Então cá vai disto.
A formalidade entre a Secretária e o Senhor Doutor é muito alimentada pelo Senhor Doutor, e de forma mais ou menos submissa (mas sempre conivente), aceite pela Secretária, que lhe presta serviços, alguns de vassalagem, alguns de criadagem, outros profissionais, quase todos em troca de retribuição monetária.
Troca-se a inferioridade profissional, no caso injusta, por um punhado de euros, férias, telemóvel e computador ligado à Internet.
Não poderia quebrar essa tão absolutamente portuguesinha barreira entre súbdito e realeza se não visse da outra parte uma vontade para tal.
Nunca vi, mas percebo.
Nunca vi, mas percebo.
O que os outros pensam de nós (dentro da hierarquia da empresa) ainda faz diferença a muitas cabeças, ainda que não à minha. As convenções estúpidas de que falas não são tanto sociais, porquanto também eu sou uma Senhora Doutora, com mais formação até que os demais, logo merecedora socialmente de tal tratamento; é mais uma convenção profissional de umas poucas profissões de hierarquia multidisciplinar, ou, como eu gosto de dizer, por motivos de falha grave no sistema de classes.
Os médicos também não suportariam ver os enfermeiros a passar receitas, mas há enfermeiros a diagnosticar doenças, a tratar doenças, e a dizer aos médicos que medicamentos passar. Mas a vinheta não lhes pertence.
É impensável a um Senhor Doutor tratar a Secretária pela mesma designação, ou no sentido inverso (discriminação positiva), por tu, porque iria desaparecer (no trato) a superioridade do Senhor Doutor sobre esta, e convém manter ali a superioridade, os galões, que isto à vontade não é à vontadinha e ‘se eu a tratar como igual vou perder a legitimidade para lhe pedir que me tire o café ou a fotocópia, e ainda corro o risco de ouvir um vai-tu tirar, mesmo em frente à colega nova, uma possidónia do pior’.
É uma visão dantesca esta de nos acharmos diminuídos nas nossas capacidades profissionais ou mesmo na nossa virilidade se o colaborador indiferenciado tiver na justa medida um tratamento igual aos superiores hierárquicos, e os países mais desenvolvidos há muito que deixaram cair esta prática, sequer a tiveram muitos deles, que é a soberba ridícula que existe entre os que estudam e os que não estudam, mesmo que os que estudaram sejam brutos como as casas, e os que não estudaram façam furor no pensamento. Mas no nosso covil abestalhado isto ainda é prática comum, e não vejo maneiras de mudar a breve trecho.
É uma visão dantesca esta de nos acharmos diminuídos nas nossas capacidades profissionais ou mesmo na nossa virilidade se o colaborador indiferenciado tiver na justa medida um tratamento igual aos superiores hierárquicos, e os países mais desenvolvidos há muito que deixaram cair esta prática, sequer a tiveram muitos deles, que é a soberba ridícula que existe entre os que estudam e os que não estudam, mesmo que os que estudaram sejam brutos como as casas, e os que não estudaram façam furor no pensamento. Mas no nosso covil abestalhado isto ainda é prática comum, e não vejo maneiras de mudar a breve trecho.
Eu sou incapaz de alterar uma distância profissional inicial, porque de forma muito educada, e se quiseres, politicamente correta, sigo um certo respeito pelas instituições e sobretudo pelas pessoas.
Não me passaria pela cabeça tratar o Senhor Ministro por algo mais do que Senhor Ministro, mesmo que o encontrasse a cambalear no meio de uma pista de dança com a camisa desfraldada.
Da mesma forma que seria muito inconveniente da minha parte, e eu detesto a inconveniência, extrapolar para um tu-cá-tu-lá, um colega de trabalho que até a mãe trata por Doutor, só porque se desenvolveu entre nós uma relação de proximidade.
E esta sou eu, afinal, completamente debotada pela negra hipocrisia vigente.
Da mesma forma que seria muito inconveniente da minha parte, e eu detesto a inconveniência, extrapolar para um tu-cá-tu-lá, um colega de trabalho que até a mãe trata por Doutor, só porque se desenvolveu entre nós uma relação de proximidade.
E esta sou eu, afinal, completamente debotada pela negra hipocrisia vigente.
Mas, da mesma forma que me obrigo a um certo formalismo profissional dentro da minha empresa, não me obrigo ao mesmo formalismo fora dela, não medida em que não me é imposto socialmente que mantenha amizades com ex-colegas depois de rompidos os laços profissionais.
O que quero dizer é que, não sendo tu Ministro, nem de superioridade social que imponha respeito, eu era miúda para desistir da possível-futura-relação se assim se mantivesse o costume profissional.
Seria até patético que dois ex-colegas que decidiram ser amigos, se fossem tratando por Senhor Doutor-Senhora Doutora, enquanto comiam uma sardinha assada com as mãos, numa Adega como a das Gravatas.
Aqui da Uva.



