8 de abril de 2015

Este sargo não é um urso.





Este grande a anafado urso, vive cá em casa desde os 17 meses da ML.
A primeira vez que o viu mandou-o para o chão muito zangada. Queria um urso.
Oito anos depois, o ´Nemo´ resistiu a todas as birras, e dorme, em cadeirinha, com a minha pequenina, que já calça o 33.

Aproveito a oportunidade para agradecer ao Paulinho da Fresenius Kabi, que simpaticamente me trouxe o Nemo (bonequinho oferecido a crianças hospitalizadas) de quem gostava muito e de quem tenho muitas saudades.

Aos que viajam e se dizem mais sábios, duas palavrinhas.

O saber comparado, aquele que muitos atribuem aos viajantes, aos que se deslocam fisicamente para outros locais, quanto mais longe melhor, mesmo que seja um hotel perdido e aborrecido nas Caraíbas, onde só existem Gin e baratas voadoras, é algo que busco incessantemente adquirir - apesar de não concordar nada com a teoria acima descrita - por saber que é de facto na comparação que se descobre o erro e que adquirir saberes e sabedoria se pode perfeitamente igualar, e até ultrapassar, por quem nunca viajou, ao imensamente viajado. Há por isso uma forma de viajar no saber, comparando-o apenas com a intelectualidade de outros, sem necessidade de grandes viagens físicas, porquanto ainda é possível através dos sentidos, mormente da visão, ler e apreender, desformatar ideias, arquétipos, pré-conceitos, traumas e soberbas, que vimos colecionando através do nosso consentido e incomparável comodismo.
Sou pouco viajada e no entanto viajo muito. 
Costumo perguntar aos amigos que viajam, quantos livros compraram. Quase nunca compram livros, essa agora, sair para visitar um país e regressar com a mala atravancada em papel. Trazem antes as memórias e as selfies, que mais precisam de trazer de uma viagem?
Pergunto eu, que quase nunca viajo, franzindo o cenho aos senhores das teorias, decerto muito viajados, tentando (em bom português do Brasil), tirar sarro do pobre, que saber é esse dos viajantes, que comparado ao outro saber, ao meu por exemplo, dos livros e da globalização, se agiganta ou se denota mais, perante a minha atestada e consentida saloiice de moça queda e segura em terra?
Quantos são? São mais que nós? Não sabem, viajar não serve para contar locals. Vivem de quê, plantam batatas, exportam tomate? Não sabem, viajar serve para comer e descansar, não serve para andar de volta da agricultura e do mapa de exportações.
Mas tu não sabes, dir-me-iam perdidos no 4ª parágrafo da teoria que vem dizer que quem viaja volta mais esperto, 'nunca provaste um soberbo caril na Índia, ou o mais saboroso caranguejo em Moçambique'. E eu talvez retorquísse que sim, que nunca fui à Índia mas que já provei o melhor caril de caranguejo de que há notícia neste mundo. O tal viajante que comeu caril na Índia sabe mais de caril que eu? Dificilmente. Sei tudo sobre caril. Não é a mesma coisa, diz-me. Pois não. Rio-me da parvoíce que acabo de escrever, e continuo na minha.
Não considero maior o saber de quem viaja, digo eu da minha experiência, do que aquele que nos é trazido por outras formas.
A pessoa que viaja, quero eu dizer, não é obrigatoriamente mais sábia, mais intelectual, mais inteligente só porque se transporta.
Em suma, não entendo a teoria. Passemos à prática.
Lembrei-me de falar disto porque sem tirar os olhos de um bocadinho de prosa, lida de perna traçada na varanda da minha casa, aqui perto de Lisboa, viajei nas minhas reminiscências e comparei o meu saber, o meu dogma, e a minha ignorância, sem sentir necessidade de deslocações.

Perguntava então a nossa Anabela Mota Ribeiro numa das suas belíssimas entrevistas - e desculpem-me esta minha insistência (e interesse) nas narrativas que as pessoas fazem de si próprias e das suas vidas através das entrevistas - ao psiquiatra José Gameiro, especialista em terapia de casal vai para mais de 30 anos fora de Portugal, se as vivências familiares, o mau exemplo da relação dos pais e a história com/e na nossa família de origem, dita de alguma forma o modelo apreendido e o faz reproduzir-se.
E ele responde assim, de forma tão imensamente controversa às minhas mais profundas crenças, que versam que a família tudo dita na construção social futura:

Sou um filho de pais separados. A relação conjugal que vi foi sempre de tensão e conflito. No entanto, o meu modelo de relação conjugal não é de modo nenhum esse. Vivo muito mal numa relação conjugal conflitual. Não tenho dúvidas de que a história pessoal influencia, mas com a idade e a experiência clínica acho cada vez mais que as pessoas se podem libertar da sua história passada.

Viajei. Comparei um saber e saí mais sábia.
Nem sequer fui longe.
Se tivesse ido a cem países talvez não me encontrasse com José Gameiro.
 

Venham ver, venham ver!!!

Já vos tinha aqui confessado a minha enorme tristeza por não ter animais em casa.
Uma miúda que desde sempre foi mimada por animais, casa-se, e anda quase 10 anos a chegar do trabalho sem ter umas patinhas para a receber.
Triste.
A minha vida foi repleta, muito por culpa da minha mãe, de todos os animais que me foram apetecendo ao longo da vida. Tivemos uma galinha branca, muito estúpida, que adotei no monte da minha bisavó e que criámos sem nunca a termos comido, tivemos um ouriço muito simpático, e muito cagão, que o meu pai adotou numa das suas viagens para Lisboa, tivemos uma lebre de grandes orelhas chamada Lé que nunca correu mais depressa que eu, tivemos muitos milhares de bichos da seda que desapareceram misteriosamente de uma semana para a outra, tivemos uns quinze hamsters que adoravam fugir da gaiola e enfiar-se por debaixo do frigorífico, tivemos um cágado que apareceu pintado com as cores do Benfica, tivemos uns 20 gatos e gatas, todos vadios, e enfim, toda uma panóplia de ratazanas porreiras que viviam alegremente nos quintais da vizinhança, comendo sobretudo os pombos à minha avó.
Mas tudo tem um fim, sem nunca se acabar.
Recomeço pois, agora sem medos.
Acabou-se a casa fria.

Tenho um enorme prazer de vos  apresentar, em primeira mão, ainda na casa da ama de leite, agarrada a um caranguejo, a linda, a bela, a ESPETACULAR...
Mequinha!!
A gatinha de 2 semanas, que encontrámos muito perdida, muito pequenina, mas muito decidida, na Aldeia do Meco, será o recomeço de uma nova história.
E é assim, que de repente, uma casa fria, uma casa terrivelmente fria, se torna e se transforma no lar de um felino que ainda mal se segura nas patas mas que já conquistou o coração de todos.
Mequinha, vais ser a nossa primeira gatinha.
Boa sorte!





7 de abril de 2015

Uma no cravo, outra na ferradura

Que é como quem diz, não há mal que sempre dure, nem bem que nunca acabe.
E eu, pelos vistos, não posso andar bem, isto é, poder posso, que posso, mas perco pouco tempo nesse doce viver, e logo encontro a maldita sarna para me coçar, para escarafunchar, e ainda não passaram 4 dias desde que recebi 'a' notícia e já tenho a pele numa desgraça.
Isto tudo por causa da escrita que há tempo me vem consumindo os olhinhos. 
Isto e o inverno rigoroso, nojento, que nos obrigou a longos períodos em casa, de roda dos livros mais grossos, que as (más) editoras insistem em editar com letras impossíveis de ler para não assustar os leitores, e de roda dos livros mais finos, e deixa cá ver que este até se lê depressa, e de roda dos blogues da vizinhança, e de outros que sigo às escondidas, e à roda de tudo e de nada, esforçando a visão com candeeiros do IKEA que dão tudo, até ovos, mas luz é que nem pensar, e ainda esta fobia que eu tenho de perder pitada das notícias da atualidade e devorar vorazmente tudo o que vem de novo e tudo o que se foi de velho.
Resultado: a somar às 4 dioptrias de miopia do olho esquerdo, quase morto de amblíope, e às 1.25 dioptrias de miopia do olho direito, meu salvador, único farol da minha vida (se por um acaso esdrúxulo descontinuarem as cangalhas), ainda fui arranjar com esta brincadeira mais 0.50 de miopia ao olho coxo que também lhe deu para ser estigmático, o cabrão, e mais uns pózinhos de miopia que não sabe estar quietinha, no olho direito, o tal que me guia.
Estou que nem posso.
Andei eu até à idade adulta a fugir das cangalhas como o diabo foge do paraíso, para agora, e nesta funesta idade, em que necessito de todos os meus atributos para me sentir (ainda) uma jovem e (ainda) interessante  mulher madura, digo, adulta, e ser forçada a usar dois ridículos fundos de garrafa de Gin em cima do nariz adunco - que se fossem de Vodka ainda se aguentavam, mas não, são mesmo de Gin - e foi exatamente agora, e a propósito daquilo que me dá mais prazer, as letras que me entram pelos olhos e as letras que me saem pelos dedos, que me vejo, isto é, que não me vejo, metida neste molho de bróculos, ou seja, neste molho de óculos.
Mas não pára aqui a sarna, qual bicha carapinteira, porque também entra na equação o verão, e ninguém, mas é que NINGUÈM me obriga a levar as cangalhas para a praia.
E falo de quê?  Pois com certeza, na treta das lentes de contato, a pior porcaria que os especialistas em lentes de contato inventaram, cheias de caraterísticas maravilhosas, dizem eles, que são de Olhão, olha não, hidrófilas, hidrófobas, híbridas e de hidrogel, diárias, suaves como seda, mas que a mim só me fazem é comichão como se andasse um anormal qualquer à minha frente a soprar-me areia para os olhos e a tirar-me aquilo do sítio sempre que rebolo os olhos perante uma alarvidade qualquer, ou quando me passa algum Adónis pela lateral.

E ainda se fosse só isto, das cangalhas fundo garrafão, das lentes merdosas e da lágrima artificial, vejam bem, que agora nem chorar com as minhas próprias lágrimas me deixam, e ainda a faturinha, a piiiiiiiiii da faturinha com nº de contribuinte, referente ao aumento das sacanas das dioptrias.

Quer dizer, isto pelas minhas contas, e não há-de tardar muito, está aqui a vossa Uva a escrever impropérios ao patrão porque precisa desesperadamente de outro aumento substancial para pagar a troca integral dos globos oculares, quem sabe se da cabeça toda.

Isto a velhice não perdoa. 
Credo! Estou a sentir-me mal. 
Tragam-me os vinte sais! 
Tragam-me os sais.

6 de abril de 2015

Outro ponto de vista

 Se olhar para isto...


Lembro-me sempre disto.


Se fizer isto (assim desta distância não me parece difícil)...


Acabo assim!


Se vejo muito disto...


Há sempre quem nunca tenha visto nada assim.


Less is more (ou então) Less no More.
Fico sempre na dúvida.
E na dúvida, dou um grito!
Alguém há-de aparecer.


Pareceu-me uma eternidade

Bom dia.
Regresso hoje ao meu blogue 4 dias depois da maior pausa que fiz por aqui.
Pareceu-me uma eternidade. 
Julguei mesmo, e pairava sobre mim a dúvida, de já não me lembrar como era, como arranjava eu um assunto novo todos os dias, como alinhava as frases sem deixar a ponta solta, respondendo, na medida do possível, e do cansaço, a todos os que me visitam e falam.
Bom dia.
Foram dias bonitos. Esqueci-me de tirar fotografias mas ficam aqui, na memória das letras.
Na 5ª feira, aproveitando uma clareira que agradeço à Páscoa e à sofreguidão do ir, sentei-me aqui, neste mesmo sítio, coloquei as mãos na cabeça, fechei os olhos, fiz três forças e pari uma lista.
Tempo de casa; horários; projetos individuais; capacidade de trabalho. As férias.
A minúscula lista, que dobrei cuidadosamente em fole, encolhia e esticava à medida que se me afloravam mais tópicos. 
Não posso esperar mais tempo. Seja o que for, será.
Garatujei outras três ideias na pequena folha  e encolhi-me como ela. O nervoso miúdinho dá-me frio. 
Quantos diálogos tive eu comigo própria? Quantas vezes ensaiei o tema, dei respostas possíveis e impossíveis, fiz caretas, ri-me perante a satisfação, ainda que improvável, dos meus intentos?
Quatro dias inteiros de projetos. 
Muito projeta uma família suburbana na mudança da estação.
A miúda não pára de crescer. Tudo estica, mas os pés dão muito avanço. 
Por toda a parte se vêem famílias de miúdos com pés selvagens, a maioria avançando destemida para um 41 quando ainda mal sabem dar a laçada nos atacadores.
Onde vão parar estes pés? Que caminhos? 
Veste e despe, não gosto desta, não quero vermelhos, isso é de bebé.
Tu és o meu bebé, dá-me mais algum tempo meu amor, deixa-me por-te o laço e apertar-te num abraço. Depois largo-te a mão, mas ainda não, que não sabes caminhar.
Bom dia. Preciso de lhe falar. Trago aqui uma lista, espero que não se importe. Não quero esquecer-me de nada. Sim, estamos só nós. Podemos conversar com mais tempo. Sente-se e diga-me o que vem por aí. Não em diga que... Ohh, não me diga que...
Chegámos cedo para almoçar. O gatinho bebé que miava por debaixo do atrelado ainda tinha um olhito fechado. Ohh, que coisa maravilhosa, já não me lembrava de como são lindos os gatinhos e de como nos despertam o instinto maternal, ou animal, ainda não sei. Não sabemos o sexo, mas como nasceu no Meco, será mequinho ou mequinha, e por enquanto, o dedo de luva furado e um leitinho morninho salva-lhe a vida. 
Salve-me a vida. Mostre-me um caminho, dê-me uma esperança.

Regresso hoje ao meu blogue 4 dias depois da maior espera que tive por aqui, neste mesmo sítio, onde agora me encontro.
Pareceu-me uma eternidade.
E porque me cresceram os pés , faço agora novos projetos.
Porque a vida vai mudar.
E não vai ser para pior.

Bom dia.
Saudades vossas.

2 de abril de 2015

Os intocáveis

Erik Ravelo  é um artista completo. Cubano.
Nas áreas a que se dedica, da escultura à pintura, da fotografia  à multimédia, em todas se destaca pela polémica e realismo anti-hipócrita, recusando a arte calada, a arte do 'faz-se o que se pode, não se faz o que se quer'.
As imagens infra, que são já de 2012 - apesar de só as ter visto hoje pela primeira vez - correram mundo e fazem parte do trabalho  THE UNTOUCHABLES que o artista produziu e fotografou.
Embora de grande impacto visual, que não nego, transparece um trabalho interessante e corajoso.
O que retirei das imagens, e porque as observei durante algum tempo, foi que também os agressores, posicionados em forma de cruz, estão também eles crucificados pela corrupção, pela pedofilia, pela intolerância religiosa, pela misoginia, pela tormenta, pelo ódio, pela soberba e pelo povo, que sabem quem eles são, onde estão, como se comportam, e que os combate, cada vez com mais fervor, há muitos anos.
Podemos não ganhar a guerra toda, mas travaremos muitas batalhas, cada vez mais fortes, contra as atrocidades cometidas contra todas as crianças do mundo.


 Abuso sexual de crianças no VATICANO

 Guerra civil na Síria, guerra por todo o lado. Matando inocentes.

 Abuso sexual de crianças no turismo na Tailândia/ Brasil

Obesidade criada por empresas de Fast Food

 Tráfico de órgãos no mercado negro de crianças de países pobres


Industria das armas, gangues e tráfico de droga.



THE UNTOUCHABLES
Erik Ravelo / F A B R I C A 2012
Creative Direction and Concept: Erik Ravelo
Photo: Erik Ravelo / Enrico Bossan
Post production: Erik Ravelo
The Right to Childhood
Should be Protected.
Images and concept protected by the law
2012 F A B R I C A

Loucuras

Loucuras



Loucos existem em toda a parte. 
Em 2013 um maquinista entrou numa curva em Santiago com o dobro (ou mais) da velocidade permitida e assassinou umas dezenas de passageiros. Em escolas americanas sucedem-se entradas de jovens armados até aos dentes que matam tudo o que mexe. Em Portugal entra-se com um Governo que vai matando de fome e nos bancos dos hospitais uma data de gente e anuncia, com ar satisfeito, que tem os cofres cheios (de dívida e de saque). Nas televisões entra-se com reality shows em catadupa que têm por cerne o amesquinhamento e a desumanização de gente inqualificável que se prontifica a trocar a dignidade por notoriedade. Em países civilizadíssimos entra-se com loucos que fazem caça a jovens que estão acampados e, tiro a tiro, os abatem sem dó nem piedade. Em países menos civilizados entram com armas nas mãos de crianças para executarem reféns. Noutros, ainda, entram com bandos armados e raptam dezenas de jovens para servirem de escravos.
Uma barbárie completa centrada no egoísmo, no individualismo, na ambição de fama tout court e no espectáculo mediático, com ou sem razões ideológicas à mistura, com ou sem fanatismos que mais não são do que a procura do notável que transforma a loucura em notícia e escarrapacha, através dos vendedores de notícias, a cara e o nome de quem quer ressair do cinzento.
O louco que aterrou de forma pouco convencional numa montanha dos Alpes foi só mais um desses.
É a amoralidade que andamos a criar.

Do blog do Luís Novaes Tito: http://barbearialnt.blogspot.pt/
 


1 de abril de 2015

E agora que já te passou o efeito da anestesia, o que vais fazer Uva Passa?

Vou preparar-me psicoólicamente para dar início à leitura super divertida, a ver pelos sorrisos de capa, da revista** de publicidade que a Cristina Ferreira lançou.



**Revistinha sonegada por motivos solidários, à sala de espera da dentista. As pessoas estavam todas em agonia, em dores, em próteses e em nervos, muitas com falhas dentárias gravíssimas, e estes dois meninos a rir à gargalhada, com a boca cheia de dentes, num gozo impossível de aguentar. Hic!

Retalhos da vida de um dente

Pedro Dente Molar, nascido e criado numa boca de raízes profundas, conhecido por estraçalhar grossos nacos de pão, besuntados com banha de porco e açúcar, vivera toda a sua vida em grande sofrimento.
Aos seis anos, num jantar de família muito animado, em que se refastelava com um delicioso e suave bacalhau de asa branca, coisa tão rara e preciosa naqueles tempos de arroz com atum, fora repentinamente confrontado com o início de uma dor que lhe havia de ficar para sempre gravada na dentória.
O seu irmão gémeo, Diogo Dente Molar, adoeceria gravemente nessa noite, depois de lhe ter aparecido um ano antes, uma mancha negra no cocuruto que lhe provocava dores lancinantes no corpo todo.
A Senhora Bocana, a mãe que os criava desde os tempos de leite, tinha passado muitos meses num esforço medonho para proteger aquele filho, obrigando todos os irmãos mais saudáveis a trabalhar arduamente, para que o irmão doente, tão doente, e tão frágil, não mastigasse uma migalhita que fosse.
E tudo fizeram para o curar, mas todo o trabalho foi em vão, e aquela terrível mancha, que a todos horrorizava, nunca chegou a desaparecer.
Nessa noite, o pequeno Diogo Dente Molar, levado em queixos para a clínica do Dr. Horror, seria selvaticamente arrancado, sem anestesia, por um decrépito e ferrugento alicate, que sem complacências e à vista de todos, o aventou para um balde sujo e ensanguentado, onde jaziam outros dentinhos, igualmente falecidos, por variadas e desconhecidas maleitas.
Pedro Dente Molar nunca mais foi o mesmo.
Obrigado a trabalhos redobrados por falta do seu querido irmão, agora desaparecido de tão trágica maneira, e instigado pela madrasta, Língueta Dentória, a mastigar tudo o que lhe levavam para casa, foi durante muitos anos o pilar da Senhora Bocana, sendo chamado a todos os banquetes, refeições, cigarros, fados, unhas e dentadas, sem nunca se demitir da sua função de dente molar.
Os anos de trabalhos forçados foram implacáveis, e se a Senhora Bocana se podia regozijar por ter tantos filhos saudáveis e bonitos, o mesmo já não podia esperar do seu Pedro, que a pouco e pouco foi perdendo todas as forças.
Já adulto, Pedro teve aquilo a que se pode chamar de 'intervenção radical'.
Com um buraco que chegava quase até estômago, Pedro estava imprestável, velho e cansado.
Dona Bocana, exausta, levara o seu único filho molar a um médico da treta que lhe vaticinou um desfecho pouco favorável aos dentes da frente. Era preciso tratar aquele dente antes que o dente fosse para o céu dos dentes, obrigando os dentes da frente a fazer todo o trabalho de casa.
E foi assim que Pedro Dente Molar, numa arriscadíssima operação, que meteu chumbo e coisas que tais, se viu paralisado e desvitalizado permanentemente, cumprindo apenas a função menor de ocupar espaço. E dona Bocana ficou feliz, porque o que ela menos queria era ver os seus outros filhos separados uns dos outros, como vulgares códigos de barras.
Doze anos depois, dormindo, Dona Bocana foi assaltada por um objecto não identificado que se preparava para desaparecer goela abaixo. Era o chumbo demoníaco, que depois de anos e anos prisioneiro, se soltara das garras de Pedro Dente Molar, que chorava e esbracejava, dizendo que o tinham matado.

E mataram.
Pedro Dente Molar, foi hoje a enterrar.
Pedro Dente Molar, um enorme dente de três ferozes raízes, lutou até ao fim contra um alicate medonho, enorme, durante uma hora.
E sucumbiu.
Dona Bocana está inconsolável. Acaba de perder o seu último dente molar, e não sabe o que lhe reserva o futuro.
Pedro Dente Molar está agora em paz, junto do seu irmão Diogo, no céu dos dentes.
R.I.P.
Amém.