8 de setembro de 2015
Terminei de ler o Stoner de John Edward Williams
Não tenho jeito nenhum para isto. Só venho falar do livro porque me pediram muito.
E porque sou um amor de pessoa, muito sensível a pedidos desesperados ;)
O livro é bom, que é, mas, ao contrário do que dizem não é propriamente o melhor romance do século XX, e está longe, muito longe disso, apesar das partes comoventes e muito bem escritas.
Sobretudo a última parte sobre a sua morte. Muito bom.
Como sempre aconteceu, um mau tradutor pode despedaçar uma obra, e no caso de Stoner, pelo que me deu a entender, a tradutora trocou demasiadas vezes a palavra instantes (que devia usar) pela palavra minutos, o que fez com que os personagens perdessem imenso tempo (em minutos) a fitar-se, quando toda a gente percebe que se transferíssemos isso para a vida real, de cada vez, por exemplo, que Stoner ia visitar amante e a fitava durante vários minutos à porta, isso seria no mínimo estúpido, porque se ela era sua amante, ele deveria entrar na casa o quanto antes, porque ou era apanhado, ou morria de frio.
E Stoner fitava imenso as pessoas, durante longuíssimos minutos.
A posições dos personagens nas cadeiras ficaram estafadíssimas. Mãos entrelaçadas e ossudas são às pazadas, mas talvez seja normal as pessoas sentarem-se todas da mesma maneira.
E teria preferido uma Grace sentadinha com as pernas muito juntas para dar mais ênfase ali ao escândalo, ao invés de estar de pernas cruzadas para da 'a' notícia, mas entendo o ponto de vista do autor. A gaja estava-se totalmente a borrifar para ele.
Depois achei que o autor tinha ali conflitos do foro capilar e gostei de saber que nenhum personagem, e pela primeira vez num romance, possuía uma farta cabeleira cacheada de longos e brilhantes fios de ouro. Todos os personagens têm o cabelo fino, ora acachapado à cabeça (o termo acachapado é delicioso), ora enrolado sobre o crânio redondo.
E quase todos os homens tinham o crânio redondo e as mãos ossudas, no entanto teria gostado de ver o Lomax com uma ´cabeça de ovo' em vez da cara bonita. Afinal o gajo lixou-lhe a vida toda e merecia ser mais mal tratado além do termo aleijado que fica a pairar durante todo o romance em cima dele.
Querem conhecer a verdadeira megera, a verdadeira mulherzinha num casamento infinito? Leiam o Stoner. Até a mim me dava ganas de a estraçalhar, e depois a ele, por ser um fraco inepto na mão da bruxa.
Havia de ser comigo que eu contava-lhe uma historia assim:
Num dia quente de outono, Katherine esparramada em cima do sofá a fazer o seu inútil ponto de cruz, foi surpreendida por um som diabólico que se desprendia alguras por cima da sua cabeça. Morreu esmaga pelo piano que o marido tinha pendurado na noite anterior, no teto da sala, cuidadosamente, pacientemente, e com a ajuda da sua filha Grace, enquanto ela dormia profundamente no quarto do primeiro andar.
A consistência de algumas personagens não me seduziu por aí além, mas interessou-me e prendeu-me bastante a história (muito certinha com as datas e tal) e estive praticamente o livro todo com ganas de apertar o pescoço a toda a gente, ora a Stoner, ora à maluquinha, a todos, todos.
Deliciosas foram as cenas da lua de mel e da primeira relação sexual.
Vale a pena ler porque acredito que terá sido assim, durante milhares de anos, em muitos casamentos.
Aconselho.
Boa oferta para o Natal.
7 de setembro de 2015
Beatas not death!!
Li, na crónica de ontem da Helena Matos que vivemos de arrebatamento em arrebatamento e cada arrebatamento tem de ser mais arrebatado para compensar a anterior desilusão.
Pois temo que o próximo arrebatamento seja este, e será através deste que a crise se agudizará, se intensificará e se agigantará, como uma nuvem espessa e medonha por cima das nossas cabeças portuguesas.
Ao que nos é dado a conhecer, ou, ao que nos é transmitido pela comunicação social (mais perdida que a agulha no palheiro, e identicamente perigosa quanto esta), circula pelas redes sociais (ainda mais perdida do que a comunicação social, porque a primeira ainda tem um patrão), que os migrantes muçulmanos atiraram borda fora os seus companheiros de viagem, quando descobriram a sua religião. Cristãos.
Passo rapidamente os olhos pelas notícias (de abril, vejam bem) em cache, e o que se desenrola é mais ou menos o same as usual nestes meios de comunicação: circulam frenéticas várias petições para não aceitarmos migrantes em Portugal, devidamente acompanhadas de fotografias dos nossos sem-abrigo, das nossas criancinhas da Meia-laranja, dos números do desemprego, e há uma petição muito assinada a favor do regresso das Cruzadas (suponho que seja a velhinha Cruzada dos Nobres e a 10ª na generalidade), para nos defendermos da invasão muçulmana.
O que antes era o arrebatamento pelo sim, tornou-se de um dia para o outro, o arrebatamento pelo não.
Afinal, entre os buracos da calçada portuguesa, tantas vezes pisada e repisada, há ainda uma radicalidade religiosa que (tanto quanto me lembro) me foi dada a ler pela última vez num livro muito querido chamado A Morgadinha dos Canaviais, ou ainda em O Crime do Padre Amaro, mas que afinal não, e as diversas petições de teor religioso estão aí para me relembrar.
Na gaveta, claro, ficam as mil e uma petições pela aceitação e respeito pela tendência religiosa de cada um, contra a proibição do véu, a favor da liberdade de expressão - só que não, e contra... contra qualquer coisa, tanto faz.
Mas isso agora não interessa nada.
O que na realidade me interessa, e entristece, é que o que andamos a fazer desde há anos e que é tão somente isto: agredimo-nos uns contra os outros, dizemos coisas horrorosas uns aos outros, fazemos queixa a torto e a direito, ameaçamos tudo e todos com processos na justiça, sobre temas que hoje apoiamos e amanhã acarinhamos.
Pois temo que o próximo arrebatamento seja este, e será através deste que a crise se agudizará, se intensificará e se agigantará, como uma nuvem espessa e medonha por cima das nossas cabeças portuguesas.
Ao que nos é dado a conhecer, ou, ao que nos é transmitido pela comunicação social (mais perdida que a agulha no palheiro, e identicamente perigosa quanto esta), circula pelas redes sociais (ainda mais perdida do que a comunicação social, porque a primeira ainda tem um patrão), que os migrantes muçulmanos atiraram borda fora os seus companheiros de viagem, quando descobriram a sua religião. Cristãos.
Passo rapidamente os olhos pelas notícias (de abril, vejam bem) em cache, e o que se desenrola é mais ou menos o same as usual nestes meios de comunicação: circulam frenéticas várias petições para não aceitarmos migrantes em Portugal, devidamente acompanhadas de fotografias dos nossos sem-abrigo, das nossas criancinhas da Meia-laranja, dos números do desemprego, e há uma petição muito assinada a favor do regresso das Cruzadas (suponho que seja a velhinha Cruzada dos Nobres e a 10ª na generalidade), para nos defendermos da invasão muçulmana.
O que antes era o arrebatamento pelo sim, tornou-se de um dia para o outro, o arrebatamento pelo não.
Afinal, entre os buracos da calçada portuguesa, tantas vezes pisada e repisada, há ainda uma radicalidade religiosa que (tanto quanto me lembro) me foi dada a ler pela última vez num livro muito querido chamado A Morgadinha dos Canaviais, ou ainda em O Crime do Padre Amaro, mas que afinal não, e as diversas petições de teor religioso estão aí para me relembrar.
Na gaveta, claro, ficam as mil e uma petições pela aceitação e respeito pela tendência religiosa de cada um, contra a proibição do véu, a favor da liberdade de expressão - só que não, e contra... contra qualquer coisa, tanto faz.
Mas isso agora não interessa nada.
O que na realidade me interessa, e entristece, é que o que andamos a fazer desde há anos e que é tão somente isto: agredimo-nos uns contra os outros, dizemos coisas horrorosas uns aos outros, fazemos queixa a torto e a direito, ameaçamos tudo e todos com processos na justiça, sobre temas que hoje apoiamos e amanhã acarinhamos.
Afinal isto não são só blogs
Sobre isto que me está a acontecer, o BTT, o sair de casa, o fazer
exercício, o sentir de novo o vento na cara e acender no candeeiro tosco
da minha vida um lado que estava totalmente apagado em mim, sobre tudo
isto, só tenho uma história para vos contar.
Um dia, num blog, uma miúda fez uma pergunta simples, mas muito complexa, e convidou (veladamente) todos os que a seguiam, a responder.
A pergunta foi: qual foi a coisa mais bonita que já fizeste por TI?
E eu fiquei ali a matutar, e não consegui, na altura, chegar a nenhuma conclusão.
Caramba!
Fiz tantas coisas na minha vida que poderia enumerar um sem fim delas: os amigos, o amor, a ML... mas nenhuma respondia cabalmente, totalmente, globalmente ao 'TI'.
Fazer por mim alguma coisa realmente significante, gratificante, fazer-me feliz a mim própria, apaixonar-me pelas minhas capacidades, pelo meu corpo, por aquilo que posso fazer com ele, recuperar a juventude, a elasticidade e a força nas pernas, nos braços, nos punhos, desenvolver a audição, a atenção, a acuidade visual, o equilíbrio.
Dar um jeito novo ao destino, vencer os medos, e, finalmente, apreciar os meus próprios resultados.
Estou quase quase a responder à pergunta que me deixou quase quase sem palavras.
E procurei durante algum tempo uma resposta para ela.
A resposta (possível) é esta.
Afinal isto não são só blogs.
Obrigada Dias Cães pela pergunta mais importante que me fizeram nos últimos tempos (uma pergunta para pensar), obrigada Loira pela tua inspiração, determinação e enfim, aquilo que tu és, e obrigada Gaja Maria por me dizeres todos os dias que, apesar da vida ser cheia de pessoas que temos de cuidar, trabalho e stress, sempre podemos encontrar o tempo certo para cuidar de nós.
(Ainda sem força para a meter toda lá em cima... talvez para o ano, quem sabe - ia morrendo...)
Um dia, num blog, uma miúda fez uma pergunta simples, mas muito complexa, e convidou (veladamente) todos os que a seguiam, a responder.
A pergunta foi: qual foi a coisa mais bonita que já fizeste por TI?
E eu fiquei ali a matutar, e não consegui, na altura, chegar a nenhuma conclusão.
Caramba!
Fiz tantas coisas na minha vida que poderia enumerar um sem fim delas: os amigos, o amor, a ML... mas nenhuma respondia cabalmente, totalmente, globalmente ao 'TI'.
Fazer por mim alguma coisa realmente significante, gratificante, fazer-me feliz a mim própria, apaixonar-me pelas minhas capacidades, pelo meu corpo, por aquilo que posso fazer com ele, recuperar a juventude, a elasticidade e a força nas pernas, nos braços, nos punhos, desenvolver a audição, a atenção, a acuidade visual, o equilíbrio.
Dar um jeito novo ao destino, vencer os medos, e, finalmente, apreciar os meus próprios resultados.
Estou quase quase a responder à pergunta que me deixou quase quase sem palavras.
E procurei durante algum tempo uma resposta para ela.
A resposta (possível) é esta.
Afinal isto não são só blogs.
Obrigada Dias Cães pela pergunta mais importante que me fizeram nos últimos tempos (uma pergunta para pensar), obrigada Loira pela tua inspiração, determinação e enfim, aquilo que tu és, e obrigada Gaja Maria por me dizeres todos os dias que, apesar da vida ser cheia de pessoas que temos de cuidar, trabalho e stress, sempre podemos encontrar o tempo certo para cuidar de nós.
(Ainda sem força para a meter toda lá em cima... talvez para o ano, quem sabe - ia morrendo...)
4 de setembro de 2015
Parem o mundo!! que eu vejo tudo a andar à roda
Aqui e ali, um imenso azul onde apetece mergulhar de braços abertos. Logo mais acima, um remoinho de nuvens densas impedem-nos de ter certezas quando ao que está realmente lá por baixo e se vale a pena entrar por ali, no desconhecido.
É o tema recorrente, e lucrativo, que nos faz andar à roda, como o mundo, e que se chama: a parentalidade na idade moderna.
De todos os lados nos atiram com crónicas furiosas, livros técnicos, revistas da especialidade, documentários infinitos, anúncios televisivos de famílias felizes, cozinhas brancas e dentes brancos, e estamos ali vulneráveis como se de repente nos víssemos nus, no meio da rua, curvados na tentativa inepta de tapar a nossa intimidade com ambas as mãos, sem nos decidirmos afinal qual é a mais pudenda, rodeados por todos os vizinhos do bairro, que nos pedem explicações aos gritos, e atiram coisas para cima de nós: e a escola? e aqueles cabelos? e os sapatos? e a alimentação? aquilo é um bolicau?! e as unhas? e as borbulhas? já sai à noite?! e as drogas? a sério que não vai para a faculdade?! namora um negro??! chegou de madrugada? não quer casar?! engravidou a pobre rapariga...
Não sei se algum dia chegaremos a uma conclusão, mas parece-me que a melhor solução é encontrar um amigo, sugiro o senso-comum, a paciência, ou a desvalorização da voz-of, que seja capaz de irromper por entre a multidão em fúria, nos tape com um casaco e nos ajude a caminhar para casa.
É em casa que em última instância podemos raciocinar, olhar os nosso filhos e tomar decisões quando ao seu quotidiano e futuro.
Porque vede: já foram tentadas todas as formas de educação e nós seguimos todos diferentes na idade adulta, reagimos todos de forma diferente à mesma educação, e sei de casos em que o pior miúdo da escola, um tal de Xerife que lançava o terror em toda a comunidade escolar, chegando mesmo a pegar fogo à escola, a bater selvaticamente em mais de 100 miúdos, é hoje um pacato professor de filosofia acarinhado por todos os seu colegas e alunos.
Julie Blackmon catapultou-me para essa multiplicidade que é a educação das crianças e fez-me lembrar as tantas teorias que já me passaram pelos olhos, e sobre as quais penso, e sobre as quais sou (naturalmente) julgada, sendo a que mais me entristece, aquela que me culpa indiretamente por estar a criar uma filha supostamente inepta e medrosa, que não se saberá defender-se do mundo lá fora, porque a protejo demais, não a deixo meter o pé em ramo verde, quando mais deixá-la sozinha no jardim, na rua, ou até em casa.
Será?
Fica a questão, e a artista que tão bem retratou a ausência da parentalidade moderna, sob o ponto de vista do remoinho de nuvens densas que impedem de ter certezas quando ao que está realmente lá por baixo, isto é, o certo ou o errado sobre a educação das crianças.
3 de setembro de 2015
Memórias de um susto
Vivi, a partir dos 14 anos, exatamente dois anos depois do meu pai se ter despedido da infernal distribuição, numa torre de apartamentos amplos, muito ensolarada, nova, de oito andares, que encimeirava com alguma imponência o bairro suburbano pejado de casinhas baixas e prédios de 3 andares.
A Torre, como era conhecida, comprimia de forma bastante pacífica - no início - 34 famílias escolhidas a dedo, tanto é que até um Embaixador temos, de gente nova, fértil, e cravadinha em filhos.
Eu era a única que não tinha irmãos, razão pela qual fui adotada por quase todos os vizinhos, fartos dos seus próprios irmãos, e interessadíssimos, não tanto na loira espigada, mas na mãe dela, que os acolheu anos sem fim, dando-lhes guarida, azeite, manteiga, vinho e jogos de futebol na televisão, especialmente do Benfica.
No incrivelmente ruidoso oitavo andar, fechados em vidros duplos sem cortinados, vivia uma família irregular e secundária (segunda família) de angolanos antipáticos. As muitas filhas do Embaixador, que por acaso nunca conheci, entravam e saiam da Torre sempre acabrunhadas e de cenho franzido, talvez por não lhes ser possível falar abertamente com ninguém do prédio, excetuando a troca de olhares à entrada do elevador, por ser coisa que lhes estava absolutamente interdita, soube-o mais tarde, por se tratar, lá está, da família secreta do diplomata.
Apesar de ter abanado e caído, numa noite escura como breu, com um valente soco no meio dos olhos que me estilhaçou os óculos de ver ao longe, situação que podia muito bem ser o grande susto do título (se tivéssemos em conta que elas eram umas 15 e eu era só uma, ainda por cima míope), não foi, apesar de tudo, com estes vizinhos que se deu o caso, e sou sincera, ainda bem.
No sétimo andar do refinadíssimo prédio, 4 rapagões altos, bons e bonitos constituíam a prole de um médico retornado de Moçambique, que espalhava charme como quem espalha brasas, e que tinha um nome sugestivo para uns quantos trocadilhos.
De todos eles, meus amigos, camaradas, com quem passei bons momentos de vizinhança (e festas), falarei de apenas um.
A Torre, como era conhecida, comprimia de forma bastante pacífica - no início - 34 famílias escolhidas a dedo, tanto é que até um Embaixador temos, de gente nova, fértil, e cravadinha em filhos.
Eu era a única que não tinha irmãos, razão pela qual fui adotada por quase todos os vizinhos, fartos dos seus próprios irmãos, e interessadíssimos, não tanto na loira espigada, mas na mãe dela, que os acolheu anos sem fim, dando-lhes guarida, azeite, manteiga, vinho e jogos de futebol na televisão, especialmente do Benfica.
No incrivelmente ruidoso oitavo andar, fechados em vidros duplos sem cortinados, vivia uma família irregular e secundária (segunda família) de angolanos antipáticos. As muitas filhas do Embaixador, que por acaso nunca conheci, entravam e saiam da Torre sempre acabrunhadas e de cenho franzido, talvez por não lhes ser possível falar abertamente com ninguém do prédio, excetuando a troca de olhares à entrada do elevador, por ser coisa que lhes estava absolutamente interdita, soube-o mais tarde, por se tratar, lá está, da família secreta do diplomata.
Apesar de ter abanado e caído, numa noite escura como breu, com um valente soco no meio dos olhos que me estilhaçou os óculos de ver ao longe, situação que podia muito bem ser o grande susto do título (se tivéssemos em conta que elas eram umas 15 e eu era só uma, ainda por cima míope), não foi, apesar de tudo, com estes vizinhos que se deu o caso, e sou sincera, ainda bem.
No sétimo andar do refinadíssimo prédio, 4 rapagões altos, bons e bonitos constituíam a prole de um médico retornado de Moçambique, que espalhava charme como quem espalha brasas, e que tinha um nome sugestivo para uns quantos trocadilhos.
De todos eles, meus amigos, camaradas, com quem passei bons momentos de vizinhança (e festas), falarei de apenas um.
2 de setembro de 2015
Há sempre lições a tirar
Debruço-me com alguma dificuldade sobre o tema, sentindo com agravo um certo frémito interior, como que um rumor, formado de palavras longínquas que sinto aproximarem-se como um exército numa montada bravia, mas que ainda não estão todas devidamente posicionadas e prontas para assumir aquela que é a minha opinião firme sobre ele.
Hoje soltam-se as (minhas) palavras.
As possíveis para o tempo que disponho para as dispor.
Não posso jurar que o derrame que lhes imponho seja algo mais do que vento na palha.
Há muito que sou uma espécie de estudiosa do Holocausto.
Não sei bem porquê, talvez o meu amor pela história, pelos feitos antigos, exemplares (ou não) da Humanidade, me façam sentir o apelo de querer saber mais, ler mais, ouvir mais.
Não sei também que interesse terá para o meu espírito dúctil, a absorção dos factos tenebrosos do Holocausto, mas tenho para mim que é uma forma de fortalecer-me com os exemplos da heroicidade e resistência que alguns seres humanos foram capazes de provar perante o Soah, e de como a minha vida actual, e passada, conseguiu ser tão branda e dócil comigo.
Por este motivo, possuo um acervo mais ou menos significativo de livros e documentários sobre o tema, e às vezes, quando me sinto mais sozinha, vou fazer companhia aquelas letras, que no fundo são homens e mulheres, ali descritas, cujo sentimento de solidão foi elevado ao seu exponente máximo.
Olhando de soslaio para a televisão da sala, que uso apenas para ler ou sentar-me ao computador, resolvo antes abrir um livro (muito) especial, que anda sempre por ali desde que o comprei.
É do Primo Levi, um químico italiano que renasceu escritor, após a experiência nos campos, e que se chama Se Isto é Um Homem (Se questo è un uomo).
O que diz Levi sobre 'os estrangeiros', catapulta-me de imediato para o tema dos migrantes.
Não me alongarei em acusações sobre o tema; as imagens valem muitas mil palavras, e não é fácil para ninguém, nem sequer para o mais dogmático e empedernido dos homens, chegar a uma conclusão que o satisfaça a ele, quanto mais aos outros, sobre o que está certo ou errado no caminho a seguir.
Ele diz assim, ipsis verbis.
Pode acontecer que muitos, indivíduos ou povos, julguem, mais ou menos conscientemente, que 'todos os estrangeiros são inimigos'. Na maioria dos casos, esta convicção jaz no fundo dos espíritos como uma infeção latente; manifesta-se apenas em atos esporádicos e desarticulados e não se constitui num sistema de pensamento. Mas quando tal acontece, quando o dogma não enunciado se torna premissa maior de um silogismo, então, no fim da cadeia, encontra-se o Lager (campo).
É fácil perceber as palavras lúcidas de Levi.
Naquela altura demoníaca, os homens feitos prisioneiros eram 'peças'.
Hoje, na televisão distante da sala, oiço dizer que a Alemanha planeia incluir a definição de quotas obrigatórias de migrantes para cada país europeu.
Distribui-se o mal pelas aldeias. Bitata a mim, bitata a ti, anini ananão ficas tu e eu não.
A carga pronta e metida nos contentores, dos migrantes de hoje, não pode ser comparável por ninguém à merda que o Chico Fininho trazia na algibeira, porque simplesmente não dá lucro, mas no entanto é carga, e está metida em contentores.
Fico suspeitosa (e no entanto é na Alemanha que se levanta uma voz amiga), quando a Alemanha informa que vai fazer uma seleção entre os migrantes para separar o tal trigo do joio, para criar a diferença profunda, mais uma vez, entre os migrantes que têm ou não o direito à vida na Europa, isto é, à vida.
Compreendo que a Alemanha e alguns países da Europa (peço desculpa, não sei quais são, não sigo o tema diariamente) tente a todo o custo lançar o desafio da separação da carga, como se faz nas sementeiras de trigo. Algumas ficam nas bermas e morrem, mas a maioria é regada diariamente e de longe o trigal é bonito.
Quando a Hungria barrou os migrantes, desdenhou a lição que lhe foi deixada pelo Soah, e ignorou o número de húngaros mortos no Lager.
E tantas outras coisas que teimam em esquecer, outros tantos países.
Relendo o texto, fica-me claro que o que escrevi é vento na palha.
Não encontro solução, e tenho medo.
Vejo tantas e tantas coincidências, e tenho medo.
Sem saber como, estou dentro daquele camião, e tenho medo.
Espero muito que a viagem seja rápida, porque isto meus amigos, é novamente o Inferno.
Hoje soltam-se as (minhas) palavras.
As possíveis para o tempo que disponho para as dispor.
Não posso jurar que o derrame que lhes imponho seja algo mais do que vento na palha.
Há muito que sou uma espécie de estudiosa do Holocausto.
Não sei bem porquê, talvez o meu amor pela história, pelos feitos antigos, exemplares (ou não) da Humanidade, me façam sentir o apelo de querer saber mais, ler mais, ouvir mais.
Não sei também que interesse terá para o meu espírito dúctil, a absorção dos factos tenebrosos do Holocausto, mas tenho para mim que é uma forma de fortalecer-me com os exemplos da heroicidade e resistência que alguns seres humanos foram capazes de provar perante o Soah, e de como a minha vida actual, e passada, conseguiu ser tão branda e dócil comigo.
Por este motivo, possuo um acervo mais ou menos significativo de livros e documentários sobre o tema, e às vezes, quando me sinto mais sozinha, vou fazer companhia aquelas letras, que no fundo são homens e mulheres, ali descritas, cujo sentimento de solidão foi elevado ao seu exponente máximo.
Olhando de soslaio para a televisão da sala, que uso apenas para ler ou sentar-me ao computador, resolvo antes abrir um livro (muito) especial, que anda sempre por ali desde que o comprei.
É do Primo Levi, um químico italiano que renasceu escritor, após a experiência nos campos, e que se chama Se Isto é Um Homem (Se questo è un uomo).
O que diz Levi sobre 'os estrangeiros', catapulta-me de imediato para o tema dos migrantes.
Não me alongarei em acusações sobre o tema; as imagens valem muitas mil palavras, e não é fácil para ninguém, nem sequer para o mais dogmático e empedernido dos homens, chegar a uma conclusão que o satisfaça a ele, quanto mais aos outros, sobre o que está certo ou errado no caminho a seguir.
Ele diz assim, ipsis verbis.
Pode acontecer que muitos, indivíduos ou povos, julguem, mais ou menos conscientemente, que 'todos os estrangeiros são inimigos'. Na maioria dos casos, esta convicção jaz no fundo dos espíritos como uma infeção latente; manifesta-se apenas em atos esporádicos e desarticulados e não se constitui num sistema de pensamento. Mas quando tal acontece, quando o dogma não enunciado se torna premissa maior de um silogismo, então, no fim da cadeia, encontra-se o Lager (campo).
É fácil perceber as palavras lúcidas de Levi.
Naquela altura demoníaca, os homens feitos prisioneiros eram 'peças'.
Hoje, na televisão distante da sala, oiço dizer que a Alemanha planeia incluir a definição de quotas obrigatórias de migrantes para cada país europeu.
Distribui-se o mal pelas aldeias. Bitata a mim, bitata a ti, anini ananão ficas tu e eu não.
A carga pronta e metida nos contentores, dos migrantes de hoje, não pode ser comparável por ninguém à merda que o Chico Fininho trazia na algibeira, porque simplesmente não dá lucro, mas no entanto é carga, e está metida em contentores.
Fico suspeitosa (e no entanto é na Alemanha que se levanta uma voz amiga), quando a Alemanha informa que vai fazer uma seleção entre os migrantes para separar o tal trigo do joio, para criar a diferença profunda, mais uma vez, entre os migrantes que têm ou não o direito à vida na Europa, isto é, à vida.
Compreendo que a Alemanha e alguns países da Europa (peço desculpa, não sei quais são, não sigo o tema diariamente) tente a todo o custo lançar o desafio da separação da carga, como se faz nas sementeiras de trigo. Algumas ficam nas bermas e morrem, mas a maioria é regada diariamente e de longe o trigal é bonito.
Quando a Hungria barrou os migrantes, desdenhou a lição que lhe foi deixada pelo Soah, e ignorou o número de húngaros mortos no Lager.
E tantas outras coisas que teimam em esquecer, outros tantos países.
Relendo o texto, fica-me claro que o que escrevi é vento na palha.
Não encontro solução, e tenho medo.
Vejo tantas e tantas coincidências, e tenho medo.
Sem saber como, estou dentro daquele camião, e tenho medo.
Espero muito que a viagem seja rápida, porque isto meus amigos, é novamente o Inferno.
Autor: Banksy
1 de setembro de 2015
Últimas sobre dietas
Caros todos,
Se pertencem ao grupo dos infelizes que ganham peso nas férias, não deixem de ler esta pequena grande novidade.
A Uva, senhora de grandes conhecimentos ao nível dos contactos com pessoas (seja lá o que isso for), teve há poucos minutos um encontro muito produtivo com um médico de renome, e fora de brincadeiras que o médico é mesmo um peso pesado da medicina, que notando-lhe uma figura mais adelgaçada (só Deus sabe o que eu pedalei na iron-bina) lhe perguntou, por mera curiosidade médica - ou outra que não é agora para aqui chamada e que tem a ver com o género -, se estava a fazer [a Uva] a nova dieta dos hidratos de carbono.
A Uva, que não quer saber de abandonar os hidratos de carbono para nada (um parêntesis para a metáfora que aqui se criou para o caso da gata Mecas - que só lhe faz mal mas ela nem pensar em subtrai-la à equação familiar), disse ao senhor Dr. que não, que o que tinha era suado as estopinhas durante 3 longas semanas (as das férias) e que podia mostra-lhe já o repertório do Endomondo para lhe provar.
- Ah, mas então deixe que lhe diga minha cara Uva, perder assim tanto peso (cof cof) em tão pouco tempo, só com a alteração da hora da ingestão dos hidratos de carbono.
Beca beca beca - pensei eu, mais do mesmo, o mesmo de sempre.
- Com certeza Sôtor, bem sei - disse-lhe eu, enquanto ele voltava a botar os olhos na minha espetacular silhueta - devemos comer os hidratos de manhã porque de noite a sua absorção é bastante mais lenta.
- Não, minha cara.
- Não?! Então mas...
- Oiça - diz-me ele pausadamente e com aquele ar de quem vai fazer uma declaração só comparável à alteração da rotação do eixo da terra - os hidratos de carbono devem ser comidos na parte final do dia, respeitando sempre o jejum matinal apenas interrompido pelo almoço. A questão é simples: o nosso metabolismo mantém-se inalterado desde o início da espécie, pelo que se os nossos antepassados se levantavam de manhã para caçar e procurar alimentos, tratando durante a tarde da sua preparação, só à noite se sentavam a comer e é nessa altura que o organismo emprega as suas melhores energias para absorver tudo o que tem de absorver para voltar a ter energia acumulada de manhã. Também por isso os povos que albardam o pequeno almoço têm quase sempre excesso de peso.
E agora a conclusão da Uva, só comparável à alteração da rotação do eixo da terra:
Se pertencem ao grupo dos infelizes que caçam de noite, fiquem sabendo que se caçarem de manhã perdem muito mais peso (na consciência) e não comprometem a refeição familiar, existente desde o início da espécie humana.
Se pertencem ao grupo dos infelizes que ganham peso nas férias, não deixem de ler esta pequena grande novidade.
A Uva, senhora de grandes conhecimentos ao nível dos contactos com pessoas (seja lá o que isso for), teve há poucos minutos um encontro muito produtivo com um médico de renome, e fora de brincadeiras que o médico é mesmo um peso pesado da medicina, que notando-lhe uma figura mais adelgaçada (só Deus sabe o que eu pedalei na iron-bina) lhe perguntou, por mera curiosidade médica - ou outra que não é agora para aqui chamada e que tem a ver com o género -, se estava a fazer [a Uva] a nova dieta dos hidratos de carbono.
A Uva, que não quer saber de abandonar os hidratos de carbono para nada (um parêntesis para a metáfora que aqui se criou para o caso da gata Mecas - que só lhe faz mal mas ela nem pensar em subtrai-la à equação familiar), disse ao senhor Dr. que não, que o que tinha era suado as estopinhas durante 3 longas semanas (as das férias) e que podia mostra-lhe já o repertório do Endomondo para lhe provar.
- Ah, mas então deixe que lhe diga minha cara Uva, perder assim tanto peso (cof cof) em tão pouco tempo, só com a alteração da hora da ingestão dos hidratos de carbono.
Beca beca beca - pensei eu, mais do mesmo, o mesmo de sempre.
- Com certeza Sôtor, bem sei - disse-lhe eu, enquanto ele voltava a botar os olhos na minha espetacular silhueta - devemos comer os hidratos de manhã porque de noite a sua absorção é bastante mais lenta.
- Não, minha cara.
- Não?! Então mas...
- Oiça - diz-me ele pausadamente e com aquele ar de quem vai fazer uma declaração só comparável à alteração da rotação do eixo da terra - os hidratos de carbono devem ser comidos na parte final do dia, respeitando sempre o jejum matinal apenas interrompido pelo almoço. A questão é simples: o nosso metabolismo mantém-se inalterado desde o início da espécie, pelo que se os nossos antepassados se levantavam de manhã para caçar e procurar alimentos, tratando durante a tarde da sua preparação, só à noite se sentavam a comer e é nessa altura que o organismo emprega as suas melhores energias para absorver tudo o que tem de absorver para voltar a ter energia acumulada de manhã. Também por isso os povos que albardam o pequeno almoço têm quase sempre excesso de peso.
E agora a conclusão da Uva, só comparável à alteração da rotação do eixo da terra:
Se pertencem ao grupo dos infelizes que caçam de noite, fiquem sabendo que se caçarem de manhã perdem muito mais peso (na consciência) e não comprometem a refeição familiar, existente desde o início da espécie humana.
Perda de Chance
O termo é amplo, contraditório, arbitrário e vagal.
Perder a chance, ou a oportunidade, é algo que nos acontece milhares de vezes por dia, isto se pensarmos que a cada escolha, a cada decisão, perdemos a chance de enveredar pelo caminho que se nos opôs, o preterido, onde se desenvolveriam uma série de possibilidades agora perdidas.
As decisões que tomamos relativamente aos assuntos que nos dizem respeito, são da nossa inteira responsabilidade e resultam de uma coisa: a que comummente chamamos de livre arbítrio ou liberdade de escolha.
Somos livres até para perder oportunidades ou chances que poderiam ser oportunidades, se assim o entendermos, de forma consciente ou não, mas se extravasarmos a Perda de Chance para o exterior, isto é, se aplicarmos o nosso livre arbítrio, a nossa liberdade de escolha, se for à mesma da nossa responsabilidade a escolha que resultará na extinção da possibilidade de obter um resultado favorável(1), então o termo agiganta-se, sobretudo se falarmos de escolha do melhor exame para definir o tratamento, escolha de tratamento médico, escolha da melhor droga para curar determinada doença, e, por fim, a dose de droga a aplicar a determinado doente.
É disso que se trata o post de hoje, porque apesar de vogarem assuntos prementes no mundo que nos rodeia, assuntos de grande importância, de grande crise e de difícil resolução, creio que não nos podemos subtrair às boas notícias, chama quente dos nossos dias, para dar a conhecer a quem tem interesse, uma luz que se acendeu e que parecida fundida dentro de uma lâmpada turva e fosca.
A Perda da Chance está a um passo de fazer jurisprudência, num meio mais fechado que um aquário. O campo da responsabilidade médica.
A notícia que veio a lume, ontem, através da Revista Visão dá-nos a saber que o Tribunal Cível de Lisboa concluiu que os serviços médicos prestados a Tereza Coelho, na Cuf Descobertas, no final de 2008, lhe retiraram probabilidade de vida.
É preciso fazer notar que os inúmeros, senão milhares, de casos de negligência médica, dificílimos de ganhar, podem ficar mais fáceis de provar se a eles vier a ser adicionada a questão de Perda de Chance porque bastará provar (e foi o caso) que o facto de o médico não ter pedido mais exames, nomeadamente uma radiografia aos pulmões, retirou probabilidade de sobrevivência ("perda de chance") à doente, que veio para casa com um diagnóstico de amigdalite e acabou por morrer de septicemia.
Esclareço ainda que a Negligência Médica é uma questão tabu nos hospitais, sendo comummente não assumida pelos médicos e até protegida/escamoteada pelos seus colegas de profissão, que alegam demasiadas horas de trabalho, fraca supervisão etecetera, e que mesmo em Tribunal é de extrema complexidade e dificuldade fazer dela prova, porque é sempre necessário solicitar a intervenção de um perito que será obviamente médico.
(1). Rute Teixeira Pedro, A responsabilidade civil do médico: reflexões sobre a noção da perda de chance e a tutela do doente lesado, Coimbra, Coimbra Editora, 2008
Perder a chance, ou a oportunidade, é algo que nos acontece milhares de vezes por dia, isto se pensarmos que a cada escolha, a cada decisão, perdemos a chance de enveredar pelo caminho que se nos opôs, o preterido, onde se desenvolveriam uma série de possibilidades agora perdidas.
As decisões que tomamos relativamente aos assuntos que nos dizem respeito, são da nossa inteira responsabilidade e resultam de uma coisa: a que comummente chamamos de livre arbítrio ou liberdade de escolha.
Somos livres até para perder oportunidades ou chances que poderiam ser oportunidades, se assim o entendermos, de forma consciente ou não, mas se extravasarmos a Perda de Chance para o exterior, isto é, se aplicarmos o nosso livre arbítrio, a nossa liberdade de escolha, se for à mesma da nossa responsabilidade a escolha que resultará na extinção da possibilidade de obter um resultado favorável(1), então o termo agiganta-se, sobretudo se falarmos de escolha do melhor exame para definir o tratamento, escolha de tratamento médico, escolha da melhor droga para curar determinada doença, e, por fim, a dose de droga a aplicar a determinado doente.
É disso que se trata o post de hoje, porque apesar de vogarem assuntos prementes no mundo que nos rodeia, assuntos de grande importância, de grande crise e de difícil resolução, creio que não nos podemos subtrair às boas notícias, chama quente dos nossos dias, para dar a conhecer a quem tem interesse, uma luz que se acendeu e que parecida fundida dentro de uma lâmpada turva e fosca.
A Perda da Chance está a um passo de fazer jurisprudência, num meio mais fechado que um aquário. O campo da responsabilidade médica.
A notícia que veio a lume, ontem, através da Revista Visão dá-nos a saber que o Tribunal Cível de Lisboa concluiu que os serviços médicos prestados a Tereza Coelho, na Cuf Descobertas, no final de 2008, lhe retiraram probabilidade de vida.
É preciso fazer notar que os inúmeros, senão milhares, de casos de negligência médica, dificílimos de ganhar, podem ficar mais fáceis de provar se a eles vier a ser adicionada a questão de Perda de Chance porque bastará provar (e foi o caso) que o facto de o médico não ter pedido mais exames, nomeadamente uma radiografia aos pulmões, retirou probabilidade de sobrevivência ("perda de chance") à doente, que veio para casa com um diagnóstico de amigdalite e acabou por morrer de septicemia.
Esclareço ainda que a Negligência Médica é uma questão tabu nos hospitais, sendo comummente não assumida pelos médicos e até protegida/escamoteada pelos seus colegas de profissão, que alegam demasiadas horas de trabalho, fraca supervisão etecetera, e que mesmo em Tribunal é de extrema complexidade e dificuldade fazer dela prova, porque é sempre necessário solicitar a intervenção de um perito que será obviamente médico.
(1). Rute Teixeira Pedro, A responsabilidade civil do médico: reflexões sobre a noção da perda de chance e a tutela do doente lesado, Coimbra, Coimbra Editora, 2008
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