[Sobretudo no esquecimento.]
É uma vertigem igual à que senti quando subi aos píncaros da Catedral de Colónia (Kölner Dom). Uma vertigem negra, gótica, cava. A certa altura não consegui meter um pé a seguir ao outro, e sentei-me no chão, indiferente aos que davam passos decididos em direção ao céu.
A vertigem é mais profunda quanto mais alta é a igreja.
É um belo pensamento se o adaptarmos a Pedrogão.
Ainda não falei sobre Pedrogão.
Ainda não falei sobre culpas e desvarios, sobre aproveitamentos e desperdícios, sobre a temática da caridade barata - um tema que me é tão caro - ou sobre como um país consegue ser ao mesmo tempo tão pobre (em liderança) e tão rico (em solidariedade).
Li na página do Pedro Boucherie Mendes que, e passo a citar, 'a terrível e inominável mortandade que aconteceu por causa do fogo comoveu o país e fez com que muita gente arregaçasse as mangas e… aproveitasse para dar uma limpeza nos seus roupeiros.'
É uma vertigem voraz, esta em torno do desperdício de doações, sobretudo de roupa usada e calçado sem solas, que as pessoas teimam muito em enviar em catadupa para as catástrofes, para os terramotos, para as secas, para todo o lado em que lhe pareça que as pessoas estão nuas, ou descalças.
Na
TSF, a jornalista Bárbara Baldaia diz que solidariedade não é limpar armários, e fala de um vestido de noiva dentro de uma caixa que chegou a Pedrogão.
Uma metáfora para a alguém que possivelmente ardeu com o casamento, ou tem uma visão muito romântica dos acontecimentos.
Não há ninguém quem nos ensine a solidariedade, como não há ninguém que nos ensine sobre incêndios, ou sobre o mar. Somos constantemente colocados à prova, nós, o povo português, para agirmos em situações para as quais não estamos minimamente preparados.
Lá vai o marido obeso, depois de comer uma valente feijoada, salvar a mulher que não sabe nadar mas voltou as costas à onda. E lá morrerem os dois, muito agarradinhos, um ao pescoço do outro, como morrem os velhinhos, muito agarradinhos, queimados pelas chamas.
Não quero esmiuçar a questão da culpa porque de resto somos todos culpados.
Os enormes eucaliptos que ladearam desde sempre a estrada que ia dar ao monte da minha bisavó, lá no Serro da Bruta, na remota Corte-Brique, nunca arderam. Lá passaram um sem números de carroças puxadas por bestas, burras e mulas, amigos que lá iam ajudar na matança do porco, ou na apanha da cortiça, os filhos, as noras e depois os netos, os amigos dos netos, as mulheres dos netos, um sem número de cabeças, também de gado, que por ali pastavam e viviam sem sobressaltos de maior, a não ser uma outra trovoada, que vinha quase sempre do lado espanhol.
Ardeu-lhe muitas vezes o coração, porque teve ferventes paixões, mas nunca lhe arderam as árvores, a casa, ou os animais.
Por outro lado ninguém esquece a caridade dos outros, quero dizer, os mortos esquecem, mas os que ficam vivos não podem senão viver com essa amalgama na cabeça, porque a caridade é uma amálgama viva de emoções misturada com os trapos velhos dos caridosos.
«Quando a minha família e mais umas centenas de milhar vieram das ex colónias sem nada, repito, sem nada, foram muitas as coisas que nos deram. Muitas dessas coisas não davam para vestir. Mas tudo gentilmente agradecemos e se não dava para usar dava para limpar o pó ou para capacho de limpar os pés, porque nada tínhamos. Foi desse lixo, que a minha mãe fez o meu vestido de baptismo. A necessidade aguça o engenho e a arte, para quem não sabe.» (Américo Varatojo)
Não posso concordar mais com o Pedro Boucherie Mendes quando ele diz que a “Caridade” tem de se profissionalizar de uma vez por todas. Não é possível ajudar ninguém, quando num só dia se recolhe mais de um milhão de euros para uma causa sobre a qual ainda ninguém sabe a causa. Vai ser um deboche esse dinheiro nas mãos erradas, como é um deboche a criatura que limpa armários para fingir a compaixão, enviando para Pedrógão os seus velhinhos trajes de Carnaval.
Pedrogão será mais um ponto negro no meio do nada, um asilo de lixo, um exemplo cabal daquilo que actualmente se chama de 'second disaster donations'.
A cair.
Sobretudo no esquecimento.
Dos que nada fazem para nos ensinar.
A caridade.