31 de outubro de 2016

Para me redimir daquilo lá do Pipoco

Porque resolvi publicitar hoje um livro que foi escrito por uma jornalista (e eu até percebo que muitas das 'bloggers' que hoje conhecemos são jornalista, e que isso pode estar a inquinar a opinião do Pipoco), resolvi falar aqui de um livro escrito por um Homem que não era jornalista. Foi um cientista e biólogo, um filósofo estudioso do comportamento animal e humano, um grande cirurgião, e foi também ele que introduziu em 1952 a clorpromazina, o primeiro neuroléptico usado no tratamento da esquizofrenia.
Não se ficando por aqui, foi o primeiro a escrever sobre os malfadados radicais livres, muito antes das bloggers do detox, e, cereja em cima do bolo, não recebeu nenhum dos Nobel da Academia.

O livro chama-se "O Elogio Da Fuga" e quem o escreveu foi o iluminado Henri Laborit.

Mas onde quero eu chegar?
Quero dizer (muito inquinada pela opinião de Laborit) que chegámos a um ponto tal que tudo o que fazemos para os outros, ou tudo o que os outros fazem para nós, isto é, tudo o que os jornalistas escrevem, tudo o que os bloggers publicam, as televisões passam, os escritores escrevem, os realizadores realizam, é humanamente insuportável.
Já que ninguém suporta nada, já que ninguém admite mais nada, da pura critica maldosa ao elogio velado da critica construtiva, precisamos de fugir, agora mais do que nunca, uns dos outros.
Dizia-me um amigo próximo que apesar de ser do partido do Governo, era afinal oposição a este Governo. Quão estranho pode isto ser à luz da ideologia de um Homem? Um apoiante fervoroso das ideias que ele próprio gizou, e apoiou, é ao mesmo tempo contra tudo o que seja colocar em práticas essas ideias.
A reflexão de Pipoco sobre o seu éden pessoal, colide com o facto de ter um canal aberto à discussão e à comunicação. As reflexões, também as artísticas, dos outros que gravitam em nosso redor, colidem com as nossas próprias reflexões.
Daí que muitos dos que eram antes ambiciosos produtores e consumidores finais de blogs, livros, filmes e arte, se vejam inconformados e incapazes de se adaptar. E fogem. Uns para dentro de si, mudos e imutáveis, enlouquecendo e suicidando-se, e outros, para dentro do que os outros têm dentro de si.
A arte ou a loucura.

É engraçado que mesmo desdenhando de tudo o que achamos ser o 'Inferno dos Outros', as suas reflexões e opiniões, o seu modo de estar e de viver, nos aproximemos cada dia mais desse inferno.
O Pipoco é capaz de ter razão. Devíamos ser capazes de viver apenas no nosso éden pessoal... mas e os outros?

"En tiempos como estos, la fuga es el único medio para mantenerse vivo y continuar soñando." (“Éloge de la fuite”, 1976)

Livros e mais livros


Da Teorema sai o segundo romance da autora Ana Margarida de Carvalho, que refere, ipsis verbis, ser um livro sobre alteridade, sobre a dificuldade em nos colocarmos na pele daquele que está em posição desfavorável, sobre a facilidade com que julgamos o outro com base na cor da pele, na aparência física e intelectual, na ascendência social – ou seja, julgamos o outro com base naquilo que somos. (in JL - Jornal de Letras)

Se o tema é este, só pode ser um bom livro.
É um dos temas que mais gosto de explorar, por ser o que mais sofre com conflitos e equívocos, sobretudo entre quem escreve e quem lê.
Se for tão bom como o primeiro, temos escritora!

Da vizinhança

Como é natural, uma blogger também tem vizinhos.
Dá-se o caso da Uva ter vizinhos muito metidos para dentro (de casa), e de ela própria viver muito saída para fora, o que nem sempre é propício a encontros, digamos que, tangentes.
As minhas vizinhas do lado, duas senhoras irmãs que se mudaram uns dia depois de mim, não dão sinal de vida desde agosto último, altura em que as encontrei no pátio, vinha eu com um carregamento do IKEA que só visto, e uma delas estava há mais 2 horas presa no nosso belíssimo elevador, um espécime raríssimo do século VIII.
Enfim, digo eu com um longo e complacente suspiro, eu sou uma boa pessoa, lá no fundo tenho a minha caridade a marinar em vinha d'alhos para estas ocasiões, mas deu-se a vicissitude de naquele dia ficar mais lixada por me ver obrigada a carregar todo um quarto escada acima, do que me encher de piedade da vizinha prisioneira.
Eu bem sei que poderia ter ficado ali a compadecer-me com a monstruosa situação, que é uma senhora sem telemóvel, estar presa dentro de um assustador elevador pendurado por arames algures num poço sem fim, mas não. A marinada ainda não estava no ponto e vendo que já havia solução à vista para a pobre senhora, tratei de meter pernas ao caminho e subir as escadas as quatro vezes que a velha me impôs, para carregar os meus próprios monstros para casa.

O karma é um grande camelo vingativo.

No passado sábado, quando regressámos à noite a casa, o sorumbático prédio onde vivemos parecia o Kremlin às 6 da manhã. Mas que barulheira vem a ser esta?
Um estranho sentimento apoderou-se de nós, porque no apartamento das nossas vizinhas a televisão estava tão alta que se ouvia a dois quarteirões.
Ai, tu queres ver que estão para ali as duas mortas, caídas em cima do comando da televisão?
Batemos à porta, e nada. Batemos furiosamente à porta, e nada. Fomos à volta pela varanda, e nada. Nada de nada no meio da grande dúvida que é ter as vizinhas mais caladinhas do prédio a fazer uma rave em casa com a televisão em altos berros.
Bom, assim como assim, dormir não conseguimos, então a única solução foi: polícia com eles.
Foi uma operação rápida e eficaz. O Senhor agente da autoridade, muito incumbido do seu poder de arrombamento da propriedade privada, entrou na casa das duas irmãs, naturalmente pela janela que a minha varanda lhe deu acesso, e logo verificou que na casa apenas a televisão mostrava sinais de vida. As duas irmãs catatuas, foram laurear as pevides, vejam só, e ali nos abandonaram presos numa casa de malucos, que era a nossa, sob um efeito muito parecido com as oferendas que os povos indígenas fazem aos deuses, debaixo de uma forte chuva de tambores.

Escusado será dizer que o senhor agente desligou prontamente a televisão no comando, saltou novamente pela janela, rabiscou umas coisas no seu caderninho Moleskine, e foi-se embora, deixando tudo calmo....

Mas o karma é um grande camelo vingativo.

Não só as vizinhas não voltaram, como a televisão se voltou a ligar passadas 2 horas - calculamos nós por estar ligada a um qualquer temporizador para afugentar ladrões (há muita gente que deixa as televisões ligadas para parecer que está sempre gente em casa).

E agora a minha vida é isto.
Estou a viver desde sábado à noite ao lado duma infernal discoteca, onde ao som explosivo da voz da Cristina Ferreira, onde os biblots do móvel da sala, de duas irmãs catatuas, dançam furiosamente nas prateleiras.

28 de outubro de 2016

Não sei como é com vocês

Mas eu estou completamente encantada!
A ML cresceu, deixou para trás a imberbe primária, e entrou na escola mais desejada, a escola que eu queria para os meus filhos quando ainda não tinha filhos.
Logo à partida, para quem conhece o sistema de ensino, sobretudo pela experiência de lá ter andado, pensa que sabe o que é mais ou menos possível fazer-se numa escola pública.
Pensa que sabe.
Na minha escola, faltei muitas vezes às aulas para fazer greve de alunos só para ter direito a sentar-me numa sanita, só para ter direito a uma porta fechada enquanto tratava das minhas necessidades, só para ter direito a uma sala que não tivesse pelo menos duas janelas partidas e um estore irremediavelmente estragado. Não tinha consciência de quem seria a culpa do estado daquelas salas, daqueles 'sanitários', daquela Associação de Estudantes. O 'sistema' era o bode expiatório para todos os males escolares, e para a grande fatia de professores que ali reinava, um vagal encolher de ombros enquanto acabavam o cigarro à porta da aula, bastava-lhes para justificar o dolce fare niente da direção, e a certeza de que a fazer-se alguma coisa ali, só se um mecenas despejasse nos buracos do pátio, um grande saco de notas.
Ainda hoje, quando entro na escola da ML, não sei bem que diferenças a separam de outros estabelecimentos de ensino, não sei se aquela escola recebe mais apoios, se arranjou alguma forma de ter mais receita, como é que gere o dinheiro que lhe está destinado no OE, como é que faz, e o que faz, para ser aquela escola. São os professores e uma direção excecional que a alavancam para ser aquilo que é hoje? São os alunos, também eles excecionais, filhos de pais excecionais, que transformam a escola num modelo de escola?
Não. Há também muito disto em várias escolas da cidade, há direções excecionais, há professores empenhados, há alunos muito bons, mas a mística, a mística é que é necessário perceber-se, especialmente pelas outras escolas potenciais de mística.
Para já uma alegria que se nota em tudo o que fazem. Cacifos para guardar tralhas que pesam nas costas; aulas de apoio ao estudo de matemática, português e inglês para alunos com dificuldades e pais inseguros; crianças que se deslocam para a cantina numa liberdade 'encapotada' mas que lhes fomenta a autonomia; uma atenção superior com os pais, envolvidos desde o primeiro dia na escola e diretamente com professores; mails da diretora a dar conta do que se passa com o aluno e o que pensam fazer para o ajudar a melhorar; a ementa da cantina até ao fim do ano letivo, num site da escola que é absolutamente completo, interativo e funcional; uma abertura e um trabalho conjunto, de grande mérito e inteligência, com todas as Universidades das proximidades; protocolos com diversos operadores da cidade, ora oferecendo as primeiras aulas de iniciação à vela, ora atividades tão interessantes como a escrita criativa, o xadrez, a guitarra, as artes plásticas, a esgrima, a patinagem, a multimédia ou o jornalismo, enfim um sem número de ideias com cabeça. Nada parece estar esquecido, da matemática ao hip hop; as crianças podem ter programação, electrónica, design, robótica, animação, entre outras, tudo envolvido diretamente com os pais, numa simbiose que parece que foi ali que nasceu o lema 'como ser uma boa Escola'.
Não, não é um colégio particular, nada disto envolve o meu pagamento, além  das refeições e das atividades extra-curiculares. O que pago pelas atividades da ML agora é exatamente o mesmo que pagava na primária: 90,00€. O espaço é semelhante, o número de funcionários igual, mas a diferença na oferta das atividades é gigantesca. É mesmo incomparável! Porquê?
O contacto com a escola é constante e por email? Já existia email o ano passado. Nunca recebi nenhum. Qual é afinal a diferença. Ordenados? Condições físicas da escola?
Não, que esta é bem mais velhinha, e a outra estava cheia de obras e mimimi.

Acho que é a entrega e o amor que se tem por aquilo que se faz, a motivação dos professores por uma direção competente e crente nas qualidades e nas potencialidades de cada um, e que em algumas escolas é trabalhado ao máximo, e em outras é deixado ao abandono.
É esta a mística. O enaltecimento da pessoa humana, do profissional.
É na motivação das pessoas que reside o segredo: exacerbando aquilo que são as qualidades humanas dos professores e de todos os intervenientes escolares, ao invés de exacerbar aquilo que são as falhas das condições materiais que têm de enfrentar.

E isso a escola da ML tem, e eu estou felicíssima por ela.

27 de outubro de 2016

Dos Lobos (Antunes)

É talvez a pessoa que conheço melhor no mundo e todavia quase não falamos. Para quê? São desnecessárias as palavras entre nós, passámos mais de vinte anos, acho eu, no mesmo quarto, num silencioso princípio de vasos comunicantes que até hoje se mantém. Para além do muito amor que raramente lhe manifestei tenho uma imensa admiração por ele e um orgulho sem limites. Herdou do nosso pai (herdaste do pai, sim, tem paciência) a honestidade, o carácter, a coragem e o horror à mentira. Desde criança foste sempre valente. Se assim à má fi la me ordenassem que dissesse duas características tuas respondia logo a valentia e o pudor, formas supremas da elegância. E isto desde que te conheço, tu que nasceste vinte meses depois de mim (o número vinte deu-lhe para me perseguir hoje) que era cobarde e despudorado e custou-me tanto ver-me livre dessa ganga nojenta, zangado de vergonha comigo. Foste sempre digno e discreto contigo mesmo e com os outros e bem sei, sem mo teres dito, as difi culdades e as dores que sofreste, a carne viva que escondes e eu vejo, a compaixão que não mostras e eu sinto. E a tua oculta e bondosa generosidade. O rigor também, a falta de complacência para com a ingratidão, a pulhice, os sentimentos rasteiros. Claro que tens defeitos: alguns divertem-me, outros enternecem-me, nenhum me incomoda, talvez por serem os defeitos das tuas qualidades da mesma maneira que um automóvel possui os travões adequados à potência do motor. Se fosse Deus não mudava grande coisa em ti: talvez trocasse um móvel de posição, alterasse uma jarra, substituísse um quadro. Na casa não mexia: agrada-me que seja como é. E depois claro que te foi dada uma inteligência superior e isso não vale a pena mencionar porque no meu caso não me serve de nada, ninguém é tão estúpido como um homem inteligente e muitas das asneiras que fi z conhece-las de ginjeira. Lembras-te da mãe - Tão inteligentes para umas coisas, tão estúpidos para outras mas eu canalizei tudo para a escrita, construí-me para isso e os teus interesses são mais variados que os meus. E no meio disto somos tão ingénuos ambos, sensíveis à lisonja, por vezes completamente parciais, cegos em relação aos amigos, de julgamento turvado quando os afectos se misturam nele. É curioso como, sendo diferentes, temos coisas idênticas. O pai não queria filhos, queria campeões de karaté. Conseguiu-os e o preço disso foi uma parte nossa amputada e uma sede de amor sem limites, em ti cuidadosamente escondida. A gaita é que eu sou desbocado e tu não, vivo nas nuvens e tu só às vezes, porque eu vivo nas nuvens e das nuvens e tu tens de confrontar-te com uma realidade imediata que te dá um peso específico maior que o meu e uma relação necessariamente pragmática com certos aspectos do quotidiano. Estou para aqui a escrever isto e a pensar na educação que recebemos, normativa, implacável, no limite da impiedade e da dureza. Quantas vezes nos revoltámos contra ela e, no entanto, que importante foi. Um pai que competia connosco e, mais tarde, te invejava. É terrível a relação do fi lho com o pai, julgando-se mutuamente numa ferocidade sem doçura. Nunca foi doce. Nem tolerante. Que egoísmo horrível naquele homem. E por baixo disso tudo uma vaidade em nós, ou antes uma vaidade nele dado imaginar (a imaginação não era o seu forte, nem o sentido de humor, nem a criatividade) que nos havia feito peça a peça e não fez. Não nos poupava mas poupava-se a si. Dito desta forma parece que lhe quero mal. Não quero. Só que não me acho em dívida: o preço foi alto. Levou a vida que quis, como quis, e impunha-nos à força a sua vontade. É curioso, João: dá-me pena que tenha morrido. Movia-se por paixões, entusiasmava-se e gostava de nós através das nossas filhas por lhe ser impossível amar-nos abertamente. E contudo, mau grado o que acabo de dizer, não duvido do seu amor e de um orgulho genuíno nos filhos, que fazia os possíveis por disfarçar. Estou a ser injusto, de longe em longe descuidava-se. E apesar do que afi rmo, gaita, era, é o nosso pai. Não esqueço as palavras de Herculano a propósito de Garrett que ele repetiu dúzias de ocasiões ao longo dos anos - Por meia dúzia de moedas o Garrett é capaz de todas as porcarias, menos de uma frase mal escrita ou da ordem de Filipe Segundo ao arquitecto do Escorial - Façamos qualquer coisa que o mundo diga de nós que fomos loucos e como esses dois preceitos se gravaram na gente. Isto foi importante para além do que declarei a teu respeito e herdaste dele de facto: a honestidade, o rigor e a coragem. É bom ser filho de um homem desta têmpera e essas qualidades nasceram contigo. Talvez com outro pai houvesses sido igual, não sei. Capaz de todas as porcarias menos de uma frase mal escrita: para mim foi um tiro na mouche. Em cheio. E estou-lhe grato por isso. Estou-lhe grato também pelos irmãos que foram aparecendo, a chorarem como uns danados até aos dois anos, raios os partam. À mãe igualmente claro, de quem a avó nos dizia - Vocês matam a vossa mãe numa convicção que me confundia. Via-nos a apunhalá-la com a faca do pão, a da serrilha grande, e ela a torcer-se na cozinha. Felizmente sobreviveu à faca e segue viva da costa. Agora, há uma semana, sucedeu aquilo do Pedro e de novo te admirei, mano, a tua efi ciência, a tua capacidade de decisão, o teu valor, a rapidez pragmática do teu afecto, eu que de pragmático, pobre de mim, nada tenho. Quando acabaste de operá-lo apeteceu-me beijar-te. Claro que não beijei mas sabes que beijei: és o meu irmão João. Aquele a quem me une um silencioso princípio de vasos comunicantes. E com que alegria repito isto dentro de mim: o meu irmão João. O meu irmão João para sempre. 
15.09.2008 às 18h21 in Revista Visão

As maluquinhas dos filhos

Ontem, em casa, escrevi um post muito azedo.
Talvez alavancada pelo tema quente de ontem, e obrigada a todos os que participaram - tomei o pulso à coisa e fiquei a perceber que para alguns o tema interessa (e muito) e para outros, enfim, é só uma imensa gargalhada.
Avante.
Não publiquei o post, e fiz bem. Desde que li este magnífico post da Miss Smile, tendo a pensar melhor nas minhas azedices, nas minhas toinices, antes de as publicar. Talvez seja isto a maturidade! ou talvez isto seja só o princípio de algo muito triste.
A Miss Smile disse duas coisas que me chamaram a atenção: uma foi que gostava de 'prestar atenção ao discurso das pessoas quando dizem mal de alguém', e a outra foi que 'o que lhe prendia a atenção era, na verdade, o que aquela pessoa dizia de si quando falava mal de alguém'.
Isto é maravilhoso, digo-vos eu daqui de onde escrevo. É preciso uma experiência de milhares de anos para aprender a falar mal de alguém sem deixar tudo em cacos, quer dizer, os outros e a nós mesmos, e eu, no meu post de ontem, não estava a falar mal de 'alguém', estava a espingardar em todas as direções, e isso assustou-me.
O tema era muito criativo, audaz até, mas rancoroso; como se  me afetasse de alguma forma, como se de repente algo extraordinariamente mau, vindo das minhas entranhas infantis, me impelisse a escrever sobre uma doença, doença essa que eu atribuía só aos outros, mas que na verdade, segundo as palavras de Miss Smile, era afinal a minha, isto é, estou doente com aquilo que acho doentio nos outros.

Falava eu das 'maluquinhas dos filhos', e de como me perturbam - nesta fase da minha vida - certas e determinadas mães. Determinadas porque são muito determinadas em levar assim a vida, numa maluqueira constante, e determinadas porque são umas mães específicas que eu já identifiquei.
Começava por dizer que estava farta, saturada, pela testa, dessa new species que são as mulheres-filhos, e que fazia de tudo para não as encontrar, só para não as ouvir falar.
Mas depois parei um bocadinho para pensar. Porquê? Porque vês tu, Uva, sempre segundas intenções nas pessoas que sobem o ego à sombra dos filhos, que são pessoas só porque têm filhos, que vivem em osmose romântica com os filhos? Porque não és tu capaz de ver nisso só amor?
A resposta poderá estar aqui: porque eu sou mãe e não amo assim. Para mim os longos meses em casa são mesmo longos, e a opção religiosa de me tornar freira da minha filha, nos claustros da casa, fazendo papas conventuais e outros docinhos, não é o meu tipo de fé.
A minha exposição aqui espelhada. O meu eu-todo-feio aqui disperso nas palavras. A maldicência gratuita de mim própria.
Porquê? Porque me propus eu a falar assim desta gente? Que disparate é este, nesta fase da minha vida, de me encanitar com as mulheres que só pensam nos filhos?
O nosso miúdo ainda dorme na nossa cama. 
What?? O puto já anda nos linguados atrás do pavilhão de ciências e ainda dorme na vossa cama? E ainda lhe puxas a pele para trás quando lhe dás banho, ou ele já percebeu como é que a coisa funciona?
A humilhação que é para mim saber-me falha, falida, e imprópria. A absoluta incapacidade de mudar sentimentos sobre mim própria, comportamentos que tive toda a vida, e de ser egoísta, de ter auto-estima, de não me ajoelhar perante a maternidade a todo o custo, a amamentação, as noites mal dormidas, a pele cheia de sal nos lençóis lavados.
A miúda não toma banho? Não. O sal faz bem à pele.
Não faz, mas agora não em apetece dar-lhe banho, deixa-me ficar aqui, com o meu livro, agora não quero ser mãe.  

Sou só eu que estou completamente farta, fartinha, pela testa, das 'maluquinhas dos filhos'?
Ou pelo contrário sou eu que sou totalmente maluca?

Tenho tanta coisa dentro de mim que não entendo.
Talvez me interne dentro de um livro, e nunca mais me esqueça que isto das letras, isto de escrever, isto de dizer coisas dos outros que na verdade são as minhas, é que me faz um mal terrível.

26 de outubro de 2016

Kids Market ou Mercadito, eis a questão

Não sei, sinceramente, para onde me hei de virar este fim de semana.



Do espetacular Vasco Gargalo, uma ilustração que diz tudo sobre injustiça, sobretudo da injustiça que ninguém parece ver: a exploração infantil, também nos blogs.

http://ilustragargalo.blogspot.pt/

Desculpem, por favor, mas tenho que o dizer outra vez:

Não posso, não quero, e não concebo, a continuidade da exploração infantil em blogs, como pretexto para as mulheres que por algum motivo (escolhido ou imposto) decidiram fazer da sua atividade profissional uma variante suja das stay home moms, utilizando os seus filhos como receita.
É sujo, é horrível, e custa-me muito saber, que as marcas que patrocinam mercaditos e quejandos estejam dispostas a tudo, sobretudo dispostas a ser cúmplices de um roubo humano, como o roubo da infância das crianças, perdidas em incontáveis e inconcebíveis sessões fotográficas, no veste e despe, sobretudo do despe, na praia, nos seus quartos, na sua intimidade, autênticos bonecos de montra blogosférica, para aumentar lucros.

Se há tantas vozes que se levantam, como a minha tantas vezes, contra a publicidade encapotada em blogs, não entendo como é que essas vozes não se viram contra a exploração infantil encapotada em blogs.

Isto não pode continuar.

24 de outubro de 2016

Ahhh os encantos dos Recursos Humanos

Não há nada como ter uma profissão eclética.
A pessoa faz perninhas em todo o lado e torna-se logo mais compreensiva no que diz respeito aos traumas profissionais de cada departamento.
E há com cada traumatizado, credo.
Desta vez, como algumas vezes, urge voltar a fazer uma pequeníssima seleção de candidatos à guilhotina estagiária do Rule of Law.
Estamos cá é para isso, não é verdade? Para cortar umas cabeças...
Devo começar por dizer que é uma guilhotina muito fina, muito afiada, que corta antes de cá meterem a cabeça, por isso a seleção é feita (logo à partida) tendo em conta uma série de condicionantes, nomeadamente as que mais condicionam: nota final, escrita, CV, e entrevista.
Assim sendo, para não perder aqui o raciocínio, queria dizer-vos que durante a minha (vastíssima) vida académica, e depois laboral, houve um tempo em que me dediquei aos estudos (e naturalmente à aplicação dos estudos) na área dos Recursos Humanos.
Uma das coisas que me lembro foi a de me encanitar com a palavra 'recursos'. As pessoas não são recursos, as pessoas são carne para canhão, e isto, parecendo que não, faz uma grande diferença.
Vejamos:
Os estagiários são exatamente o quê, senão carne para canhão?
Ora, se isto é verdade, se já milhões de pessoas importantes escreveram sobre isto, concordam com isto, defendem isto, qual é o problema de um estagiário enviar um CV que se assemelhe a uma ... bala.

Foi o que fez este estagiário, quando resolveu dobrar o seu CV como se fosse um cartucho e enfiá-lo nos canos serrados de um envelope.

Posso assegurar que dos 140 aborrecidos CV´s que recebi durante esta semana, este foi o único que abri. E não foi uma bala, foi uma bomba.
Passa já à Administração que é um tiro!



21 de outubro de 2016

Cada vez mais baralhada das ideias, com as ideias baralhadas dos outros

Há certas coisas que me põe nervosa, sobretudo se for antes do almoço.
Uma delas é esgrimir argumentos com alguém que, sendo um profissional ligado à contabilidade, se arroga na defesa do indefensável, sobretudo no que diz respeito a impostos.
Não sou nenhuma iluminada das ciências matemáticas, mas não balizo (e não pondero) um pedido de fatura, na hipótese do vendedor estar ou não estar no início de sua atividade, praticar ou não praticar preços muito baixos.
Se está no início da atividade e se pratica preços baixos, é da sua inteira responsabilidade. Ora eu, que nada tenho a ver com isso, com as decisões dos outros sobre a forma de gerirem a sua atividade, não posso permitir que penda sobre mim o ónus do sucesso ou insucesso do marmiteiro por pedir ou não fatura sobre a minha marmita, seja qual for o preço praticado, seja, em última análise, qual for o motivo.
Para mim a coisa é simples: há regras a cumprir pelas empresas. Eu também cumpro regras, eu também pago impostos (que não me apetece nada pagar), eu pertenço a este sistema, este sistema funciona assim. Não sou a maluquinha das faturas, um palito uma fatura, mas faturas de almoços, meus amigos, temos pena. Peço sempre, indiferentemente do preço.

A discussão: Que tive 'a distinta lata' de pedir uma fatura por um almoço de 3,50€.

Para vos enquadrar:
Temos um novo fornecedor de marmitas, que além de permitir a encomenda do almoço no próprio dia (coisa que dá imenso jeito), vem entregar à porta, traz a comida naquelas embalagens de plástico dos take-away, que vem mais ou menos bem servida, e cobra por isto 3,50€.
Já várias vezes nos indagámos como é que o marmiteiro consegue fazer a marmita tão barata, se pensarmos que inclui entrega, embalagem e que até nem vem mal servida.
Na minha curiosidade doentia, o que fiz foi sondar o novo fornecedor e pedi-lhe, à queima roupa, uma vulgar fatura.
Não tinha. Que podia passar um recibo verde depois de vários pedidos, espaçados dois ou três meses entre cada um, mas que seria uma grande maçada, sabe lá, fatura a fatura, imensa papelada, não dá jeito nenhum.
Ahh, bom! Estou esclarecida. Não passa fatura - não paga os impostos.
Contei isto às restantes clientes, e, qual não foi o meu espanto! fui logo atacada pela turba em fúria.
Que o senhor estava a tentar sobreviver, que fechara um negócio falido e estava a tentar levantar a cabeça, que pedir fatura por um almoço de 3,50€, era além de muito feio, maldoso.

Estarei a ouvir bem?
Deverei então sucumbir à caridade, ser boazinha e bonita para com aqueles (todos) que dão inicio a uma nova atividade, e aplacar uma atividade económica que cobra exatamente aquilo que quer cobrar por uma refeição ao domicílio, sem pedir a fatura que me é devida, por direito, sob pena de destruir a vida de um pobre comerciante que decidiu fazer a sua atividade sem pagar os respetivos impostos?

E esta gente não entende que, para mim, alguém que pondera abrir uma atividade sem pagar os impostos é um empresário do chico-espertismo, que acha que está acima de todos os outros que cumprem a lei?
Entendam: ninguém está acima da lei, além dos que controlam a lei.

E nós por cá temos... (que isto não podem ser só esculturas)

Vasco Gargalo. Um monstro da ilustração que é português... e que esteve ontem no 5 para a Meia Noite e eu fiquei super contente.



E Sofia Neto, que ficou entre os 200 melhores do mundo, também na ilustração, com o cartaz que criou para o primeiro Figueira Film Art - Festival de Cinema da Figueira da Foz, em 2014.



Para quem gosta ou já gostou muito de BD (e eu já fui uma grande aficionada, até a minha mãe me dar o EXODUS do Leon Uris para ler numas férias - o que acabou por ser a razão para do meu maior interesse histórico que é o Holocausto), acho que é daquelas coisas que nunca, nunca se esquecem.
Além disso é a melhor dica para as mães que se vêem e desejam para convencer a gaiatada a ler.
Investiguem.
Vale muito a pena.