9 de maio de 2017

OS LOBOS

"– A batalha é entre dois lobos que vivem dentro de todos nós. Um é mau, outro é bom.
 – Que lobo vence?
 – Aquele que tu alimentas!”


É ponto assente, é convicção, é promessa, é terapia, é trabalho, e é trabalho duro, que nunca mais, em tempo algum, a Uva Passa alimentará lobos incognoscíveis, porque inacessíveis à inteligência humana.
Não alimento os meus inúmeros lobos, e só eu sei o que isso me custa, por isso não vou alimentar os lobos dos outros. Lamento.
Bem sei, porque bem sinto, que estar ali a ler uma barbaridade qualquer, a ver uma injustiça qualquer, uma falta de educação, uma filha da putice, e ainda assim, caramba! esconder os dentes na boca para não sair mordendo em toda à gente, é coisa que requer muita perícia e muito sangue frio.
Entendo que há instintos maus que vêm cavalgando a humanidade desde os primórdios dos tempos e que às vezes não é fácil refrear. Uma espécie de instinto pittbull que não olha a nada e nem ninguém para desfigurar a inocente criança.
Mas é preciso ser como os castelos que outrora protegiam os Reis: altaneiros!

Serei a Uva altaneira, serei a Uva leoa.
Ide roer ossos.








 Beth Cavener Stichter - http://www.followtheblackrabbit.com/

8 de maio de 2017

CROCODILOS

Hoje em dia, conseguir boas notas na escola é uma arte.
A quantidade de matéria que os nossos filhos têm de empinar é tão tremenda, que a escola já não é mais aquele bichano afável, que empina o rabo à procura de uma festa... é antes um crocodilo que abocanha a família e destrói os laços com equações e poliedros.
Mas é talvez por isso, por ser uma arte tão difícil, que os pais se esforçam muito por mostrar a todos - e nas múltiplas redes sociais - o resultado desse trabalho, emoldurando testes e notas, enaltecendo o talento artístico dos seus pequenos artistas.
É só triste, e a imagem que acompanha o meu post, plasma na totalidade aquilo que é a minha opinião sobre o tema.
São afinal os pais que vivem desta arte, e não os seus filhos, para darem de comer aos crocodilos amigados nas redes sociais.

#nãoàpublicaçãodasnotasnasredessociais


7 de maio de 2017

CASAMENTO, MATERNIDADE E LÍNGUA

São 10 horas da manhã e o sol entra-me na sala como um  furacão.
Ao meu lado três livros: Amor Líquido de Zygmunt Bauman, para que tenha sempre presente a dificuldade do amor, e a certeza de que só amamos uma vez como só morremos uma vez; A Arte do Romance de Milan Kundera, onde leio, sempre que posso, que 'a ternura é criar um espaço artificial onde o outro deve ser tratado como uma criança' e onde, de resto, aprendi que o amor não é querer ter o corpo do homem nu, mas o rosto do homem iluminado pela nudez do corpo, e mais recentemente, desde ontem, a revista Egoísta, cujo tema é Pátria, mas que fala dos homens da política...

Há muito que não me rodeava de livros para escrever.
Tenho escrito pouco e isso tem-me causado desconforto. É como se tivesse comido (da vida) muito, bebido muito, e que, por algum motivo que é sempre alheio à minha vontade, a minha digestão tivesse parado a meio, e tudo o que consumi frenética, observadora, indignada ou feliz, se perdesse no vómito convulsivo da rotina.
Nada registei, nada conciliei, nada sedimentei, e os dias passaram sem história, indignos de serem lembrados.
Que triste.
João Gomes de Almeida [na Egoísta], por interposta pessoa, diz-nos no seu 'Manifesto contra a Irracionalidade', que 'se queres mostrar alguma coisa a alguém, escreve, estás sempre a ser seguido'.
Gostava muito de não me esquecer disto.

Que augúrios traz um dia de sol tão extraordinário como o de hoje?
Há um relacionamento, um envolvimento, uma correlação engraçada que julgo interessante registar.
Dá-se hoje uma espécie de triunvirato familiar.
É o dia da mãe e é, ao mesmo tempo, o dia de aniversário do meu casamento.
Aqui vão duas, e como não há duas sem três, e se vai aproximando o final do ano escolar, eis que nos aparecem, predadoras, duas provas de aferição que por entremeio dos testes regulares das disciplinas, vêm chamar à colação a matéria já dada - e com que esforço, senhores! - obrigando a esforçada e já escalavrada família ao derradeiro e inútil esforço de legar à escola uma boa colocação no ranking, legando para escanteio a festa de aniversário das alianças..

Blandícia, meus senhores, blandícia e ternura para com o Sistema nesta hora (e em todas as horas) de sonegação dos prazeres familiares em detrimento da merda dos números do PIB.
Isto ou um Manifesto à antiga, com descida na Avenida de lenço preto na lapela, porque vede, estamos mortos, estamos mortos e enterrados nos programas educativos, e isso, lembrei-me agora, faz muito mal ao casamento.

Casamento, maternidade e língua.
Hoje estudamos claudicantes, eu e ela, a difícil mas extraordinária disciplina de português. Ou de Pessoa. É só deixar a miúda acordar para lhe mandar os livros para cima.
Já não são 10 horas. Já são 11 horas, e uma hora já está perdida para os prazeres da escrita, que não sei já se alguém ainda segue.

Escreve. Alguém te seguirá...

Espero-a aqui na sala, onde o sol inclemente banha o ventre rotundo do felino, alheio às deambulações pseudo-literárias de uma Uva que Passa, e estremunhada, há de perguntar, pela enésima vez, para que servem os testes escritos se o que ela gosta mesmo é de pintar bigodes e tingir dentes de preto.

10 anos de maternidade, 12 anos de casamento, 40 anos de língua.
A história vai longa.
Só se ama uma vez e eu não sei o que amo mais que a própria vida.
Se ela, se ele, se este triunvirato familiar.
Amo de certeza este sol que me entra na sala como um furação.
Diz-me com quem escreves, dir-te-ei quem és.

5 de maio de 2017

FIM DE SEMANA


A MENINA PEDALA?

Diz que sim, que pedala, que pedala cada vez mais, sobretudo em Lisboa, à beira rio, e que gosta muito, e que lhe dá muito prazer.

É uma das minhas maiores alegrias desde que Lisboa mexe. 
E Lisboa tem mexido bastante, sobretudo com os Lisboetas. Mas já lá vamos.

Se descerem a Avenida da Liberdade num domingo de manhã, são capazes de encontrar um pombo estremunhado e dois ou três chineses indecisos, mas é sempre a descer pela ciclovia até uma Praça do Comércio quase vazia, com aquele sol que inunda tudo e todos, o rio a clamar brandura, e impondo uma única decisão na paragem obrigatória no Cais das Colunas: virar à esquerda para o Parque das Nações e pedalar pela zona industrial, passando pela Expo, e seguindo sempre pela margem de um rio que nos vai parecendo cada vez mais outro até chegar a Vila Franca de Xira, ou virar à direita e seguir sempre pela zona turística, fazendo das tripas coração para não passar nenhum estranja a ferro, mas que vale tudo a pena sobretudo quando chegamos à  Fundação Champalimaud e podemos apreciar uma arquitetura dessas que não é só de pedra mas que também salvam vidas, e nos orgulhamos de ser, por um lado, magníficos descobridores, magníficos profissionais, e magníficos artistas, e por outro, abençoados por tanta beleza. Mas não ficamos só por aqui porque Lisboa mexe, e mexe com tudo.


Há tempos que já vão longe, lembro-me de aqui escrever - porque é uma convicção que tenho - que a frente-ribeirinha da cidade deveria ser totalmente devolvida ao rio, com a anulação definitiva da linha do comboio (Linha de Cascais) no local onde se encontra, podendo talvez, quem sabe (arquitetos e engenheiros huuhuu!!) passar a subterrânea, criando a possibilidade da cidade se expandir e de se envolver total e completamente com o rio.
Mas se Maomé é teimoso como uma mula, houve quem conseguisse tirar-lhe as palas, e fezer uma incrível ciclovia que vai até Oeiras e que poderia ser um canhão da Nazaré se o rio tivesse ondas, porque pedalamos e sentimos a brisa marítima a entrar por todo o lado e digo-vos, é assim qualquer coisa de extraordinário. 

Mas tudo o que começa também acaba.
Acontece que aqui para a Uva todos os finais são felizes, e como 'saco vazio não se segura de pé', Lisboa oferece no regresso dos ciclistas, e agora todos os domingos, na Praça da Figueira, uma feira de enchidos, queijos, pães e tudo aquilo que engorda e que no fundo nos faz sair de casa com uma bicicleta às costas para pedal quase 60 km de frente-rio.




Meus amigos, não podemos pedir mais nada da derrama turística que enche os bolsos do Medina.
Aliás, podemos.
Mas tenho cá para mim que vou ter muito tempo para falar sobre isso...

4 de maio de 2017

UMA BALEIA NA SALA

Afinal não deixo passar a temática da Baleia Azul.

Não tanto pelo perigo que possa representar 'o jogo' em si - a somar aquela possibilidade sinistra de vermos entrar na nossa sala um filho esquartejado - sobretudo pela pressão do cyberbullying - , mas a forma perigosa e na maior parte das vezes ultrajante, para não dizer andrajosa, com que a (nossa) Comunicação Social, essa lesma pasmada e inerte da investigação noticiosa, decidiu usar para nos informar de como vai o mundo ao redor.
É de facto sinistro chegarmos ao fim de uma notícia do DN, e darmos de caras com uma fonte que sugere qualquer coisa como 'notícia avançada pela Flash através do CM', e zás, está feita a notícia da notícia da notícia, está enchido o chouriço, e agora vamos todos beber um copo ao Cais, que ninguém nos paga para investigar.

Ler o mundo na comunicação social portuguesa deixou de ser algo apaziguador dos espíritos curiosos, fonte onde crentes bebíamos cultura, diversidade e atualidade, onde facilmente chegávamos a conclusões e tertuliávamos sobre elas, avançando no pensamento, construindo novas teorias baseadas nos FACTOS que jornalistas de FACTO nos transmitiam, para ser uma atividade de desconfiança contínua, onde a cada noticia, quase sempre falsa (fake news) tertuliamos semanas inteiras, fazemos verdadeiros inimigos, chamamos nomes ao que teve o descaramento de comentar imediatamente antes, para ao fim e ao cabo se concluir que não, que afinal foi só mais uma estratégia de marketing para ganhar visualizações para publicidade, foi só mais uma parangona escarrapachada em cima de uma mula coxa, cega e doente, chamada 'página oficial de notícias' do Jornal A, B ou C.


Tenho seguido com muita atenção uma série de trabalhos, destacando a página Truques da Imprensa Portuguesa (https://pt-pt.facebook.com/ostruques/) que se tem destacado não só pela belíssima escrita, como pelo  notável, voluntário (e não pago) trabalho de investigação jornalística, um verdadeiro serviço público aos cibernautas que se sentem, e que se prezam,  como aderi com muita fé  - por força de me sentir constantemente enganada - à luta contra o descaradíssimo clickbait.

Pois parece que afinal a Baleia Azul é só um enorme e perturbador elefante no meio da sala virtual.

Foi veiculado pela jornalista Anne Collier do website NetFamilyNews.org (http://www.netfamilynews.org/blue-whale-game-fake-news-teens-spread-internationally), que «estes artigos não são fidedignos e tratam-se de uma manipulação».
Diz o site que «A Polícia Britânica acabou por emitir um aviso sobre o jogo, uma ação que foi replicada por autoridades noutros países, mas a iniciativa foi criticada por estar a dar visibilidade a um 'hoax', uma informação falsa para enganar um grupo de pessoas, fazendo-as acreditar numa informação que não é real.»

Estamos entregues à bicharada.
E o pior é que já nem sequer sabemos em quem confiar.

  

MORRO

Morro de medo de deixar alguém para trás.
Quando me zango muito com as coisas, afasto-me de tal maneira delas que quando me viro nem sequer os meus passos vislumbro.
Depois, apaziguada, ou esquecida, relembro as coisas que fiz por perder e que (agora) me fazem tanta falta.
Volta e meia ponho-me a olhar para o espelho caduco, e pergunto-lhe como fui capaz de deixar escapar as coisas mais básicas da vida.
Umas calças Levis com botões, um Bomber Jacket com um forro quentinho, os meus patins super-sónicos, a minha prancha de windsurf, o meu cabelo cheio de brilho e sem madeixas...
Mas a verdade é que nada disto me faz falta como a falta que me fazem os amigos.
Quando ultimamente me punha a escrever e parava de repente, sem jeito e nem maneira de continuar, lembrava-me sempre daquela vez em que me fui esconder na varanda a chorar, muito aflita, por não conseguir lembrar-me do nome de um único filósofo.
Isto nas vésperas do exame de filosofia.
Passei um verão inteiro sem sair de casa, apesar dos dedos que incessantemente tocavam na minha campainha opondo-se a tanto estudo.
- Deixa esses gajos da mão! Estão todos mortos...
- Tenho de estudar. O verão não acaba ainda...
Nesse verão, quem sabe a quantidade de gente que não conheci, de gente que ficou para trás?
Acordei a chorar numa varanda aberta, virada a sul, um calor infernal, porque deixei ficar para trás a vida de tantos filósofos.
Conhecia-os tão bem como a mim própria, e depois, assim, como que uma bola de sabão que se fina em mil gotas, chorei-os a todos.
Morro de medo de deixar alguém para trás.
Não estamos nunca suficientemente preparados esquecer aquilo que foi.
Às vezes é mesmo preciso voltar atrás.

Não quero abandonar ninguém.
Quero ser aquela miúda simples, de calças de ganga Levis, que voava nuns patins.
Quero ser filósofa mas veraneante, loira mas feliz.

Estou mudada.
Não quero ficar para trás.
O verão não acaba ainda...

Estou muito contente por vos ter chorado a todos, e de me lembrar novamente de todos.
Peço desculpa por ter deixado o tempo correr assim.

3 de maio de 2017

AMÉM




Deixei passar a temática das vacinas.
Da baleia azul.
Do Salvador Sobral.
Da menina mordida por um cão.
Da Coreia do Norte.
Das eleições em França.
Da fotografia de Portugal visto do espaço.
Do Pesadelo na Cozinha.
Da mãe de todas as bombas.
Da escultura de Fátima da Vista Alegre.
Do atropelamento na luz...

Mas isto?
Isto é assim uma espécie de estrondo cultural.
A obra grande de Joana Vasconcelos está para Fátima como Medina está para Lisboa.
É tudo à grande e fé em Deus.

Cultura e civilização: quem vos dá a mão?

2 de maio de 2017

AH, LÚCIO...

"Tu bem sabes. Estou coberto de cicatrizes: no corpo, do ferro dos bárbaros; na alma, das incompreensões e desconsiderações dos romanos; na fazenda, de gastos abundantes, generosos e, por vezes tão mal entendidos... estou triste, amigos, estou desiludido, caminho para a velhice."

Mário de Carvalho, "Um deus passeando sobre a brisa da tarde", pág 43.

Este é Pôncio. 
Não pensem vocês que Pôncio é um enjeitado qualquer, um velho de folha caduca, um caminhante tudo-nada indignado com a vida, pedinchão de misericórdia.  
Não.
Os Pôncios da vida, quando atormentados pelo tanto que fizeram, mal ou bem, tendem para a coitadice e para a pedinchice. Mas são ainda, além de tudo, escravos de si, das suas demandas, das suas decisões, e teimam, porque teimam, em perscrutar quem ainda lhes oiça as palavras. 
É preciso dar a volta ao espírito maligno da preguiça, para que Pôncio volte a ser Pôncio, para que Pôncio volte a subir as escadas erodidas e que, acenando e sorrindo, percorra novamente aquele que foi um caminho benfezejo, apesar da estrada escalavrada.

Pôncio saberá fazer tudo de novo como um bom calceteiro, porque Pôncio (agora) sabe que mesmo coberto de cicatrizes, é preciso deixar tudo escrito, antes que 'sobrevenha o esquecimento'.  

Este é Pôncio.
Esta sou eu.

28 de abril de 2017

CHEGA DE SAUDADE



A todos os que por aqui passaram.
A todos os que por aqui hão de passar.

As feridas passam.
A vida sara.

Retomamos a emissão dentro de momentos!