17 de março de 2015

O estranho caso da chave saltitona*

Capitulo um - Calma com o Andor
Capitulo dois - Dúvidas cor de Rosa
Capítulo três - A Mais Picante
Capitulo quatro - Mirone
Capitulo cinco - Pasme-se quem Puder

CAPÍTULO VI

A Avenida da Igreja acordou em sobressalto.
Um enorme e invulgar estrondo, que se ouviu para lá do INATEL, fez saltar os moradores da cama, que aquela hora ainda dormiam.
Cabum!!! 
E o som ensurdecedor ressoou pelas recantos adormecidos da Avenida, como se de repente um anjo muito gordo tivesse caído do altar.
A pouco e pouco, os estores corridos nas janelas, começaram a abrir-se um a um e várias cabeças curiosas se assomaram para ver o que se passava.
A visão era dantesca. 
As senhoras mais recatadas, religiosas ou púdicas, foram obrigadas a recolher-se aos seus aposentos, temendo represálias do padre Henrique, ou infernais eternidades, dando gritinhos histéricos e abafados pelas maõzinhas impías.
E por todo o casario que se entendia até ao fim da Avenida, a onda de choque foi atingindo famílias  de bem inteiras, debruçadas nas varandas, tentando, algumas em vão, descortinar a cena que ali juntava  tanta e tanta gente.
As crianças dos colégios muito caros, mas muito bons, levadas pela mão das avós maternas, a caminho da missa das 9, obviamente compostas nos seus laçarotes de bolinhas e meias de lã repuxadas até aos joelhos, apesar do frio gélido que se fazia sentir, largaram a correr para o local - rompendo uma educação esmeradíssima onde é totalmente proibido correr - e onde já se agigantava uma onda de gente. 
E a curiosidade reprimida durante anos nas crianças da Avenida, furou por entre a multidão de pescoços muito esticados, pernas muito depiladas, malas Pipa Coco, cãezinhos minúsculos e patéticos, ora envergando caxemiras, ora usando gravatas, indo estancar na clareira, nas boquinhas muito abertas, perante uma cena digna da melhor animação da Dreamworks, ali mesmo à sua frente, e justo em cima do carro da noiva.
Com efeito, um bairro inteiro reunido ao redor de um ex-Ford Cortina vermelho, preparado cuidadosamente pelo vizinho de Maria, pai de Elisinha, desde que se tinha anunciado o noivado na noite da Consoada, estava completamente despedaçado pelo peso do pecado.
Na Avenida da Igreja.
O noivo João, agora bígamo João, jazia nu, com uma chave misteriosa atenxada no rabo, agarrado a uma desconhecida, igualmente nua, que se tapava atabalhoadamente com um grande gato bêbado, que revirava os olhos e dizia miuaaaaaauuuuuu, esticando muito o pescoço.
Foi um espetáculo deprimente.
Aquela hora da manhã, num sábado frio de Março de 2015, onde à porta da igreja e vindos de todos os lados, sobretudo da Quinta da Marinha, do Lago, e de Cascais, se juntavam os primeiro convidados do casamento da Elisinha e do João, jazia agora, em cima de um tejadinho amolgado, o sonho de toda uma Avenida.
João já não casava nesse dia, e a noiva em pranto, que fora arrancada do sonho ainda com os rolos na cabeça, saiu disparada de casa, sem comer o seu pequeno almoço take away, delicioso, e correu louca para o local do crime, onde arrancou com um violento movimento, a chave do rabo de João, não sem antes espetar um valente estacasso em Maria, que faz assanhar o gato deixando assim à mostra a grande cicatriz no olho...

A última cena assistida pelo bairro outrora calmo, é uma noiva maluca, a correr Avenida fora, com uma chave nojenta na mão, até ser abalroada por uma carroça de ciganos que por ali passava a caminho do Estádio do Spórten, carregadinha de febras e entremeadas, naturalmente fora de prazo.

*NÃO PERCAM O TRAILER de apresentação da Palmier Encoberto e não deixem de acompanhar mais um episódio aqui, na Kiss and Makeup! e aqui no Amor Autista!
E já temos Capítulo nono no Talqualmenteoutro.
Quem dá mais?

16 de março de 2015

E depois há umas pessoas que fazem umas coisas...

... debaixo de água, que ultrapassa (e muito) aquilo que eu faço à superfície, com plenos pulmões, agarrada às letras desde os seis anos, e depois por mais dezanove, e sempre a dar-lhe forte e feio, até queimar três ou quatro pares de pestanas, senão mais, e mesmo assim, não conseguir alcançar, que já nem digo igualar, que isso seria ridículo, a perfeição em que mergulham certos artistas.

Mergulhemos pois no belo, caros leitores, e vamos mas é deixar as tretas de lado.
Vamos deixar esta constante imersão punitiva que nos corta a respiração, estas constantes interpretações erróneas que fazemos uns dos outros, o de achar que conhecemos o mar todo só porque mergulhámos lá a mão; vamos deixar de lado as perguntas persecutórias sem sentido, vamos afastar, desimpedir, como se faz com as pernas e com o louro,  as quezílias moralistas.
Não quero estar mergulhada até aos joelhos na minha própria jactância, não quero comprimir contra calças apertadas a ereção que me provocam as coisas simples da vida.
Porque vede, eu gosto das coisas simples da vida, não sou um ser alienado, estrelado, cheio de epifanias inteligentes todos os dias.
Não quero sucumbir a esta arenga enfadonha em que se tornou a vida, este ronceiro entrave à mudança.
Quero ser livre.
Quero ser simples.
Deixem-me mergulhar no azul e retirar o mais morto dos pesos mortos que me puseram nas costas.
A tristeza de ser só a imagem que fazem de mim.
Quero ser eu.
Apenas.





















Créditos da Imagem e ARTISTA aqui!

15 de março de 2015

Escrever é triste

Escrever é triste, oiço dizer.
Agora, por exemplo, quão triste sou por estar aqui novamente agarrada aos meus livros, às minhas letras? Sou triste porque escrevo, ou sou triste porque escrever é solitário?
E ser-se solitário, não é o mesmo que ser-se reduzido?
Não é a escrita redutora da nossa vida real? 
Não deixo eu de viver para dar vida a outros personagens; abandonando-me a mim, matando o meu eu, deixando de existir, deixando de viver a minha vida e a minha vida por viver? 
E deixar de viver, não é afinal tão triste?

Eu não escrevia antes das coisas sérias se imporem. 
Lembro-me bem de ter sempre que fazer, da minha insaciável mocidade, a alma agarotada, do engravidar de fora, do estímulo que ainda hoje considero o zénite da Humanidade, que é conviver, partilhar a vida, conversar.
Converso pouco e não estou sozinha.
Chego à infeliz conclusão que ninguém conversa. Falam educadamente, cada um na sua vez, mas em nada se tocam. 
Comunicamos. 
Comunico-te que fui ontem a Sintra visitar a Quinta da Regaleira, mas tu interrompes. Comunicas-me que também já lá estiveste e aniquilas a conversa que planeava ter contigo - e sobre o quanto me emocionei, e sobre o que penso de nem tudo estar perdido, porque temos ainda a natureza, também nos homens -, desbastas a conversa rasteira com o teu check in à Regaleira, ainda para mais primeiro que o meu, o verão passado. 
Quis dizer-te que há muito não passava pela Marginal, devagar, com o vidro aberto, a miúda lá atrás ainda presa na cadeirinha, cantando com hieróglifos ingleses a Pop dos Scissor Sisters, eu despertando aos poucos do submundo rotineiro e sombrio, olhando o Bugio e a Torre, ele com os seus óculos Ray Ban Clubmaster que lhe ficam a matar, e o quanto tudo isso me fez bem à cabeça e me trouxe um pouco mais de esperança. 
Cilindraste novamente a conversa com a tua experiência. A Marginal é um suplicio para chegar a Lisboa e o antigo Mónaco está uma ruína. Perco ali todo o animo de te emocionar. Eu vejo o litoral, o mar e a Torre, tu o interior e o casario doente. Eu falo de alhos, tu em frangalhos.
Para mim o melhor está para vir, para ti já aconteceu.
Da Regaleira nada de novo. Já lá foste, já sabes tudo. Temos as comunicações feitas e nem te importas em saber porque raio se fez tal coisa. A Regaleira. Tenho pena de não conversarmos sobre isso, mas não tem  mal nenhum; uso contigo a mesma expressão que utilizo no trabalho quando alguém se atrasa para uma reunião, 'não tem mal nenhum, atrase-se quando quiser, nós cá o esperamos, como sempre.' 

Afinal não é a escrita que me reduz.
O que me reduz é não encontrar um grande ouvido, uma orelha gigante.
Substitui-se a audição por outro sentido que não tem sentido nenhum, ou antes, tem só um sentido, que é o de chegar.
Comunico-te. Over. 
Não tem mal nenhum, porquanto o comunicado ainda se vai ouvindo.

Não sei ainda porque continuo escrevendo.
Talvez porque não me ouves.
Talvez porque estou triste.
Um dia, quando deixares de dar tanta importância ao check in que fazes constantemente na tua vida, e largares essa ânsia de chegar a todo o lado sem chegares a lado algum, vendo somente o caminho de cabras, esburacado, que te consome a paciência, me encontres ainda com esta vontade de falar sobre a Regaleira, e as margens, e para lá das passagens, e que regalo é, acima de tudo, conversar pelo caminho.

14 de março de 2015

Receita para lavar palavras sujas

Para lavar as palavras sujas, nada melhor do que esta receitinha brasileira.
Deliciosa.
Aqui vai ela.

Mergulhar a palavra suja em água sanitária. 
Depois de dois dias de molho, corar ao sol do meio dia.
Algumas palavras quando alvejadas ao sol, adquirem consistência de certeza. 
Por exemplo a palavra vida.
Existem outras, e a palavra amor é uma delas, que são muito encardidas pelo uso, o que recomenda esfregar e bater insistentemente na pedra, depois enxaguar em água corrente.
São poucas as que resistem a esses cuidados, mas existem aquelas que dizem que limão e sal tira sujeira difícil, mas nada.
Toda tentativa de lavar a piedade foi sempre em vão.
Agora nunca vi palavra tão suja como perda. Perda e morte na medida em que são alvejadas soltam um líquido corrosivo, que atende pelo nome de amargura, que é capaz de esvaziar o vigor da língua.
O aconselhado nesse caso é mantê-las sempre de molho num amaciante de boa qualidade. Agora, se o que você quer é somente aliviar as palavras do uso diário, pode usar simplesmente sabão em pó e máquina de lavar.
O perigo neste caso é misturar palavras que mancham no contato umas com as outras. 
Culpa, por exemplo, a culpa mancha tudo que encontra e deve ser sempre alvejada sozinha.
Outra mistura pouco aconselhada é amizade e desejo, já que desejo, sendo uma palavra intensa, quase agressiva, pode, o que não é inevitável, esgarçar a força delicada da palavra amizade.
Já a palavra força cai bem em qualquer mistura.
Outro cuidado importante é não lavar demais as palavras sob o risco de perderem o sentido.
A sujeirinha quotidiana, quando não é excessiva, produz uma oleosidade que dá vigor aos sons.
Muito importante na arte de lavar palavras é saber reconhecer uma palavra limpa.
Conviva com a palavra durante alguns dias.
Deixe que se misture em seus gestos, que passeie pela expressão dos seus sentidos. À noite, permita que se deite, não a seu lado mas sobre seu corpo.
Enquanto você dorme, a palavra, plantada em sua carne, prolifera em toda sua possibilidade.
Se puder suportar essa convivência até não mais perceber a presença dela, então você tem uma palavra limpa.
Uma palavra LIMPA é uma palavra possível.

Obrigada Rogério Pereira, foi um prazer descobrir Viviane Mosé.
Isto da poesia, para quem gosta de ler e de escrever, é incontornável, porque nada consegue dar melhor peso e significado às palavras, individualmente, do que a poesia. 

13 de março de 2015

Perdemos a sua mãe!

Que o nosso país está feito em fanicos, já não é novidade para ninguém.
Que há ladrões em cada esquina, e em cada esquina um malandro, também não temos disso dúvidas.
Mas quando alguém nos diz que o Serviço Nacional de Saúde (SNS) lhe perdeu a mãe, a coisa fica esdrúxula, o sobrolho encolhe-se, confina-se no meio da testa, o olhar assume uma expressão incrédula, e a boca abre-se num esgar pendurado de velha, muito ao jeito da que fez o Manel quando deu de caras com o primo Joaquim na cama com a sua Cidália.
Pior.
Esta é mesmo daquelas de pedir ajuda para meter os olhos para dentro.
O conselho que vos dou  é que se sentem aí numa banqueta, acendam uma porra qualquer que dê para fumar, e peçam a alguém aí das vossas ralações que vos ampare e ajude - mais na queda do que na qualidade de testemunhas - na compreensão da história que estou prestes a contar.
Vamos a ela.

Lurdinha, moça dos seus oitenta e muitos, pesada que só ela, levantou-se às cegas no meio da madrugada para mudar a água às azeitonas.
Teve azar, coitadita. Não bastava já a idade tolher-lhe a fraca musculatura, e agora também o tapete a pregar-lhe esta partida.
Da laje fria do corredor, foi direitinha para o hospital. 
Coisa feia, como está bom de ver, que um pé mirrado, e mesmo que não fosse, já não tem saúde para aguentar com tanta arroba de peso em cima.
A convalescença de Lurdinha, do ponto de vista familiar, iria doer muito mais do que um pé cheio de ferros. Lurdinha acamada, sem apoio domiciliário disponível, haveria de pesar mais à filha do que três alqueires de favas em cima duma burra velha.
Ai Doutora, não pode ser! Já viu o peso da minha mãe? E eu lá posso deixar de trabalhar?
O SNS é mau mas também não é líder de nenhum gang.
Albarda-se o burro à vontade do freguês, a Lurdinha é pobre, o SNS também, tornam-se amigos e a Lurdinha zarpa para um Centro de Recuperação ali numa encosta luminosa para os lados da Ericeira.
Ui! Coisa fina, tudo novo, parece mesmo um hotel. 
Lurdinha nas sete quintas, não fosse o pé escafiado, estava melhor ali do que em casa, a falar para o passarinho.
Problemas! Lurdinha, moça dos seus oitenta e muitos, pesada que só ela, começou a inchar, diz que de retenção de líquidos. Trouxa ensacada, mala aviada, cama desocupada e siga para o hospital.
Tinóni, tinóni, chega a Lurdinha ao hospital e toca de esvaziar a Lurdinha inchada como um balão. A coisa não é assim tão simples como dar uma passa, não, e a Lurdinha vê-se obrigada a passar 2 dias em esvaziamentos.
Ora, dois dias em esvaziamentos e demais tratamentos, vai totalmente contra as regras do Centro de Recuperação, e diz a clausula 10º do Regulamento e o restante regimento, que quem vai ao mar perde o lugar.
Estou sim? É a filha da Lurdinha? É só para lhe dizer que a sua mãe já está vazia e vai ter alta.  Está pronta para ir para casa.
Para casa? Mas se tem o pé todo escafiado, se está em tratamentos nas sete quintas, e ainda pesa três arrobas, ó por favor, resolvam-me a situação! Para casa é que não!
Nisto, a Lurdinha que não nasceu naquelas bandas, e foi pena, foi recambiada por quem trata dessas coisas, para outro hospital mais perto da residência.
A filha da Lurdinha, avisada que foi da transferência da mãe para um hospital perto de casa, foi visitá-la, na esperança de a levarem novamente para as sete quintas.
A D.ª Lurdinha? Ai sim sim, está quarto 45. 
Só que não. No quarto 45 estava uma Lurdinha, pois que estava, mas não era a nossa. 
O SNS perdeu a Lurdinha. 
A nossa Lurdinha, a velhinha do pé escafiado, afinal apareceu nos registos do hospital, mas com a indicação de alta, só que ninguém sabia para onde tinha sido levada.
Olha que isto é uma história macabra, perderem assim a velhinha.
E assim esteve Lurdinha, desaparecida na bruma 3 dias e uma noite.
3 dias e uma noite?
Não tenho conhecimento de processos estarem tanto tempo desaparecidos no CITIUS. 
Nisto, que a história já vai longa, lembrou-se uma amiga, já em desespero de causa, de ligar 'só por descargo de consciência' para as sete quintas da Ericeira, já a Interpol se espalhava por todos os aeroportos e fronteiras.
Ahhhh! Lá estava a Lurdinha, coitadinha, já muito mais magrinha, mas sem as suas cuecas. Nem o pijama era dela, pois se saira de mala aviada, é obvio que não tinha lá nada.
Claro que ninguém ligou para a filha da Lurdinha a informar que... para quê?
Larga-se a encomenda e siga para bingo!
E o Centro de Recuperação na encosta luminosa para os lados da Ericeira?
Ui! Coisa fina, tudo novo, parece mesmo o Hotel Califórnia.


Os últimos Ciganos Nómadas do Alentejo

The Dream Goes Over Time - Ciganos do Alentejo
O artista francês Pierre Gonord fotografou os últimos ciganos nómadas do Alentejo ao estilo de retratos pictóricos do barroco. 
Depois de já ter sido mostrado em 2013, em Évora, no âmbito da Trienal e em 2014 no Centro Andaluz de Fotografia, o trabalho está agora em Nova Iorque: na galeria Hasted Kraeutler. 
Muitas das fotografias tiradas por Pierre Gonord mostram, por um lado, a inclemência que a vida deixa nos traços faciais das pessoas, e por outro, o que estas pessoas, de traços sulcados pela vida, deixam no fundo em nós, e que vai, por diversos e insondáveis motivos, muito para além de traços.
Aqui, ciganos nossos, do nosso Alentejo.
Lá longe, em Nova York, um pouco de nós.
Belíssimo trabalho.























12 de março de 2015

E no dia em que eu estava disposta a abardinar isto tudo...

Preparei-me meses para isto.
No dia em que vesti o meu melhor feitio, calcei os meus melhores argumentos, revi, ponto por ponto, com estes olhos cansados e míopes, todas as situações em que me venho destacando, em que me venho superando*, e revi mentalmente, e já decidida, todas as expetativas que esperava encontrar num futuro próximo e risonho - pensava eu - relacionado com coisas cá da minha vida, havia de se dar este acontecimento.
Pois logo no dia escolhido como o supra ideal, em que eu havia de irromper por ali adentro e concretizar aquilo que impante aguardo há anos...

- Bom dia menina Uva! Está com um ar muito sério, então?
- Preciso de lhe falar, e ando há tempos para lhe dizer isto e hoje como....
- Então não se esqueça do que tem para me dizer. [e sentando-se pesadamente na cadeira, saca do bolso interior do casaco um misterioso envelope branco, fechado]
- Então gosta muito do Roberto Carlos, é assim?
- Gosto sim. Como é que soube? Os meus pais ouviam muito e a pessoa acaba por ficar com as músicas no ouvido. Sabe que ele vem cá, agora, em Maio e ...
- Então aqui tem. Ofereço-lhos eu!
E entrega-me o já-sem-mistério-algum envelope, contendo no seu interior nada mais nada menos do que o fim da minha nervosa expetativa.

O que é que aconteceu aqui, p'lamordedeus? 
R: Tanta produção para nada; há bilhetes que vêm por bem; sentido de oportunidade contra mim; intuição masculina; bruxaria; que se lixe que eu quero é buzinar o calhambeque?

Se eu podia agradecer muito a surpresa, a gentileza e a simpatia, que foi efusivamente retribuída, e da qual gostei mesmo muito, e na mesma abardinar isto tudo?
Podia.

(Se me perguntassem sobre a diferença de géneros, diria que se a oportunidade fosse dada aos dois, o género masculino teria abardinado isto tudo, e teria ficado com o sol na eira e a chuva no nabal. Já eu, e como diria a minha avó, cagou-me o gato na alcofa.)


* isto ficou aqui uma conjugação de palavras um tanto ou quanto sexual. Não era a minha intenção. Juro!

Esta malta do futebol está muito à frente não está?

Eu não posso dizer que não estou excitadíssima com o Euro 2016 e tal, montes de (mais) malta estrangêra aí a cirandar por Lisboa, e a entupir os canos da cidade com homens altos, loiros e de olhos azuis, iguaizinhos ao meu pai (credo), mas já aí andam a fazer publicidade por essa mailaria a fora, para uma coisa que só vai acontecer em outubro?

Bom, se calhar parvos é que eles não são.
Isto em terra de lesmas apáticas, quem tem duas pernas é Deus.
Eu cá merdas gourmet insonsas e de cor duvidosa, passo, agora se eles quiserem uns caracóis à maneira, estou na disposição de congelar duas ou três panelas cá das minhas e oferecer as cascas aos alemães.


11 de março de 2015

E a notícia sobre as novas medidas do Governo da Venezuela?

Aquilo é que é uma coisa bem feita, hem?
Parece que os meninos vão instalar 20 000 leitores de impressões digitais nos supermercados para limitar o consumo dos cidadãos, evitar o açambarcamento, e as compras descontroladas de bens essenciais.
A notícia é gravosa e pidesca, mas como diz e bem o nosso José António Abreu do Delito de Opinião, é só mais uma notícia que nos chega do 'outro lado do Atlântico'.
Só que não.
Aqui tão perto, se calhar mesmo aqui ao meu lado, comenta um senhor identificado, assim:

Limitar o consumo é virtuoso, de acordo com muitos economistas. 
Só com moderação no consumo se consegue poupar e somente a poupança permite o investimento que leva a um aumento da produção. Logo, a limitação ao consumo é absolutamente essencial, de acordo com muitos economistas.

E eu aqui tentada a perguntar aos meus botões, sempre tão consensuais nestas matérias, se este senhor identificado, está realmente em si, ou se comentou no Delito logo após um jantar de amigos, onde se consumiram, à fartazana, diversas e poderosas drogas recreativas.

Sem consumo não há crescimento, homem!
Veja lá isso, que de acordo com os meus botões, sempre tão consensuais nestas matérias, parece haver aí uma pequeníssima confusão.
Isso ou os seus amigos comunistas são uns fonas do pior.

Então temos mais uma petição não é assim?

O Simba, um Leão da Rodésia com cinco anos, foi abatido a tiro com uma Flober, no domingo, por um caçador profissional.
Disse o caçador profissional - que naturalmente se recolheu à sua insignificância com medo da turba popular - ao dono do cão, que não o matou, que os tiros foram para o ar e que 'já o tinha avisado'.
Ora cá está! 
Como toda a gente sabe, em Idanha-a-Nova os cães falam e entendem muito bem o português, especialmente o português dos caçadores de animais, armados até aos dentes com ingénuas Flober´s, e será caso para dizer que este cão, o Simba, abatido a sangue frio por um vizinho que falava com ele, não morreu na ignorância.
Foi avisado.
E cai por terra mais um estúpido ditado: quem te avisa teu amigo é.
Isto seria verdadeiro humor inglês, se não fosse mais um episódio de paralisante terror português.

Mas vamos lá observar o reboliço que se gerou nas redes sociais, logo após o dono do Simba ter publicado o sucedido, na sua página da internet.
14 mil cibernautas partilharam entre si o macabro incidente, e outros tantos assinam por esta altura a petição 'Fazer justiça pela morte do Simba'.
Dos comentários que li, a grande maioria 'dava um tiro nos cornos do caçador', 1/3 'atavam-no nu a uma árvore, cobriam-no de mel e chamavam um urso polar', alguns 'pegavam fogo à casa dele e a toda a família', e um outro, muito imaginativo, 'enterrava o homem vivo, juntamente com o cão, depois do o queimar com ferros incandescentes'.
Os mais calmos assinam a petição e cumprem desta forma o dever moral para com o Leão da Rodésia e seus donos, lavam as manitas, e saltam para a próxima notícia.

Perguntas gerais:
- O que leva um caçador profissional, munido de uma Flober, a um domingo de manhã, a disparar contra um cão meiguinho, dócil e brincalhão, que ainda por cima fala português, sem motivo aparente?
- O que faz um cão de grande porte, possante, um Leão da Rodésia, solto, sem trela e sem açaime, a passear-se no terreno de um caçador profissional, munido de uma Flober, já depois de ter sido 'avisado'?
3 - O que fazem, julgam que fazem, ou pensam vir a fazer, em consciência, pelo Simba ou pelos animais em geral, as 10.725 pessoas que assinaram até agora uma petição on line? Não é tanto o que faz a petição em si, mas o que fazem efetivamente as pessoas que se mobilizaram a assiná-la on-line?

Perguntas particulares:
- O que faz um imbecil, que julga falar com cães, munido de uma Flober e de uma licença para matar?
- Este mesmo imbecil, caçador profissional, tem ele próprio cães. O que fará este imbecil aos seus próprios cães?

Micro-Perguntas:
Quando é que o meu país punirá, com a mesma justiça, o crime de violência (doméstica, animal e ambiental) vulgo, homens que batem em mulheres, pessoas que maltratam animais e pirómanos que nos destroem ano após ano milhares de hectares de florestas?
Porque será que o crime prescreve em Portugal?

Para quando um Ministro da Justiça com eles no sítio?