, mas venho cheia de experiências boas que tive o privilégio de viver e venho sobretudo mais magra, embrulha!, apesar de ter comido carnavança que dava para alimentar uma vara de porcos omnívoros e de ter bebido Kölsch que nem uma alarve alcoólica, que foi aliás no que me tornei, hic.
A Alemanha é um país soberbo e de soberba. Faz lembrar aquela anedota do 'tudo à grande' e quando damos conta em vez de irmos fazer um pipi caímos dentro da piscina, julgando que até a sanita é de dimensões generosas. Mas esta soberba de que falo não é a soberba-má, não, esta não é apenas jactância hostil, esta é apenas a soberba capacidade de respeitar o equilíbrio da natureza com a forte industria.  Cada paisagem, cada ponte, cada recanto do imenso vale que bordeja o Reno se multiplica em milhões de árvores e arbustos, num verde cerrado, bem tratado e absolutamente imponente, que nunca vi em parte alguma, onde a cidade respeita a natureza e não o contrário. 
E os maquinões que aquela gente tem? Credo!
É tudo a acelerar em brutas máquinas (a AUDI no top de vendas e não vacila) sem limites de velocidade, e sem Imposto Automóvel, por aquelas autoestradas que parecem um fio de água serpenteando na densa floresta, tão rápidos e ao mesmo tempo tão elegantes que mais parecem uma princesa muito rica quando entra roçagando um belíssimo vestido no salão da sociedade.
Loiras? Nem vê-las. Andava lá eu e pouco mais. A cidade de Colónia, ultra-metropolitana, ultra-atual e civilizada, tem uma tal mistura de nações a correr-lhe nas veias que dificilmente se consegue identificar o alemão-alemão porque se calhar o loiro grandalhão que nos serve a bica a 1,98€ (cruzes, vão mazé roubar para estrada) é afinal ali de Odivelas.
O meu poiso foi em  Mülheim mas não me fiquei por lá muito tempo; apenas o suficiente para pegar na bicicleta, o meio de transporte de excelência daquela gente magra e de músculos tonificados, que faz razias incríveis aos transeuntes que ousam usurpar as ciclovias com as suas maratonas diárias e muito pouco participadas.
Fiz 15 quilómetros em cima de uma bina. E duas nódoas negras no rabo.
Foi um dos passeios mais maravilhosos que fiz. Pensei que morria, senti o mesmo no avião, mas afinal cheguei sã e salva. Quem diria.
Nas lojas tudo muito moderno, e caro. Se uma bica ou uma cerveja básica custam perto de dois euros, imaginem um par de sapatos. 
Comprei umas sandálias. Giras que dói. Mas acho que já estava bêbada.
A Zara às moscas e a Primark apinhada de gente. Nisso da moda não me venham com coisas que a nossa é bem boa e barata; é que nem vale a pena sair para a estranja só para ser depenado, quando aqui com duas penas a coisa serve, e fica a matar. E ninguém nos bate quando as pernas ficam bronzeadas e pomos um vestidinho de flores.  
Nas ruas impecavelmente limpas, ergue-se uma cidade tremendamente cultural. O meu pescoço ainda me dói de tanto olhar para o casario.
Foram só 1200 fotografias. 
Gostava muito de vos mostrar tudo o que vi, mas acho que adormeciam. O meu pai adormeceu e ainda ali está a dormir desde ontem. 
Vou só dizer-vos que num país onde há um imposto específico (que vem no recibo de vencimento) e que vai direitinho para a Igreja, a Catedral de Colónia faz jus a cada tusto que para ali é cuspido.
É linda, soberba, de tirar a respiração.
Eu ia morrendo, que ia, mas subi os quinhentos e muito degraus em caracol para lá chegar acima, paniquei quase no topo com uma crise brutal de vertigens, mas consegui chegar, e quando finalmente desci e entrei na nave central, os meus olhos não acreditaram no que viam. Os vitrais. Meus senhores que vitrais.
Vi muita coisa nova e diferente, e fiz uma coisa que nunca tinha feito.
Desliguei o telefone na sexta feira e só o liguei ontem ao fim do dia. 
Ligo-me agora novamente a vocês.
Deixo aqui as melhores recordações. 
Para o ano há mais.





















5 de junho de 2015

Partir

Amanhã viajo para Colónia, numa viagem que demorei 38 anos a decidir. Ainda estou indecisa se foi boa a decisão. Imagino muito como será chegar ao aeroporto e abraçar o meu primo Georg, que lá vai estar sozinho embora acompanhado do seu inglês quase chinês, e mais tarde abraçar a prima Carmen, que está numa excitação e num grande entusiasmo por ser eu a primeira pessoa da família não nuclear que a visita no seu país emigrante.
És a primeira pessoa da família que vem a minha casa. Esperei toda a vida por isto. Só acredito quando chegares.
Por isto já valeu a pena a decisão de partir, mas só se conseguir chegar ao destino.
Não tenho uma curiosidade especial pela Alemanha; de todas as viagens que consegui fazer nenhuma delas esteve alinhavada para a este destino - é fria, é enorme e ainda apanho uma corrente de ar, não entendo patavina da língua e era bem capaz de me perder, são todos loiros como o meu pai e têm pêlos no sovaco, bahh -, aliás, fui sempre adiando a possibilidade de lá ir, ora porque me vinham visitar anualmente e sem falhas, por alturas do verão, ora porque houve um tempo de silêncio, algo longo, um nó apertado, que acabou por se desfazer e que nos permitiu a todos voltar a fazer o laço, agora mais perfeito, mais maduro e mais resistente, da amizade.
Não irei visitar a Alemanha, não vou sedenta de cultura como é meu apanágio, não vou carregada de mapas e trípticos e guias com os locais mais bonitos da cidade, nem sei sequer que sapatos irei usar para lá caminhar. Vou para visitar as pessoas que vivem emigradas e dependentes da Alemanha há já 3 gerações e que nunca receberam a visita da família.
Os meus primos mais velhos (mãe e filho) têm um restaurante no centro da cidade, que se puder vos darei a conhecer. Não sabem que eu vou. É surpresa. Talvez não reconheçam logo a minha cabeça loira banal, a cabeça overbooked, a cabeça corriqueira. Quererão oferecer-me, delicadamente e com mestria, um grande camarão frito ou talvez um bife de vaca mal passado. O alemão perfeito, moldado ao longo de mais de cinquenta anos, ficará a pairar por cima da mesa à espera de resposta, até que eu, com a minha sonora e lisboeta gargalhada, o afaste para bem longe para dar lugar à frase que me vai por a raiz a descoberto: desculpe, vim para comer caracóis. Traga-me uma travessa bem cheia, quentinhos, e se possível uma imperial bem fresca. Ouvi dizer que neste restaurante se escondem os maiores fãs de caracóis de toda a cidade. É assim?

Hoje, no caminho que vem dar ao escritório, surpreendi-me a pensar que se esta fosse efetivamente a última vez que caminho, o que aconteceria aos que continuam a caminhar.
Não é decerto um bom pensamento, mas para quem é, como eu, agarrada às coisas terrenas, e também aos meus sonhos, não há como escapar ao pensamento mais definitivo.
Faço um esforço muito grande, envolto no medo que sinto por me expor aos perigos de uma caranguejola que voa, e penso: a vida é frágil, tudo é desconhecido.
Esta é só mais uma viagem.
Se cá não voltar, deixem de vir, porque tudo na vida passa.
Até a Uva Passa.








Créditos das imagens e Artista : Adam Martinakis - adamakis.blogspot.pt


Born in Lubań, Poland in 1972 and is of Polish and Greek descent.
Moved to Athens, Greece in 1982.
Studied Interior Architecture, Decorative Arts and Industrial Design in Athens.
Since the year 2000, has been working and experimenting on Computer-generated visual media
(3d digital image/rendering - animation, digital sculpture, digital video, new media).
Had been teaching digital arts & design, graphics, interior design and ceramic design in many art institutes.
Member of the Greek Chamber of Fine Arts. In cooperation with Wanda Print for selected commercial projects.
Lives and works in Poland, Greece and the UK.

4 de junho de 2015

Esta coisa de andar com o coração nas mãos começa a ser maçador


Pois é.
Resolvi mudar de banco. 
Ouvi (e li) umas notícias manhosas, a malta amiga move-se in mysterious ways em certos departamentos da banca, a malta manda sms a dizer coisas do tipo tu põe-te a pau que aquilo está a definhar, a malta percebe que entre ser pobre e ser miserável vai um fim de semana de diferença, a malta tem presente que o BES era um paquete de luxo mas afinal era um submarino roto, a malta sabe lá o que se passa nos cofres das agências bancárias, fechadas a sete chaves, mas que têm grandes buracos nas traseiras, no chão e nos telhados, a malta sabe lá se anos e anos de poupanças, dificuldades várias e discussões horríveis sobre a temática da fonísse aguda, se debates insanos sobre para que queres o dinheiro no banco, amanhã morres e os outros é que mamam, a malta anda num stress absurdo só de pensar que ai meu Deus se me levam os tostões então é que dou um tiro nos miolos, a malta não tem pais ricos, aliás os pais usam exatamente o mesmo banco, e a malta passa muito mal as noites, e os dias, e as tardes, e no fundo a malta nem come.
Pois é.
Resolvi mudar de banco. 
Acontece que da resolução à tirada final dos muitos milhões (de moscas) que lá tenho, vão cinquenta e três impressos, milhentas assinaturas, quarenta e duas escolhas de aplicações, oitenta e quatro tipos de depósitos, mas não vá, olhe que não, isto é sólido, isto é uma rocha, olhe que são as más línguas, fumaça de invejosos, as eleições, venha cá, não se vá, ó senhora, ó senhora, e enfim, com esta merda toda, raisospartam, ainda lá tenho a massa toda.
Ando nisto há 3 semanas. 
Fosga-se! Mudar de banco é mais difícil que um divórcio litigioso, caramba.

Hoje de manhã, depois de mais uma dentada da gata na orelha esquerda, anda cá que eu dou-te cabo do canastro, desgraçada!, levanto-me claudicante a caminho da cozinha, e vejo horrorizada uma frase a passar no rodapé do telejornal a piscar a piscar a piscar, feita louca, tudo num alvoroço, luzinhas por todo o lado, as pernas a tremer, uma coisa estranha no coração, foi hoje, ai tu queres ver, tou fodida, tive semanas para preparar a fuga e não fugi, que anormal, que anormal, os meus óculos, os meus óculos, onde é que eu pus os meus óculos, a gata agarrada com unhas e dentes à minha perna direita, e eu quase quase a desfalecer, o meu dinheiro, o meu dinheiro, O MEU DINHEIROOOOOOOOOO!!!!!!!!!!!
Sentei-me, a gata acalmou, meti as cangalhas e olhei para a televisão, vencida.
Notícia de Última Hora: Jorge Jesus no Zeborting.

Até me tremeu a passarinha.

3 de junho de 2015

Estou tão na moda, credo!

Malas pequenas e coloridas, Melissas, e a Amiga Genial da Elena Ferrante. 
Que mais quereis de mim?
Ahhh, quereis um pezinho bronzeado para não parecer que morri e que este é o meu pé congelado, não é? 
Já não se usa! Agora, e já vos disse, a moda são as malinhas pequeninas, os livros da Elena Ferrante, Melissas a cheirar a chiclete, e pés branquinhos para comprovar que não somos umas campónias agrícolas acabadas de vir da vindima com os pés todos tisnados.
Vão por mim.
A Uva é que sabe destas coisas de usar qualquer pretexto para bezerrar no trabalho moda.


E.L.M:
Só é pena é serem 17.00h de um dia normal de trabalho, ocasião periclitante para escrever sobre impudências femininas, enquanto 200 pessoas trabalham afincadamente, e sem parar desde as 7 da matina,  para fechar um negócio das arábias malditas, enquanto a Uva diabólica e sem coração, se esconde na biblioteca para ler só mais umas tirinhas do livro e tirar fotografias de pertences super mega fashion, para postar no blog. 
Acho isto muito injusto e se não fosse esta tropelia inaceitável aos colegas de trabalho, era capaz de ser uma tarde perfeita.

***
Este post é totalmente patrocinado pela respetiva Entidade Patronal.

O problema é este

Tenho o coração aos saltos.
Não.
Tenho o coração confinado a um espaço minúsculo, e ele, coitadinho, bem quer bater, bater, bater, mas eu não o deixo. Ou antes, a minha paranóia selvagem não o deixa. A minha paranóia selvagem tem o meu coração esborrachado, amassado, esmagado, no meio dos dedos.
Oiço vozes dentro da cabeça e fora da cabeça, tenho arrepios de frio, afrontamentos, estou num estado catatónico tal que hoje de manhã fiquei parada no meio da rua a pensar que talvez não me safasse desta.
Esta noite sonhei com um avião envolto em chamas e em fumo, que fazia um rasgo sinistro no céu, e se despenhava. Eu vi-o a cair e achava que estava lá dentro. Coitadinha de mim, vou cair e daqui onde me encontro não posso fazer nada. 
Acordei com uma valente dentada da gata na orelha esquerda. Fiquei feliz por ter uma gata que me morde as orelhas furiosamente para eu acordar. Deito sangue. É um sinal.
A gata tem mesmo de ser internada numa instituição de correção de menores.
Ontem a minha filha dizia-me:
- Mamã, como é possível ainda não teres as malas feitas???!!! Vais partir no sábado de manhã e nem sequer começaste a preparar as coisas! Que horror!! 
Vais partir, vais partir, vais partir....
Foi só o que ouvi a miúda dizer e o cérebro parou e ficou ali a ranger, e os dentes também, completamente balhelhas, a perder a tineta da realidade. Vou partir, vou partir, vou partir.
Credo! Estou completamente horrorizada. Há tanto tempo que não ponho os pés num avião, que já não me lembrava do medo que me dá fazê-lo.
Mas que ideia peregrina foi esta de ir para a Alemanha? Com um tempo destes? Tão bom para estar cá em Lisboa? Sobretudo com os pés na terra?
A última vez que andei naquilo foi para ir a Paris e a viagem foi toda ela a fazer grandes nódoas negras no braço da minha amiga, que coitada, já não me podia ouvir. Que barulho é este?! Ai que foi isto?! Ouviste agora?! Ai, falta muito?! Não achas que isto vai de lado!? Tens comprimidos para a asma?! Pedimos vinho?! Pedimos agora?! E se isto cair?!
Coitada, ficou mais cansada da viagem do que os quilómetros que palmilhámos a pé na cidade.
É já no sábado. 
Estou em pânico.

Vou partir, vou partir, vou partir.
Vou partir mas tenho esperança.
Que os trabalhadores da TAP façam uma grevezinha.
Para eu ficar aqui sossegadinha.

Ai!

2 de junho de 2015

É sobretudo um cansaço

Estarei de tal forma cansada que voz já não me doa?
Estarei já tão dorida que já nem voz tenha?
Quis custodiet ipsos custodes? perguntava Platão.
Quem vigia os vigilantes, quem vigia os vigias, quem guardará os guardiões, quem irá vigiar os próprios vigilantes e quem fiscaliza os fiscalizadores?
Platão respondia que para resolver o irresolúvel, deveria haver uma clara separação de poderes, não dando poder absoluto a ninguém, caso contrário desfazia-se a democracia e vencia a ditadura.
E é engraçado como o que era irresolúvel então continua irresolúvel agora. 
Numa estúpida e humilhante atividade conjunta, a  PSP de Portalegre e a Câmara respectiva, ensinam (e incitam) sem que ninguém as controle, um grupo crianças à violência.
Podiam ensinar a salvar pessoas em perigo, poderiam ensinar a importância do binómio, a paz, o respeito, a cidadania, mas não.
O que se passa, ou o que não se passa com as nossas forças policiais, com os nosso protetores, com o poder local e com qualquer outra força superior ao comum cidadão, não é a falha na separação de poderes, é sobretudo o abuso dos poderes, o descontrolo de quem exerce o poder sobre os que devem ter força, e a falta de alguém capaz de meter mão nesta gente demente que insiste em tomar conta de Portugal, à bastonada.
Doa o que doer.
Até que a voz me doa.
Ou não.


 Dia 3 de dezembro assinala-se o dia da pessoa com deficiência. fica a dica, PSP.

 

1 de junho de 2015

A criança que há em mim és tu que ma dás

**

- Cucu! Feliz dia meu amor.
- Ahhhhh sempre meteste a minha fotografia na Uva.
- Pois foi, não resisti em mostrar os teus olhos azuis!
- Mas já não sou assim, já não tenho olhos azuis mamã, agora são verde-mar e às vezes verde-água.
- Porque estás mais crescida e os olhos também crescem.
- Então porque é que os teus são sempre iguais? Já não cresces mais?

Cresço em ti ML, porque sabes, como ainda és criança, contigo renasce a cada dia a criança que há em mim. Eu ensino-te a ser mulher e tu ensinas-me a ser criança, e esta maravilhosa troca faz de mim a mãe-criança mais feliz do nosso mundo.
Estás tão crescida ML, e eu gosto tanto, tanto de ti, que os meus olhos já velhinhos só te querem ver crescer.
Um Viva! a todas as crianças pequenas e crescidas.
Feliz dia das crianças!
Feliz dia meu amor.

** Aqui a ML, irresistível, com 2 anos e os seus olhos azuis, pequeninos.

O FILHO DILETO - Hoje na UpToLisbonKids®

O FILHO DILETO

Certa vez perguntaram a uma mãe qual era seu filho preferido, aquele que ela mais amava. E ela, deixando entrever um sorriso, respondeu: "Nada é mais volúvel que um coração de mãe. E como mãe, lhe respondo: o filho dileto, aquele a quem me dedico de corpo e alma...

É o meu filho doente, até que sare.
O que partiu, até que volte.
O que está cansado, até que descanse.
O que está com fome, até que se alimente.
O que está com sede, até que beba.
O que está estudando, até que aprenda.
O que está nu, até que se vista.
O que não trabalha, até que se empregue.
O que namora, até que se case.
O que casa, até que conviva.
O que é pai, até que os crie.
O que prometeu, até que se cumpra.
O que deve, até que pague.
O que chora, até que cale.
E já com o semblante bem distante daquele sorriso, completou:
O que já me deixou...
até que o reencontre.
FILHO PREDILETO
- Erma Bombeck -

Os filhos diletos, os tais que se estimam de maneira preferencial, os preferidos, os que abraçamos primeiro, ou aqueles que ocupam uma área maior no coração, existem, e as mães sabem-no.
Talvez o tema que hoje trago seja o último tabu da maternidade, talvez seja mesmo o único tabu da maternidade, mas em mim, que me quedo sozinha numa relação maternal, que nunca disputei a barriga da minha mãe, o amor da minha mãe, a atenção da minha mãe, por não ter obviamente com quem a disputar, encontro diferenças substanciais quando observo as mães nas suas ambíguas escolhas, que nunca são por falta de amor, quando têm dois ou mais filhos.
Não é possível ter ou sentir duas vezes a mesma coisa, da mesma maneira. Gostar igual não é possível, nem é medível, tão pouco afirmado, e no entanto há tanta gente a dizê-lo que quase se tornou verdadeiro. 
Mas é falso.

Nasci no seio de uma família matriarcal, de muitos irmãos. 
Tive por isso muitas oportunidades de verificar, com bastante certeza, as preferências da matriarca, e seria capaz, sem falhar um nome, de elencar por ordem de preferência, os filhos diletos da minha avó.
Nem ela, que foi tantas vezes confrontada, foi capaz de desmentir aos filhos, que sabiam de coração ser os menos preferidos da mãe, as preferências que saltavam à vista.
Houve um, por curiosidade o meu pai, que ocupou sempre o lugar cimeiro da extensa lista. 
No início, quando comecei a pensar no assunto, achava que por ele ser o único menino louro numa família de morenos, o tal que a minha avó ia lavar no Ribeiro da Levada, ‘coitadinho, sempre tão sujinho’ porque aos 5 anos já trabalhava longe de casa cuidando de perus, ou simplesmente porque tinha  o ‘olhinho azul como o avô’, pai dela, 'tão amigo de todos, homem bonito', suscitava nela uma ternura desigual, um afeto mais constante e uma atenção velada que não tinha pelos outros. 
Mas todos os filhos daquela mãe trabalharam em pequenos, e muitos deles em piores condições que o meu pai, e andavam igualmente sujinhos, logo, aquela razão não poderia ser a mais certa.
Depois pensei que por serem vizinhos, já em Lisboa, que a proximidade das casas os tivesse aproximado; mas enganei-me. O meu pai foi de todos os filhos, à exceção dos que estavam longe ou emigrados, o mais ausente. Não o via todos os dias como acontecia por exemplo com outros filhos e filhas, nem o meu pai vencia os irmãos nas atenções e carinhos à mãe, e no entanto, sempre que o meu pai chegava, os olhos pequeninos e muito alvos da minha avó abriam-se todos num abraço. O meu pai foi o filho dileto e nunca se encontrou o motivo.
A minha avó gostou sempre mais daquele filho, que não foi o primeiro e nem o último, que não era o mais inteligente e nem o menos inteligente, que não era o mais frágil e nem o mais forte, mas que era somente aquele que ela gostava mais, aquele por quem sentia mais afeto, o que melhor lhe calhava.
Mais tarde na vida, morreu uma filha à minha avó, e anos depois um filho. Ninguém poderá dizer o que sente uma mãe que perde um filho, e muito menos dois, mas ainda assim pude verificar que até no horror de perder os filhos as dores foram diferentes. Custou-lhe muito mais a morte do filho. O mais velho, o primeiro, um menino, e que predilecção tinha a minha avó por meninos. Demorou muito mais tempo a recuperar. Falava muito nele. A filha, mais arisca, mais ‘rebitesa’, não lhe enchia lá as medidas, discutiam, aborreciam-se, e talvez seja - nesta química de entendimentos, nesta fórmula desconhecida que nos faz amar alguém em detrimento de outro alguém -, que resida o segredo do filho dileto. 
O texto que nos escreveu Erma Bombeck é mais romântico que verdadeiro, é mais imaginário do que real, porque coloca-nos vários problemas.
Admite afinal que há um filho dileto, embora faça depender a predilecção em diferentes circunstâncias e tempos. Calha-se àquela mãe ter os dois filhos ao mesmo tempo numa situação complicada, em apuros, com fome, com sede, enfim, em qualquer necessidade que derretesse o seu coração de mãe, e tínhamos uma contradição; já não poderíamos estar a falar de filhos diletos porque o dileto só pode ser um, e não todos dependendo da situação.
Julgo que a dificuldade de aceitação da existência do filho dileto reside na escolha.
A mãe tem efectivamente um filho dileto, a mãe sabe exactamente de qual filho gosta mais, mas para a maioria das mães, é na escolha que reside o grande problema.
A mãe, por uma questão de natureza biológica e psicológica, inerente ao ser humano, é muitas vezes incapaz de escolher um filho quando se coloca a questão do salvar, no caso de ser obrigada a escolher. E é precisamente nesta questão que pensa quando lhe colocam a questão de qual filho gosta mais.
Qual dos filhos salvarias primeiro se apenas um pudesse sobreviver? O mais frágil, o mais doente, o menos inteligente, como diz o texto, ou o mais forte, o mais ágil, o mais arguto, o mais capaz?
Serias capaz de escolher por características colocadas no momento, ou a escolha há muito que tinha sido feita?
Diz-me, mesmo sabendo que não seria a melhor escolha: não escolherias o teu predilecto?
Nada na natureza se repete, nem em intensidade, nem na forma, nem no conteúdo. 
Gostas muito de todos mas dás-te melhor com o Miguel, que é mais parecido contigo no feitio. 
Não. Porque não dizes antes que gostas mais do Miguel porque te dás melhor com ele, e também gostas muito dos outros, mas é diferente?
Porque como mãe não podes criar neles essa insegurança, esse absoluto terror, essa luta entre irmãos pela disputa do amor de mãe, colocando em causa uma relação já de si tão frágil, e frágil por isso mesmo. 
Por isso mentes sobre o que sentes. 
E não faz mal. E não tem mal. 

A velhinha imagem que nos remete para a água que passa por baixo da ponte, utilizada para demonstrar que nada é nunca igual, e que nunca nada se repete, é a mesma que utilizo para demonstrar que uma mãe, mesmo que sempre imensa, sempre abundante, como a água da nascente, não consegue ter em todo o percurso a mesma força. Da mesma maneira que o leito do rio tem obstáculos que o impedem de ser sempre igual, assim os filhos, que com a sua personalidade impedem a mãe de os amar de forma igual.


Autor: Uva Passa Blog para UpToLisbonKids®
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