Ao longo dos anos, e já foram muitos, visitei aquele lugar inúmeras vezes, em diferentes estações do ano e por diferentes motivos.
É o meu ex-libris sazonal. Não há nenhuma estação em que não vá espreitar a escarpa, que não ponha a moeda na capelinha, que não passe pela feira de corais.
O Cabo Espichel traz-me primeiro à memória o meu pai, que me levava ali a passear, umas vezes só nós dois, outras vezes com o carro cheio de primas e sobrinhas. Depois a minha mãe, toda em nervos, encolhida e cheia de medo, a rir-se no meio da perplexidade dos seus próprios devaneios e a dizer: que horror, que horror! se alguma vez me atirava daqui abaixo. E depois sozinha, quando finalmente pude meter as mãos num carro só meu, e me conduzia até lá, passava o túnel da igreja e estacionava corajosamente naquele terreiro, muitas vezes dando razão à pouca razão da juventude, com o vento quase a levantar-me no ar, e eu ali, fumando um cigarro-cometa, remoendo em pensamentos bravios, quase todos sem sentido.
Muito anos depois, embalada pelas melancólicas memórias, arrebatei com um beijo, ali mesmo, no terreiro ventoso, a pessoa que ainda hoje me acompanha, como eu tenho acompanhado aquelas escarpas. Corajosamente. E de braços abertos ao mar.
Foi assim que saímos no domingo. A casa silenciosa e a Lagoa envolta na neblina.
Quando o sol irrompeu, já dois destemidos se faziam ao caminho.
Lagoa de Albufeira - Meco (Praia da Foz) - Cabo Espichel - Farol, e regresso.
Recortámos a falésia, felicíssimos por nos vermos em aventuras, por nos vermos juntos, por termos entendido que o nosso casamento é e será sempre um constante desafio à rotina, à burocracia impositiva das tarefas, aos laços frágeis que se fazem e desfazem constantemente entre nós, e que a conquista diária do amor e da amizade que temos um pelo outro só vingará se continuarmos fazendo juntos aquilo que, em qualquer caso, faríamos sozinhos.
Corajosamente. E de braços abertos ao mar.
Obrigada miúdo, por termos conquistado isto juntos.
Bora pedalar para sempre?







