Não quero magoar ninguém, nem quero que ninguém me magoe.
Não quero maltratar ninguém e não quero que ninguém me maltrate.
Gosto muito de pessoas, mas às vezes acho que não sou pessoa de quem se goste. Não sei, mas deve ser por ser grandalhona, e os grandalhões serem um bocadinho assustadores.
Não tenho culpa de ser assim. Agora ainda menos, desde que deixei de usar os saltos altos e me mudei para as sandálias.
Às vezes esqueço-me se fui malcriada para uma certa pessoa que passa e não diz bom dia. Detesto as pessoas que passam e não dizem bom dia, mesmo que esteja um dia bom.
Não quero que as pessoas me mintam, e se não está um bom dia para elas, pois poderiam ao menos indagar se o meu dia está a ser bom.
Assim só me apetece bater-lhes, mas não quero magoar ninguém.
Não gosto muito de usar exemplos pessoais para justificar os problemas dos outros, mas pode muito bem ser que os outros também tenham problemas parecidos com os meus e se esqueçam, porque têm má memória, de serem educados e de dizer bom dia.
Preferia mil vezes que se esquecessem de ser malcriados.
Não quero maltratar ninguém, mas hoje, se tivesse que descer do salto, era miúda para fazer um rotativo e ia tudo a eito.
O que lhes vale é que eu agora mudei para sandálias.
11 de outubro de 2016
10 de outubro de 2016
Passarinhos
Pensativa. Ando sobretudo pensativa.
Ontem, quando saí de casa para comprar um frango, a correr, ia tão metida para dentro que fui bater com o ombro no semáforo da Vilhena. Capaz de arrancar o braço!
Pensas muito mas não o suficiente para te lembrares que sem os olhos não vês nada.
Tenho 40 anos. Vejo mal. Se tivesse nascido antes de inventarem os óculos estava bem lixada.
Também não tenho boa memória. Se tivesse, agora dizia com que idade pensei pela primeira em ter 40 anos. Devia ser uma cachopa, uma pirralha muito ranhosa dessas que andam a passear os burros no Alentejo.
Com 40 anos, pensava eu com os olhos semi-serrados, já terei uma vida descansada, um carreiro certo por onde empurrar a minha burra.
O caminho é incerto. Não vês por onde andas, tu, quanto mais a burra.
Tinha a cabeça cheia de pensamentos mas nunca andava pensativa. Qual quê.
Não me lembro bem - porque não tenho boa memória e nasci num tempo em que ainda não a inventaram -, mas acho que no Alentejo nunca bati com o ombro num semáforo.
E era sempre a minha avó que matava o frango.
Um dia, estava eu no monte muito metida para dentro, aborrecida por não ser pensativa e de não ter cabeça para nada, quando o frango morto da minha avó passou por mim a correr. Lembro-me de ter pensado que era exatamente igual a mim. Sem cabeça.
A minha avó que gostava muito de mim, e pouco dos frangos, dizia-me que ali no monte eu era livre como um passarinho.
Ó vó, o frango é um passarinho?
Tu és bem capaz de ser um frango-sem cabeça, livre como um passarinho.
Já não me lembro bem, mas parece que só o pensamento é livre.
Hoje em dia, há muitos dias que penso naqueles dias.
Às vezes, aqueles que não têm cabeça para nada também não têm com o que bater contra as paredes. Esses são verdadeiramente livres.
Mas depois, sem que eu queira, passa-me o frango morto da minha avó outra vez pela cabeça e eu pergunto-me, especialmente quando continuo a andar na rua sem a cabeça no sítio e vou contra os semáforos da Vilhena: ó vó, o frango é um passarinho?
Então porque me sinto eu tão presa?
Ontem, quando saí de casa para comprar um frango, a correr, ia tão metida para dentro que fui bater com o ombro no semáforo da Vilhena. Capaz de arrancar o braço!
Pensas muito mas não o suficiente para te lembrares que sem os olhos não vês nada.
Tenho 40 anos. Vejo mal. Se tivesse nascido antes de inventarem os óculos estava bem lixada.
Também não tenho boa memória. Se tivesse, agora dizia com que idade pensei pela primeira em ter 40 anos. Devia ser uma cachopa, uma pirralha muito ranhosa dessas que andam a passear os burros no Alentejo.
Com 40 anos, pensava eu com os olhos semi-serrados, já terei uma vida descansada, um carreiro certo por onde empurrar a minha burra.
O caminho é incerto. Não vês por onde andas, tu, quanto mais a burra.
Tinha a cabeça cheia de pensamentos mas nunca andava pensativa. Qual quê.
Não me lembro bem - porque não tenho boa memória e nasci num tempo em que ainda não a inventaram -, mas acho que no Alentejo nunca bati com o ombro num semáforo.
E era sempre a minha avó que matava o frango.
Um dia, estava eu no monte muito metida para dentro, aborrecida por não ser pensativa e de não ter cabeça para nada, quando o frango morto da minha avó passou por mim a correr. Lembro-me de ter pensado que era exatamente igual a mim. Sem cabeça.
A minha avó que gostava muito de mim, e pouco dos frangos, dizia-me que ali no monte eu era livre como um passarinho.
Ó vó, o frango é um passarinho?
Tu és bem capaz de ser um frango-sem cabeça, livre como um passarinho.
Já não me lembro bem, mas parece que só o pensamento é livre.
Hoje em dia, há muitos dias que penso naqueles dias.
Às vezes, aqueles que não têm cabeça para nada também não têm com o que bater contra as paredes. Esses são verdadeiramente livres.
Mas depois, sem que eu queira, passa-me o frango morto da minha avó outra vez pela cabeça e eu pergunto-me, especialmente quando continuo a andar na rua sem a cabeça no sítio e vou contra os semáforos da Vilhena: ó vó, o frango é um passarinho?
Então porque me sinto eu tão presa?
Da adoção emigrante
Daqui de onde me encontro, vejo passarem-me à frente imagens surreais e relatos por demais gravosos e insuportáveis, que tenho de partilhar.
Está a ser difundida, com o intuito de procurar quem ajude, através do link da TVI, a reportagem da Ana Leal sobre a adoção de crianças filhas de emigrantes portugueses em Inglaterra, por partilhas entre colegas, amigos, professores, ou simplesmente conhecidos, ora da televisão, ora do Rule of Law, escritores, jornalistas, todos, mesmo as altas instâncias ministeriais, ou sobretudo essas, que possam ter algum peso ou alguma experiência no campo dos Direitos, Liberdades e Garantias.
Se alguém que por aqui passe durante o dia de hoje, ainda não teve a oportunidade de ver, que veja.
E partilhe.
Esta situação é dramática demais para fecharmos os olhos.
Está a ser difundida, com o intuito de procurar quem ajude, através do link da TVI, a reportagem da Ana Leal sobre a adoção de crianças filhas de emigrantes portugueses em Inglaterra, por partilhas entre colegas, amigos, professores, ou simplesmente conhecidos, ora da televisão, ora do Rule of Law, escritores, jornalistas, todos, mesmo as altas instâncias ministeriais, ou sobretudo essas, que possam ter algum peso ou alguma experiência no campo dos Direitos, Liberdades e Garantias.
Se alguém que por aqui passe durante o dia de hoje, ainda não teve a oportunidade de ver, que veja.
E partilhe.
Esta situação é dramática demais para fecharmos os olhos.
Ao minuto 45m, por favor.
Obrigada pela partilha.
9 de outubro de 2016
A recruta
Nunca me tinha apresentado à recruta.
Estou naquilo a que se chama posto inicial da carreira, um soldado raso das multidões, das tropas fandangas, que se perfilam em batalhão, ou magotes, para participar na guerra.
Só que a minha guerra é outra.
Venho tarde ingressar as massas. Já não se usa a tropa.
O que agora toda a gente pratica, e o cómico desta situação jaz aqui mesmo, nas palavras tombadas, é o individualismo. A solidão e o absurdo de fazermos todos o mesmo, mas em alturas diferentes. Na escolha do momento certo, jaz o pináculo da perfeição.
Eu entendo.
Não é fácil ser acusada de seguidismo e logo a seguir chamarem-nos ovelhas não-tresmalhadas. Para quem nasceu metido para dentro, como um furunculoso sinal, torna-se-lhe difícil aceitar as pequenas borbulhas que como eu, explodem para fora.
Somos todos ovelhas, mas agora as negras é que estão na moda.
Ahh a moda...
Escrevo zangada.
Na verdade há muito que me zanguei com isto, mas teimo. Teimo porque acredito que há algo em mim, na minha escrita, que vale a pena. Estes espaços de introspeção e partilha que aqui vos deixo são cada vez menos, e é talvez a falta de treino que me deixa mais cansada.
Perdi a mão para isto. Perdi a mão nisto.
E zango-me porque me aparecem aqui soldados perdidos que não me acompanham desde o inicio desta guerra, e que, naturalmente, me abatem a tiro porque não me (re)conhecem.
Nos últimos dias tenho escrito muitos posts para me defender de morrer às mãos de assassinos, que não publiquei
Matam-me à séria, todos os dias um pouco mais, porque me julgam uma recruta que só agora entrou num museu de guerra para ver os antigos canhões.
Desconhecem que aqui se partilha arte, que aqui se respira arte, que aqui mora uma apaixonada por arte.
O estranho seria exatamente o contrário. Não ir à guerra.
Disse ali em cima que nunca me tinha apresentado à recruta, mas talvez tenha falhado o juízo. A minha recruta é isto: a defesa perante o ataque escarninho dos anónimos da vanguarda, os que se têm em grande consideração perante os demais, que querem ter ideias individuais, muito únicas e exclusivas, mas que querem que todos concordem com elas.
As pessoas gostam de ser especiais, de ser pessoas únicas, trendy, gostam de não fazer parte dos que se metem à besta em inaugurações cheias de gente, mas ao mesmo tempo participam e partilham das mesmas atividades. E assim vão à praia do Ribeiro do Cavalo, ao Pingo Doce dos 50%, a concertos com milhares de pessoas das carradas de artistas que voltam todos os anos, a Fátima sempre no 13 de maio, para o Algarve na última quinzena de Julho, ao Louvre que não vai a lado nenhum, à Torre Eiffel que não cai amanhã, a maratonas a abarrotar de gente, correr com ténis personalizados todos da mesma marca, aos eventos da EDP, da PT, da RTP, tudo empresas que nos comem os olhos na sopa, a cursos de escrita criativa ou caminhadas contra o cancro organizadas pela Câmara Municipal de Lisboa - a maior sacana da atualidade -, ao Bairro Alto que se um dia cair lá de cima, cai com tudo em cima de nós, porque lá também Mora Gente.
Não vão com as 15 mil, mas vão com os outros milhões.
É um contra-senso e é muito difícil perceber onde querem chegar.
E depois misturam tudo. Querem as obras e detestam as obras. Detestam o ensino público mas arrasam o particular. Detestam o Benfica mas só falam, vivem, comem daquilo, dias inteiros. Falam mal dos hospitais públicos, mas quanto a especialistas, pois.
Querem comer o bolo, e ter o bolo.
É cliché mas fica aqui bem: tudo junto escreve-se em separado, e separado escreve-se tudo junto.
É uma canseira esta vida de partilhas, de exposição, de constantemente nos colocarmos a jeito para o deboche de tanta gente.
Quem diria que umas sandálias brancas que me custaram 19 euros, pudessem gerar tanta raiva. É afinal isto que interessa? Umas sandálias brancas no final de umas pernas?
Talvez seja esta a cor da massa na cabeça destas pessoas. Talvez. Não posso jurar que haja verdadeiramente uma 'massa'.
Escrevo zangada.
Fico aqui muito espantada, com os olhos todos para fora, com a raiva e a revolta que uma ida minha a uma inauguração pode suscitar nas pessoas.
É que eu tenho aqui leitores de uma capacidade intelectual extraordinária.
Eu tenho aqui leitores exímios no tiro!
O que não tenho é pessoas que apesar da excecionalidade do seu pensamento possam ser toldadas pelas escolhas espatafurdias dos outros, mesmo que as suas sejam exatamente as mesmas só que em contextos diferentes.
Como é que podem denegrir seguidismos, ou mesmo seguir o que quer que seja, quando tudo o que seguem é ao mesmo tempo seguido por tantos milhares de pessoas, se tudo o que pensam já foi pensado por milhões de pessoas, se tudo o que fazem fazem-no exatamente da mesma maneira que todos?
Serão uma espécie de seguidores excecionais? Só seguem execões? A estrada que vai dar ao Algarve é só percorrida por vós, os excecionais?
Qual é a diferença em ir ao MAAT no dia da inauguração ou noutro dia qualquer? Não é o mesmíssimo princípio? Não vai lá toda a gente? Não irá lá toda a gente?
Julgam que é só a manada de gnus que atravessa a savana?
Afinal a tropa não é aquela coisa de escolha individual não obrigatória.
Afinal há mais recrutas.
Afinal estamos todos na mesma guerra.
A única diferença é que só alguns dão o peito às balas.
E já o disse aqui no Uva e volto a dizer: prefiro mil vezes ser fuzilada contra uma parede, do que ser desertora da minha própria humanidade.
Estou naquilo a que se chama posto inicial da carreira, um soldado raso das multidões, das tropas fandangas, que se perfilam em batalhão, ou magotes, para participar na guerra.
Só que a minha guerra é outra.
Venho tarde ingressar as massas. Já não se usa a tropa.
O que agora toda a gente pratica, e o cómico desta situação jaz aqui mesmo, nas palavras tombadas, é o individualismo. A solidão e o absurdo de fazermos todos o mesmo, mas em alturas diferentes. Na escolha do momento certo, jaz o pináculo da perfeição.
Eu entendo.
Não é fácil ser acusada de seguidismo e logo a seguir chamarem-nos ovelhas não-tresmalhadas. Para quem nasceu metido para dentro, como um furunculoso sinal, torna-se-lhe difícil aceitar as pequenas borbulhas que como eu, explodem para fora.
Somos todos ovelhas, mas agora as negras é que estão na moda.
Ahh a moda...
Escrevo zangada.
Na verdade há muito que me zanguei com isto, mas teimo. Teimo porque acredito que há algo em mim, na minha escrita, que vale a pena. Estes espaços de introspeção e partilha que aqui vos deixo são cada vez menos, e é talvez a falta de treino que me deixa mais cansada.
Perdi a mão para isto. Perdi a mão nisto.
E zango-me porque me aparecem aqui soldados perdidos que não me acompanham desde o inicio desta guerra, e que, naturalmente, me abatem a tiro porque não me (re)conhecem.
Nos últimos dias tenho escrito muitos posts para me defender de morrer às mãos de assassinos, que não publiquei
Matam-me à séria, todos os dias um pouco mais, porque me julgam uma recruta que só agora entrou num museu de guerra para ver os antigos canhões.
Desconhecem que aqui se partilha arte, que aqui se respira arte, que aqui mora uma apaixonada por arte.
O estranho seria exatamente o contrário. Não ir à guerra.
Disse ali em cima que nunca me tinha apresentado à recruta, mas talvez tenha falhado o juízo. A minha recruta é isto: a defesa perante o ataque escarninho dos anónimos da vanguarda, os que se têm em grande consideração perante os demais, que querem ter ideias individuais, muito únicas e exclusivas, mas que querem que todos concordem com elas.
As pessoas gostam de ser especiais, de ser pessoas únicas, trendy, gostam de não fazer parte dos que se metem à besta em inaugurações cheias de gente, mas ao mesmo tempo participam e partilham das mesmas atividades. E assim vão à praia do Ribeiro do Cavalo, ao Pingo Doce dos 50%, a concertos com milhares de pessoas das carradas de artistas que voltam todos os anos, a Fátima sempre no 13 de maio, para o Algarve na última quinzena de Julho, ao Louvre que não vai a lado nenhum, à Torre Eiffel que não cai amanhã, a maratonas a abarrotar de gente, correr com ténis personalizados todos da mesma marca, aos eventos da EDP, da PT, da RTP, tudo empresas que nos comem os olhos na sopa, a cursos de escrita criativa ou caminhadas contra o cancro organizadas pela Câmara Municipal de Lisboa - a maior sacana da atualidade -, ao Bairro Alto que se um dia cair lá de cima, cai com tudo em cima de nós, porque lá também Mora Gente.
Não vão com as 15 mil, mas vão com os outros milhões.
É um contra-senso e é muito difícil perceber onde querem chegar.
E depois misturam tudo. Querem as obras e detestam as obras. Detestam o ensino público mas arrasam o particular. Detestam o Benfica mas só falam, vivem, comem daquilo, dias inteiros. Falam mal dos hospitais públicos, mas quanto a especialistas, pois.
Querem comer o bolo, e ter o bolo.
É cliché mas fica aqui bem: tudo junto escreve-se em separado, e separado escreve-se tudo junto.
É uma canseira esta vida de partilhas, de exposição, de constantemente nos colocarmos a jeito para o deboche de tanta gente.
Quem diria que umas sandálias brancas que me custaram 19 euros, pudessem gerar tanta raiva. É afinal isto que interessa? Umas sandálias brancas no final de umas pernas?
Talvez seja esta a cor da massa na cabeça destas pessoas. Talvez. Não posso jurar que haja verdadeiramente uma 'massa'.
Escrevo zangada.
Fico aqui muito espantada, com os olhos todos para fora, com a raiva e a revolta que uma ida minha a uma inauguração pode suscitar nas pessoas.
É que eu tenho aqui leitores de uma capacidade intelectual extraordinária.
Eu tenho aqui leitores exímios no tiro!
O que não tenho é pessoas que apesar da excecionalidade do seu pensamento possam ser toldadas pelas escolhas espatafurdias dos outros, mesmo que as suas sejam exatamente as mesmas só que em contextos diferentes.
Como é que podem denegrir seguidismos, ou mesmo seguir o que quer que seja, quando tudo o que seguem é ao mesmo tempo seguido por tantos milhares de pessoas, se tudo o que pensam já foi pensado por milhões de pessoas, se tudo o que fazem fazem-no exatamente da mesma maneira que todos?
Serão uma espécie de seguidores excecionais? Só seguem execões? A estrada que vai dar ao Algarve é só percorrida por vós, os excecionais?
Qual é a diferença em ir ao MAAT no dia da inauguração ou noutro dia qualquer? Não é o mesmíssimo princípio? Não vai lá toda a gente? Não irá lá toda a gente?
Julgam que é só a manada de gnus que atravessa a savana?
Afinal a tropa não é aquela coisa de escolha individual não obrigatória.
Afinal há mais recrutas.
Afinal estamos todos na mesma guerra.
A única diferença é que só alguns dão o peito às balas.
E já o disse aqui no Uva e volto a dizer: prefiro mil vezes ser fuzilada contra uma parede, do que ser desertora da minha própria humanidade.
7 de outubro de 2016
6 de outubro de 2016
MAAT, o novo bode expiatório dos invejosos
Se há coisas que tenho para dizer, a minha urgência é dizê-las.
O dia de ontem merecia-me vários posts. Nenhum deles sobre a República, mas em muitos sentidos indistinguíveis dela.
Houve a questão da inauguração do MAAT, cujo evento se espraiou por todos os cantos do mundo; houve a questão do feriado, que a esquerda recuperou numa violenta batalha campal, houve a questão do verão, que teimou em ficar, e houve a questão do rancor e da inveja, que infelizmente nasceu no meio disto tudo para estragar as muitas coisas que nós, os 'paupérrimos e incultos' portugueses temos vindo a conquistar.
Há capacidades várias no ser humano, há capacidades extraordinárias que não sendo de âmbito intrínseco, como os dons da voz ou da arte, podem ser desenvolvidas com trabalho, com capacidade de encaixe, com calma, e perseverança. Pois a minha capacidade de entender os invejosos é nula, e sou pessoa para dizer aqui, que, de todas as capacidades que detenho, a de me calar perante a injustiça escarninha e pútrida de um invejoso, é a única que não possuo.
O que aconteceu ontem em Lisboa, não é novidade para ninguém. Uma mole de gente encheu a cidade, convergindo (ou divergindo - ainda não sei) para aquilo que julgo ser, ao nível cultural, o acontecimento do ano. A inauguração do mais moderno museu português, que a EDP deu à luz, acendeu nas mentes de muita gente o desejo de ver como é, um desejo genuíno e natural, um desejo que denota um alarme, um despertar evolutivo no país, uma consciência para a arte nunca antes vista, uma oportunidade que muitos nunca tiveram de ver algo realmente futurista e belo, emotivo até, mas que as bocas sujas, enchendo-se de moscas para aventar teorias rocambolescas, tiveram como única e mesquinha finalidade, a de vaiar o nobre povo, e chamar-lhe inculto.
As primeiras imagens da manhã lancinavam os olhos dos desprevenidos. Nunca se viu tanta gente na inauguração de um museu.
'Ha-ha-ha, gosto de ver os portugueses com tanta sensibilidade para a arte', ou 'claro, era de borla!', ou ainda 'um nojo ver uma empresa como a EDP que cobra a electricidade mais cara da Europa, gastar dinheiro nesta porcaria enquanto os velhotes morrem de frio no inverno.'
Invejosos!
Quantos destes é que se preocupam com os que passam fome, enquanto chupam uma pata de sapateira?
Não sabem, e nem querem saber, turvados que estão contra tudo e contra todos.
O MAAT é a vanguarda da cultura em Portugal, é um museu criado com o dinheiro da eletricidade, sim, cara, sim, mas também do trabalho da uma Fundação e de todos os que com ela colaboram.
O MAAT, é um sinal inequívoco que Portugal está nos trilhos certos, que Lisboa se quer impor como uma metrópole europeia do mais alto gabarito, que não somos e nunca mais seremos o povo inculto e desinformado que fomos, que aquilo é para TODOS, mesmo que tenhamos lá ido todos no mesmo dia, acontece, que apesar de sermos pobres, sem industria, e muitas vezes mal governados, há uma centelha que nos arde nos olhos. Somos criativos, imaginativos e audazes.
Fui efetivamente uma das pessoas que levantou o rabo da cama muito cedo para conseguir entrar, não porque era de borla, não porque sou inculta, não porque sou uma pacóvia que nunca viu nada, ou porque a entrada de 5,00€ (que irá ser futuramente cobrada) me choca nas finanças. Fui porque quis, porque queria mostrar à ML o que é, porque quero fazer parte daquilo, porque aquilo me diz coisas.
Não entrei. Era demasiada gente, mesmo nas horas mais madrugadoras.
Mas tive o privilégio de usufruir do feriado agora recuperado, da companhia da minha família, unida, do rio Tejo, do calor, do meu vestido novo, e de ver Lisboa de um ângulo completamente novo - da belíssima pala do MAAT.
E aqui estou eu, numa das fotos que deixei ontem no meu Instagram, a festejar a República.
A única que nos permite ser livres.
E até de sermos invejosos.
Viva a República!
O dia de ontem merecia-me vários posts. Nenhum deles sobre a República, mas em muitos sentidos indistinguíveis dela.
Houve a questão da inauguração do MAAT, cujo evento se espraiou por todos os cantos do mundo; houve a questão do feriado, que a esquerda recuperou numa violenta batalha campal, houve a questão do verão, que teimou em ficar, e houve a questão do rancor e da inveja, que infelizmente nasceu no meio disto tudo para estragar as muitas coisas que nós, os 'paupérrimos e incultos' portugueses temos vindo a conquistar.
Há capacidades várias no ser humano, há capacidades extraordinárias que não sendo de âmbito intrínseco, como os dons da voz ou da arte, podem ser desenvolvidas com trabalho, com capacidade de encaixe, com calma, e perseverança. Pois a minha capacidade de entender os invejosos é nula, e sou pessoa para dizer aqui, que, de todas as capacidades que detenho, a de me calar perante a injustiça escarninha e pútrida de um invejoso, é a única que não possuo.
O que aconteceu ontem em Lisboa, não é novidade para ninguém. Uma mole de gente encheu a cidade, convergindo (ou divergindo - ainda não sei) para aquilo que julgo ser, ao nível cultural, o acontecimento do ano. A inauguração do mais moderno museu português, que a EDP deu à luz, acendeu nas mentes de muita gente o desejo de ver como é, um desejo genuíno e natural, um desejo que denota um alarme, um despertar evolutivo no país, uma consciência para a arte nunca antes vista, uma oportunidade que muitos nunca tiveram de ver algo realmente futurista e belo, emotivo até, mas que as bocas sujas, enchendo-se de moscas para aventar teorias rocambolescas, tiveram como única e mesquinha finalidade, a de vaiar o nobre povo, e chamar-lhe inculto.
As primeiras imagens da manhã lancinavam os olhos dos desprevenidos. Nunca se viu tanta gente na inauguração de um museu.
'Ha-ha-ha, gosto de ver os portugueses com tanta sensibilidade para a arte', ou 'claro, era de borla!', ou ainda 'um nojo ver uma empresa como a EDP que cobra a electricidade mais cara da Europa, gastar dinheiro nesta porcaria enquanto os velhotes morrem de frio no inverno.'
Invejosos!
Quantos destes é que se preocupam com os que passam fome, enquanto chupam uma pata de sapateira?
Não sabem, e nem querem saber, turvados que estão contra tudo e contra todos.
O MAAT é a vanguarda da cultura em Portugal, é um museu criado com o dinheiro da eletricidade, sim, cara, sim, mas também do trabalho da uma Fundação e de todos os que com ela colaboram.
O MAAT, é um sinal inequívoco que Portugal está nos trilhos certos, que Lisboa se quer impor como uma metrópole europeia do mais alto gabarito, que não somos e nunca mais seremos o povo inculto e desinformado que fomos, que aquilo é para TODOS, mesmo que tenhamos lá ido todos no mesmo dia, acontece, que apesar de sermos pobres, sem industria, e muitas vezes mal governados, há uma centelha que nos arde nos olhos. Somos criativos, imaginativos e audazes.
Fui efetivamente uma das pessoas que levantou o rabo da cama muito cedo para conseguir entrar, não porque era de borla, não porque sou inculta, não porque sou uma pacóvia que nunca viu nada, ou porque a entrada de 5,00€ (que irá ser futuramente cobrada) me choca nas finanças. Fui porque quis, porque queria mostrar à ML o que é, porque quero fazer parte daquilo, porque aquilo me diz coisas.
Não entrei. Era demasiada gente, mesmo nas horas mais madrugadoras.
Mas tive o privilégio de usufruir do feriado agora recuperado, da companhia da minha família, unida, do rio Tejo, do calor, do meu vestido novo, e de ver Lisboa de um ângulo completamente novo - da belíssima pala do MAAT.
E aqui estou eu, numa das fotos que deixei ontem no meu Instagram, a festejar a República.
A única que nos permite ser livres.
E até de sermos invejosos.
Viva a República!
4 de outubro de 2016
Da identidade revelada
Pois parece que foi desta que a identidade da brilhante escritora 'Elena Ferrante' foi desvendada.
Gostei de a conhecer, sou sincera, olhei para ela e não pude deixar de pensar que sim, que me faz sentido conhecê-la, como me faz sentido saber quem foi Kant, Proust ou Dostoiévski, mas se ela publicasse mais duas ou três obras como Elena Ferrante e não como Anita Raja (uma suposta tradutora romana nascida em 1953, filha de um magistrado napolitano e de uma professora de alemão de origem polaca), era mais ou menos indiferente, por agora.
A questão é que várias vozes se levantaram contra aquilo a que chamaram de 'um atentado à vida privada da autora'.
Sim, posso concordar em parte com isso, com o facto de Elena Ferrante [ou Anita Raja] ter preferido o anonimato durante todos estes anos, homonimizando-se em Elena Ferrante, escondendo-se atrás de e-mails, de entrevistas telefónicas, quem sabe como golpe publicitário, quem sabe se por sofrer de alguma fobia social.
Mas (e já referi isto aqui no Uva, várias vezes):
Nunca tive especial interesse pela identidade ou pela vida dos escritores, ou antes, nunca escolhi um livro por gostar ou não gostar, pessoalmente, da pessoa que o escreve.
Porquê?
Porque a obra não pode ser afastada do artista, porque a obra é o artista, é a sua persona, porque a torna mais rica, mais espetacular, mais efervescente.
Gostei de a conhecer, sou sincera, olhei para ela e não pude deixar de pensar que sim, que me faz sentido conhecê-la, como me faz sentido saber quem foi Kant, Proust ou Dostoiévski, mas se ela publicasse mais duas ou três obras como Elena Ferrante e não como Anita Raja (uma suposta tradutora romana nascida em 1953, filha de um magistrado napolitano e de uma professora de alemão de origem polaca), era mais ou menos indiferente, por agora.
A questão é que várias vozes se levantaram contra aquilo a que chamaram de 'um atentado à vida privada da autora'.
Sim, posso concordar em parte com isso, com o facto de Elena Ferrante [ou Anita Raja] ter preferido o anonimato durante todos estes anos, homonimizando-se em Elena Ferrante, escondendo-se atrás de e-mails, de entrevistas telefónicas, quem sabe como golpe publicitário, quem sabe se por sofrer de alguma fobia social.
Mas (e já referi isto aqui no Uva, várias vezes):
Nunca tive especial interesse pela identidade ou pela vida dos escritores, ou antes, nunca escolhi um livro por gostar ou não gostar, pessoalmente, da pessoa que o escreve.
Sei muito bem (ou sabia) que a má ou boa personalidade, a sua vida passada, a sua vida presente ou as suas ambições do futuro, não lhe
tiram a capacidade última de escrever uma boa história, um bom romance,
uma obra prima.
Mas tenho vindo a mudar de opinião.Porquê?
Porque a obra não pode ser afastada do artista, porque a obra é o artista, é a sua persona, porque a torna mais rica, mais espetacular, mais efervescente.
Imaginemos um cenário dantesco. Hitler. A sua obra Mein Kampf só foi entendida depois de sabermos quem ele era na realidade.
Afirmar que a qualidade de um escritor depende da sua biografia, subverte totalmente a razão objetiva para a compreensão da obra, e não é isso que quero dizer. O que quero dizer é que é necessário saber a biografia para se entender a obra, não para a tornar melhor ou pior.
Mas que a sua biografia, as suas angustias, medos, anseios, crises e necessidades (próprias e do país) se espelham na obra, não há dúvida.
Resumindo:
Estou muito contente por saber quem é afinal Elena Ferrante. Se a história não se esquecer dela, vai ser fundamental para estudar a sua obra, saber quem ela foi de verdade.
1 de outubro de 2016
A instalação
Há expressões artísticas soberbas. Adoro escultura, gosto muito de esculturas, sobretudo as exacerbadas em altura, coisas enormes, monstras, mas perfeitas. As pontes são hoje em dia esculturas desse tipo, servindo o olhar tão bem como o trânsito, belíssimas figuras, são como aves esguias, de grandes pernas.
As instalações são outra das expressões artísticas que me encantam. São para mim novidades, ou as surpresas da vida. Às vezes no nosso caminho aparecem situações que nos fazem olhar diferentemente para a vida, levantar a cabeça para perceber o que é aquilo, afastar os olhos para ver melhor. Quando passeamos pela rua e nos deparamos com uma instalação ficamos indecisos se aquilo que vemos é real ou uma criação da nossa psique, e queremos integrar aquilo na nossa vida, no nosso quotidiano, mas às vezes as instalações são tão singulares, tão absurdas que percebemos de imediato que, ou estamos loucos ou foi a vida que nos deu uma volta. É uma metáfora. Uma grande metáfora aquela que os artistas nos dão quando resolvem presentear-nos com uma instalação.
Por estes dias as instalações têm brotado como cogumelos. cada uma mais louca que a outra, algumas sinistras lembrando esqueletos, outras realista lembrando dentes de leão. Todas elas merecem o meu segundo olhar. Espero que gostem da seleção.
Street artist Never2501 - “In Cammino Per Trasformarsi Nell’istante Presente”
Australian artist Corey Thomas
Vários artistas de Sidney.
As instalações são outra das expressões artísticas que me encantam. São para mim novidades, ou as surpresas da vida. Às vezes no nosso caminho aparecem situações que nos fazem olhar diferentemente para a vida, levantar a cabeça para perceber o que é aquilo, afastar os olhos para ver melhor. Quando passeamos pela rua e nos deparamos com uma instalação ficamos indecisos se aquilo que vemos é real ou uma criação da nossa psique, e queremos integrar aquilo na nossa vida, no nosso quotidiano, mas às vezes as instalações são tão singulares, tão absurdas que percebemos de imediato que, ou estamos loucos ou foi a vida que nos deu uma volta. É uma metáfora. Uma grande metáfora aquela que os artistas nos dão quando resolvem presentear-nos com uma instalação.
Por estes dias as instalações têm brotado como cogumelos. cada uma mais louca que a outra, algumas sinistras lembrando esqueletos, outras realista lembrando dentes de leão. Todas elas merecem o meu segundo olhar. Espero que gostem da seleção.
Australian artist Corey Thomas
Vários artistas de Sidney.
Livros e mais livros
A Última Palavra e O Buda dos Subúrbios de Hanif Kureishi, são as propostas de um velho amigo.
Aos velhos não se nega nada.
Vamos a isto!
30 de setembro de 2016
A primeira vez
A primeira vez que a vi, fumava descontraída no jardim aquilo que me pareceu ser um ganza de erva. As calças rasgadas, talvez fruto de uma imposição da moda - esse fenómeno tão absolutamente humanizante, tão socialmente agregador, e ao mesmo tempo tão humilhante e submisso - e o cabelo em desalinho, davam-lhe um ar de quem se descomprometeu dos afazeres pessoais há anos, como quem brinca com a vida, leve, vendo os dias passar.
Fitei-a com os melhores olhos que tinha. Um misto entre 'sei o que estás aqui a fazer e é na boa', e um 'fuma para aí à vontade que não sou eu que te vou julgar', e sentei-me ao lado dela.
Pedi desculpa, claro, por me sentar assim na roda de amigos que eram tudo menos meus, mas à falta de melhor oportunidade, e há falta de melhor que fazer, desenvencilhei-me com a tirada doméstica de 'gostava de fazer umas fotos do jardim, mas gosto mais do ângulo ao baixo'.
Não me engavetou de imediato. Deve ter pensado dar-me uma oportunidade e passou-me o charuto. Não quero, disse-lhe, fico mal disposta. Não insistiu. A minha oportunidade foi curta. À passagem de uma efusiva amiga, levantou-se de um pulo, e agarradas ao pescoço uma da outra, sumiram-se por entre as pessoas, fazendo um cagaçal dos diabos.
A segunda vez que a vi, umas boas semanas depois, apareceu-me rebuscada, demasiado pintada, vestindo uma vida alternativa, à porta do Rule of Law. Diria que o colar de contas, muito feio, que trazia pendurado ao pescoço, faziam dela toda, um ser muito pesado. Reconhecia-a de imediato. Inovadora, trazendo pessoalmente nos braços os filhos menores, bem criados, a sua mais esperançosa lista, as datas de um passado minúsculo mas convidativo.
Largou-me uma mão cheia de anéis e apertou-ma com força, à homem, como se quer entre mulheres.
- Bom dia! Peço desculpa incomodar. Posso entregar-lhe o meu CV? Acabei o curso de Direito e gostaria de saber se estão a contratar?
Dei uma olhada rápida ao papel sem saber o que fazer. Ali à porta, defronte de uma desconhecida-conhecida, fiquem sem as palavras e fugiram-me os trejeitos.
Fitei-a com os melhores olhos que tinha.
- Claro que sim. Espero responder-lhe em breve. Qual é a área de preferência?
- Fiscal!
Recebi-lhe o filho nas mãos, e pensei para comigo: são tão maravilhosamente polivalentes que assustam os que na sua comezinha vida só conseguem fazer uma vida de cada vez.
Prometem muito estas novas gerações.
Oiçam o que vos digo.
Fitei-a com os melhores olhos que tinha. Um misto entre 'sei o que estás aqui a fazer e é na boa', e um 'fuma para aí à vontade que não sou eu que te vou julgar', e sentei-me ao lado dela.
Pedi desculpa, claro, por me sentar assim na roda de amigos que eram tudo menos meus, mas à falta de melhor oportunidade, e há falta de melhor que fazer, desenvencilhei-me com a tirada doméstica de 'gostava de fazer umas fotos do jardim, mas gosto mais do ângulo ao baixo'.
Não me engavetou de imediato. Deve ter pensado dar-me uma oportunidade e passou-me o charuto. Não quero, disse-lhe, fico mal disposta. Não insistiu. A minha oportunidade foi curta. À passagem de uma efusiva amiga, levantou-se de um pulo, e agarradas ao pescoço uma da outra, sumiram-se por entre as pessoas, fazendo um cagaçal dos diabos.
A segunda vez que a vi, umas boas semanas depois, apareceu-me rebuscada, demasiado pintada, vestindo uma vida alternativa, à porta do Rule of Law. Diria que o colar de contas, muito feio, que trazia pendurado ao pescoço, faziam dela toda, um ser muito pesado. Reconhecia-a de imediato. Inovadora, trazendo pessoalmente nos braços os filhos menores, bem criados, a sua mais esperançosa lista, as datas de um passado minúsculo mas convidativo.
Largou-me uma mão cheia de anéis e apertou-ma com força, à homem, como se quer entre mulheres.
- Bom dia! Peço desculpa incomodar. Posso entregar-lhe o meu CV? Acabei o curso de Direito e gostaria de saber se estão a contratar?
Dei uma olhada rápida ao papel sem saber o que fazer. Ali à porta, defronte de uma desconhecida-conhecida, fiquem sem as palavras e fugiram-me os trejeitos.
Fitei-a com os melhores olhos que tinha.
- Claro que sim. Espero responder-lhe em breve. Qual é a área de preferência?
- Fiscal!
Recebi-lhe o filho nas mãos, e pensei para comigo: são tão maravilhosamente polivalentes que assustam os que na sua comezinha vida só conseguem fazer uma vida de cada vez.
Prometem muito estas novas gerações.
Oiçam o que vos digo.
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